Excertos literários da minha vida - X


Albert Camus

"- M. Othon falou-me de si esta manhã - acrescentou subitamente Rieux, no momento em que Rambert ia deixá-lo. - Perguntou-me se o conhecia: «Aconselhe-o, então, a não frequentar os meios do contrabando, disse-me ele. Está a fazer-se notar.»
- Que quer dizer isso?
- Isso quer dizer que tem de despachar-se.
- Obrigado - disse Rambert, apertando a mão ao doutor.
Já à porta, voltou-se de repente. Rieux notou que, pela primeira vez desde a peste, ele sorria.
- Porque não me impede, então, de partir? O senhor dispõe de todos os meios.
Rieux abanou a cabeça com o seu movimento habitual e respondeu que isso dizia respeito a Rambert, que ele tinha escolhido a felicidade e que ele, Rieux, não tinha argumentos a opor-lhe. Sentia-se incapaz de julgar o que era bem ou mal nesta emergência.
- Nessas condições, porque me diz que me despache?
- É, talvez, porque também tenho o desejo de fazer alguma coisa pela felicidade."

"A peste", Albert Camus.  Ed. Livros do Brasil. Tradução de Ercílio Cardoso.

Na zona de desconforto das propostas irrecusáveis


A história do escuteiro que obriga a velhinha a atravessar a estrada, para mim ilustra bem os episódios últimos da relações entre a Grécia e Portugal, de um lado, e os que nos tentam resgatar dos respectivos pântanos de dívidas e deficiente gestão. O escuteiro cumpre a sua boa acção do dia, a velhinha nada pode contra aquela vontade cega de ajudar.

Sendo obviamente certo que a velhinha teria sempre de atravessar a estrada para aceder ao pote de ouro, sabido era, ainda antes da assinatura do acordo para o segundo resgate grego, que a opção de permanência no euro da Grécia podia ser pior que a inversa (sendo que o contrário também é verdade).

Facto é que expectativas de crescimento económico continuam baixíssimas para a Grécia, mas também para Portugal (com uma economia raquítica e um desemprego galopante...) pelo sinceramente não me  surpreenderá uma eventual multiplicação de propostas à "O Padrinho" de F.F. Coppola, como a do ministro do Interior alemão, Hans-Peter Friedrich que, sábado passado, numa entrevista ao «Der Spiegel», terá opinado que a Grécia deveria sair da zona euro, criando-se "incentivos para uma saída que não possam ser recusados", dado que "fora da União monetária, as hipóteses da Grécia se regenerar e se tornar competitiva serão seguramente maiores do que se ficar na Zona Euro."

Pese embora prontamente contrariado pela Senhora Merkel, como não desconfiar aqui do truque do "polícia mau e do polícia bom", mesmo que não pré-combinado: a um primeiro cheio de ameaças veladas e confusas, segue-se um segundo de veludo, pronto para a negociação?

A supostamente solidária e coesa Europa poderá estar prestes a entrar numa, ainda há bem pouco tempo, impensável e arriscada zona de desconforto das propostas irrecusáveis para negociação de saídas. Será este um dos tais imprevistos que a História lerá como inevitabilidade (aqui)? E alguém tem ideia onde é que isto poderá levar a União Europeia?

Se nada disto acontecer, e acabarmos numa Europa reunificada e fortalecida, serei obrigada a tirar o chapéu aos "escuteiros" que terão visto o que mais ninguém hoje consegue ver.

Amanhã (sempre) José Afonso



 

[Há quem viva sem dar por nada
Há quem morra sem tal saber
Velha ardida, velha queimada
Vende a fruta se queres comer]

Excertos literários da minha vida - IX


Goethe (de Andy Warhol)

"Oh! meus caros amigos! Porque será que o rio do génio transborda tão raras vezes? Porque também tão raras vezes se ergue em ondas impetuosas para lhes abalar as almas timoratas? É porque nas suas duas margens foram instalar-se os homens sensatos e moderados, cujas casinhas, hortas e canteiros de tulipas poderiam ser inundados e, portanto, evitam o perigo opondo diques à torrente e cavando canais para desviarem o curso."

"Werther", Goethe, Guimarães Editora, tradução de João Teodoro Monteiro

Não há melhor educadora do que a mãe?


1. Não me preocupa particularmente o que diz o Cardeal Manuel Monteiro de Castro, que não é da minha Igreja (aliás, nem tenho Igreja, nem partido, o que me tem poupado alguns dissabores).
2. Em minha opinião, eu teria educado bastante bem o meu filho, se tivesse optado por ficar em casa a educá-lo, é um facto. Grata pelo voto de confiança.
3. O Senhor Cardeal não pode, contudo, dizer que isso teria sido o melhor para o meu filho - e consequentemente para a sociedade - porque não me conhece: posso ser uma pessoa sem princípios ou valores, o que faria de mim uma péssima educadora.
4. Acresce que não pode ter a certeza que eu preferisse ter ficado em casa mesmo que me fosse pago um salário, porque trabalhar, por sorte, é para mim também uma opção de vida que, não tenho dúvidas, muito valoriza a minha contribuição para a sua educação.
5. Também não percebo por que razão há-de desconsiderar o pai do meu filho. Por acaso, até tenho  ideia de que o poderia ter criado bastante bem, se tivesse sido essa a sua escolha.
6. Do mesmo passo, não vejo como saberá que o meu filho teria preferido ser educado apenas por mim, e não por um número diversificado de pessoas, como sejam, para além de mim, o pai - porque os pais agora também se empenham, Senhor Cardeal - avós e escolas/colégios. Acabei, aliás, de lhe colocar a questão: "- Claro que preferia ter sido educado por todos, como fui!".

Charles Dickens - da literatura ao cinema mudo






"O facto é que nada havia de especial no que respeita ao batente da porta, a não ser o facto de ser muito grande. Também é um facto que Scrooge o vira dia e noite, durante todo o tempo de residência naquela casa, e também que Scrooge tinha tão pouco daquilo que se chama imaginação como qualquer outro homem de Londres(...). Tenhamos também em mente que Scrooge não dedicara um único pensamento a Marley, desde que, naquela tarde, mencionara o sétimo aniversário da morte do seu sócio. Expliquem-me agora se puderem, como é que, ao meter a chave na fechadura, Scrooge viu no batente, sem passar por qualquer processo de transformação, não um batente, mas o rosto de Marley (...)".

"O Natal do Sr. Scrooge" in " Contos de Natal", Charles Dickens (7 de Fevereiro de 1812 - 9 de Junho de 1870,) Público - tradução de Lucília Filipe 


Excertos literários da minha vida - VIII






"Tinha lido em Plutarco uma lenda de navegadores relativa a uma ilha situada nestas paragens vizinhas do mar Tenebroso, e para onde os Olímpicos vitoriosos teriam, há séculos, repelido os Titãs vencidos. Esses grandes cativos da rocha e da vaga, para sempre flagelados por um oceano sem sono, incapazes de dormir, mas incessantemente ocupados a sonhar, continuariam a impor à ordem olímpica a sua violência, a sua angústia, o seