Hoje, fim da tarde. Tento meter na cabeça do petiz de onze anos mais preguiçoso entre os preguiçosos, os múltiplos pronomes e determinantes que deveria ter estudado há já muito tempo, com vista a fazer um teste de Língua Portuguesa minimamente seguro. Ansioso por ver o jogo Sporting-Benfica, o puto suspira:
-Se eu fizer estes dois exercícios bem, podemos acabar com esta seca?
-Seca?!! Seca para mim, que gostaria muito mais de estar a ler um livro ou o jornal em lugar de estar aqui, a ensinar-te o que tu já devias ter estudado há muito tempo. Estou é a fazer-te um favor!
- Se eu fizer estes dois exercícios bem, a mãe pode deixar de me fazer o favor?
Haiti, príncipe sem porto
Ao meio dia deste domingo. Ouço o programa Visão Global, na Antena 1, com o jornalista Ricardo Alexandre e comentários do embaixador José Cutileito
O Haiti é um dos temas. Estado estabelecido em 1804, a partir de uma revolta de escravos. Mal tratado, quer inicialmente pelos então recentes norte-americanos, receosos do perigo que representaria aquele grito de liberdade de servos privados de quaisquer direitos, quer, posteriormente, por potências coloniais como a França e, de novo, pelos EUA, foi ainda vítima das ditaduras ferozes dos Duvaliers de cerca de trinta anos (aquele Papa-Doc de má memória), concretamente até 1986, e de nunca recuperou.
Num cenário ininterrupto de pobreza extrema, potenciado pela privação de elites bem intencionadas e infraestruturas mínimas, o terramoto e os seus cerca de 200 mil mortos parecem não ser mais do que um degrau na sua vertiginosa descida aos infernos.
Fala-se, no programa, do progressivo esquecimento dos media, mas não se analisam as suas consequências. Talvez nem valesse a pena. Não sabemos todos que esse vai ser um grande problema a associar a todos os que o Haiti já soma?
Carrega-se, sobretudo, na tecla da falta de coordenação no sentido de a ajuda disponibilizada ser eficaz. A ONU e as autoridades nacionais, enfraquecidas como nunca (as intervenções externas ao longo dos últimos anos em nada terão contribuído para o seu fortalecimento, convenhamos), até pela morte de alguns do seus governantes, não se entendem.
Acabam por ser os americanos a imporem-se. O costume. Conheço sobejamente as teorias sobre este assunto. Neste momento não me interessa. Não é só uma catástrofe, trata-se mesmo de um cenário próximo do Apocalipse. Impõe-se quem logra impor-se, não vou analisar as razões de fundo (nem estaria habilitada a fazê-lo). Lei da caserna: manda quem pode, obedece quem deve!
É que pós de boa-vontade manifestamente não chegam. Importa salvar milhares de vidas e proporcionar-lhes mínimos de condições de sobrevivência. E é agora, por que sobretudo cada vez mais esquecido dos media, que o Haiti há-de precisar de apoio eficaz para o efeito.
O preço que depois terá de pagar por isso, logo se vê. Não há-de ficar pior do que já está ou, provavelmente, até do que já estava.
O Haiti é um dos temas. Estado estabelecido em 1804, a partir de uma revolta de escravos. Mal tratado, quer inicialmente pelos então recentes norte-americanos, receosos do perigo que representaria aquele grito de liberdade de servos privados de quaisquer direitos, quer, posteriormente, por potências coloniais como a França e, de novo, pelos EUA, foi ainda vítima das ditaduras ferozes dos Duvaliers de cerca de trinta anos (aquele Papa-Doc de má memória), concretamente até 1986, e de nunca recuperou.
Num cenário ininterrupto de pobreza extrema, potenciado pela privação de elites bem intencionadas e infraestruturas mínimas, o terramoto e os seus cerca de 200 mil mortos parecem não ser mais do que um degrau na sua vertiginosa descida aos infernos.
Fala-se, no programa, do progressivo esquecimento dos media, mas não se analisam as suas consequências. Talvez nem valesse a pena. Não sabemos todos que esse vai ser um grande problema a associar a todos os que o Haiti já soma?
Carrega-se, sobretudo, na tecla da falta de coordenação no sentido de a ajuda disponibilizada ser eficaz. A ONU e as autoridades nacionais, enfraquecidas como nunca (as intervenções externas ao longo dos últimos anos em nada terão contribuído para o seu fortalecimento, convenhamos), até pela morte de alguns do seus governantes, não se entendem.
Acabam por ser os americanos a imporem-se. O costume. Conheço sobejamente as teorias sobre este assunto. Neste momento não me interessa. Não é só uma catástrofe, trata-se mesmo de um cenário próximo do Apocalipse. Impõe-se quem logra impor-se, não vou analisar as razões de fundo (nem estaria habilitada a fazê-lo). Lei da caserna: manda quem pode, obedece quem deve!
É que pós de boa-vontade manifestamente não chegam. Importa salvar milhares de vidas e proporcionar-lhes mínimos de condições de sobrevivência. E é agora, por que sobretudo cada vez mais esquecido dos media, que o Haiti há-de precisar de apoio eficaz para o efeito.
O preço que depois terá de pagar por isso, logo se vê. Não há-de ficar pior do que já está ou, provavelmente, até do que já estava.
De mergulho na Escola Pública XI
Uma boa escola é aquela onde tudo corre bem?
Não, uma boa escola é aquela onde, quando as coisas correm mal, há alguém que se apercebe desse facto e logra inverter o estado das coisas.
A mudança do meu filho, no ano passado, de uma escola privada para uma pública, ainda que com as melhores referências, não foi auspiciosa e por algumas vezes me arrependi da decisão. Dei conta disso mesmo em momentos vários do ano lectivo passado.
Este ano, cumpre-me, por uma questão de honestidade intelectual, admitir que, tal como a Directora de Turma (DT) anunciara no início do ano, a turma do petiz - que, recordo, fora martirizada com uma DT relativamente ausente, ainda que não por sua culpa, e que tinha a seu cargo, para além da direcção de turma ainda quatro ou cinco disciplinas - seria alvo de especial atenção para integral aproveitamento das suas potencialidades.
E foi mesmo o que aconteceu! Antes de mais, a DT actual só tem uma turma para dirigir. É uma pessoa absolutamente empenhada, atenta e disponível e a quem (haleluia!!) é efectivamente possível pedir e facultar informações via mail.
Acresce que acabou o disparate de um professor/cinco disciplinas e, consequentemente, o efeito dominó de faltas durante dias sucessivos.
Dado que os alunos daquela turma foram privados de muitas aulas de matemática, reconhecidamente essenciais para os seus estudos futuros, no ano passado - em virtude das faltas da professora de matemática (que era precisamente a Directora de Turma) - este ano lectivo, uma das aulas da disciplina Área de Projecto é dedicada à Matemática!
Parece simples, não é? Basta estar atento e surgem pequenas soluções que resolvem grandes problemas. Donde se prova o que pareceria impossível, hoje em dia, demonstrar em Portugal: público ou privado é indiferente, é a massa crítica que opera a distinção.
Não, uma boa escola é aquela onde, quando as coisas correm mal, há alguém que se apercebe desse facto e logra inverter o estado das coisas.
A mudança do meu filho, no ano passado, de uma escola privada para uma pública, ainda que com as melhores referências, não foi auspiciosa e por algumas vezes me arrependi da decisão. Dei conta disso mesmo em momentos vários do ano lectivo passado.
Este ano, cumpre-me, por uma questão de honestidade intelectual, admitir que, tal como a Directora de Turma (DT) anunciara no início do ano, a turma do petiz - que, recordo, fora martirizada com uma DT relativamente ausente, ainda que não por sua culpa, e que tinha a seu cargo, para além da direcção de turma ainda quatro ou cinco disciplinas - seria alvo de especial atenção para integral aproveitamento das suas potencialidades.
E foi mesmo o que aconteceu! Antes de mais, a DT actual só tem uma turma para dirigir. É uma pessoa absolutamente empenhada, atenta e disponível e a quem (haleluia!!) é efectivamente possível pedir e facultar informações via mail.
Acresce que acabou o disparate de um professor/cinco disciplinas e, consequentemente, o efeito dominó de faltas durante dias sucessivos.
Dado que os alunos daquela turma foram privados de muitas aulas de matemática, reconhecidamente essenciais para os seus estudos futuros, no ano passado - em virtude das faltas da professora de matemática (que era precisamente a Directora de Turma) - este ano lectivo, uma das aulas da disciplina Área de Projecto é dedicada à Matemática!
Parece simples, não é? Basta estar atento e surgem pequenas soluções que resolvem grandes problemas. Donde se prova o que pareceria impossível, hoje em dia, demonstrar em Portugal: público ou privado é indiferente, é a massa crítica que opera a distinção.
Português, ó malmequer...
Nada como acordar numa nítida e solarenga manhã de sábado de Janeiro e ler isto no Jornal Público on line, para estragar alguns dos seus primeiros minutos - «O que fazer com a água que enche a albufeira do Alqueva?».
Os anos passam - 2010, lembram-se? - e Portugal mantém obstinadamente o seu atavismo e incapacidade de gestão, por outras palavras, «não se governa nem se sabe governar».
Temos a tão ansiada albufeira que, supostamente, deveria transformar o celeiro de Portugal no novo regadio português. Temos chuva com fartura (faltam 20 centímetros para atingir em pleno a sua capacidade). Mas para quem antecipasse o Alentejo da côr de um vale verde numa manhã de Primavera em pleno Verão, mais que não fosse nos tempos dos nossos filhos, com um proprietário/agricultor português feliz, a acenar-nos à passagem (como nos nossos salazarentos livros escolares), o melhor é escolher um país mais organizado para residir: o Governo cria as infraestruturas sem planificação estabelecida em colaboração com os agricultores que, pelo sim, pelo não, vão já dizendo que não têm capacidade financeira nem técnica - leia-se dinheiro, mas também idade ou paciência - para transformarem terras de sequeiro em terras de regadio.
Será que este, como os anteriores governos, alguma vez se aperceberam de que existe uma ciência humana chamada sociologia agrária? Pois deviam. É que um agricultor do Norte, onde as terras são ancestralmente e por natureza de regadio, há-de ser necessariamente diferente de um agricultor do alentejo, habituado ao sequeiro.
Em 2013, portanto, acabará previsivelmente a construção das infraestruturas de regadio, altura em que o Governo à data se aperceberá, então e só então, de que apenas dispõe de uma população envelhecida e tecnicamente inapta a aplicar as técnicas de regadio.
Nessa altura, acreditem meus senhores, vai acontecer uma de duas coisas. A primeira hipótese é a de começarem a ser promovidos cursos de formação tendentes a (discurso habitual que me limito a papaguear) «habilitar os que já se encontram instalados com as técnicas devidas e a atrair os mais jovens» - o que se duvida, já que em 2013 as torrentes de dinheiro de Bruxelas ainda serão menores que as actuais, se é que haverá ainda algumas - com os resultados costumeiros de transformarem em nababos os seus promotores e em desgraçados os que os frequentam e que, inocentemente, colocam as suas expectativas nos cursos ministrados.
Estes últimos, saindo para o mercado de trabalho constatarão que não têm capacidade financeira para serem patrões agrícolas, mas, mais grave ainda do que isso, irão mesmo aperceber-se que não existem de todo empresários agrícolas com um mínimo de capacidade financeira ou técnica, pelo que o seu destino é tão simplesmente o desemprego. Lá teríamos, portanto, mais um movimento migratório em direcção ao litoral, perante o olhar bovino de governantes que assegurarão ser incapazes de perceber a razão pela qual um investimento tão avultado não teve qualquer retorno.
A outra hipótese, naturalmente, será a de recebermos (e com um grande sorriso, se faz favor) nuestros hermanos, prontos a implantar um regadio que o portugueses idealizaram e pagaram mas que, como é hábito, não têm capacidade de instalar ou gerir eficazmente.
Num mundo globalizado, se calhar, nem me devia estar a preocupar com isso, até porque, nesse caso, se não tivermos empresários agrícolas portugueses, poderemos ter, pelo menos, trabalhadores agrícolas portugueses (na triste tradição dos portugueses óptimos trabalhadores/péssimos gestores)...mas, pssst, já agora, podíamos ter pedido aos espanhóis que compartilhassem connosco as despesas deste projecto megalómano (porventura, admito, apenas por ter sido mal planeado mas, ainda que por essa razão, megalómano) não?
Os anos passam - 2010, lembram-se? - e Portugal mantém obstinadamente o seu atavismo e incapacidade de gestão, por outras palavras, «não se governa nem se sabe governar».
Temos a tão ansiada albufeira que, supostamente, deveria transformar o celeiro de Portugal no novo regadio português. Temos chuva com fartura (faltam 20 centímetros para atingir em pleno a sua capacidade). Mas para quem antecipasse o Alentejo da côr de um vale verde numa manhã de Primavera em pleno Verão, mais que não fosse nos tempos dos nossos filhos, com um proprietário/agricultor português feliz, a acenar-nos à passagem (como nos nossos salazarentos livros escolares), o melhor é escolher um país mais organizado para residir: o Governo cria as infraestruturas sem planificação estabelecida em colaboração com os agricultores que, pelo sim, pelo não, vão já dizendo que não têm capacidade financeira nem técnica - leia-se dinheiro, mas também idade ou paciência - para transformarem terras de sequeiro em terras de regadio.
Será que este, como os anteriores governos, alguma vez se aperceberam de que existe uma ciência humana chamada sociologia agrária? Pois deviam. É que um agricultor do Norte, onde as terras são ancestralmente e por natureza de regadio, há-de ser necessariamente diferente de um agricultor do alentejo, habituado ao sequeiro.
Em 2013, portanto, acabará previsivelmente a construção das infraestruturas de regadio, altura em que o Governo à data se aperceberá, então e só então, de que apenas dispõe de uma população envelhecida e tecnicamente inapta a aplicar as técnicas de regadio.
Nessa altura, acreditem meus senhores, vai acontecer uma de duas coisas. A primeira hipótese é a de começarem a ser promovidos cursos de formação tendentes a (discurso habitual que me limito a papaguear) «habilitar os que já se encontram instalados com as técnicas devidas e a atrair os mais jovens» - o que se duvida, já que em 2013 as torrentes de dinheiro de Bruxelas ainda serão menores que as actuais, se é que haverá ainda algumas - com os resultados costumeiros de transformarem em nababos os seus promotores e em desgraçados os que os frequentam e que, inocentemente, colocam as suas expectativas nos cursos ministrados.
Estes últimos, saindo para o mercado de trabalho constatarão que não têm capacidade financeira para serem patrões agrícolas, mas, mais grave ainda do que isso, irão mesmo aperceber-se que não existem de todo empresários agrícolas com um mínimo de capacidade financeira ou técnica, pelo que o seu destino é tão simplesmente o desemprego. Lá teríamos, portanto, mais um movimento migratório em direcção ao litoral, perante o olhar bovino de governantes que assegurarão ser incapazes de perceber a razão pela qual um investimento tão avultado não teve qualquer retorno.
A outra hipótese, naturalmente, será a de recebermos (e com um grande sorriso, se faz favor) nuestros hermanos, prontos a implantar um regadio que o portugueses idealizaram e pagaram mas que, como é hábito, não têm capacidade de instalar ou gerir eficazmente.
Num mundo globalizado, se calhar, nem me devia estar a preocupar com isso, até porque, nesse caso, se não tivermos empresários agrícolas portugueses, poderemos ter, pelo menos, trabalhadores agrícolas portugueses (na triste tradição dos portugueses óptimos trabalhadores/péssimos gestores)...mas, pssst, já agora, podíamos ter pedido aos espanhóis que compartilhassem connosco as despesas deste projecto megalómano (porventura, admito, apenas por ter sido mal planeado mas, ainda que por essa razão, megalómano) não?
Contar até dez
Conto sempre até dez.
Posso é contar mais depressa ou mais devagar.
O que ainda não descortinei é se se trata de uma qualidade, se de um defeito, se me prejudica ou beneficia.
Talvez no meio esteja a virtude.
Vou passar a contar até cinco (já que estamos no ano dez e só para contrariar).
Posso é contar mais depressa ou mais devagar.
O que ainda não descortinei é se se trata de uma qualidade, se de um defeito, se me prejudica ou beneficia.
Talvez no meio esteja a virtude.
Vou passar a contar até cinco (já que estamos no ano dez e só para contrariar).
Carta a 2010
Caro Senhor 2010:
Escrevo-lhe para lhe pedir, se não fôr muito incómodo, que seja um ano diferente dos seus antecessores. Que se digne V.Exª fazer melhor que eles - aqui para nós, que eu não sou de intrigas, os que se sentaram na sua cadeira antes de si andaram para aí a fazer umas maldades muito maldosas (passe a redundância).
Ficam portanto, aqui, os meus votos de que o seu mandato seja longo, se bons forem os seus intuitos, e curtinho se vier por mal.
Este planeta azul e os seus habitantes de todas as espécies sabem, porque a História ensina, que os anos são como os ditadores: aparecem sem serem convidados ou eleitos, abusam do seu poder, usam de arbitrariedade nos seus mandamentos. Não pedem licença, nem desculpa.
Mas permito-me recordar-lhe que o exercício do poder passa também por alguma complacência e bondade. Se pudesse usar delas na maior parte dos seus 364 dias, ficar-lhe-íamos muito gratos.
Na expectativa de que logre fazer o seu melhor, apresento os meus melhores cumprimentos.
Escrevo-lhe para lhe pedir, se não fôr muito incómodo, que seja um ano diferente dos seus antecessores. Que se digne V.Exª fazer melhor que eles - aqui para nós, que eu não sou de intrigas, os que se sentaram na sua cadeira antes de si andaram para aí a fazer umas maldades muito maldosas (passe a redundância).
Ficam portanto, aqui, os meus votos de que o seu mandato seja longo, se bons forem os seus intuitos, e curtinho se vier por mal.
Este planeta azul e os seus habitantes de todas as espécies sabem, porque a História ensina, que os anos são como os ditadores: aparecem sem serem convidados ou eleitos, abusam do seu poder, usam de arbitrariedade nos seus mandamentos. Não pedem licença, nem desculpa.
Mas permito-me recordar-lhe que o exercício do poder passa também por alguma complacência e bondade. Se pudesse usar delas na maior parte dos seus 364 dias, ficar-lhe-íamos muito gratos.
Na expectativa de que logre fazer o seu melhor, apresento os meus melhores cumprimentos.
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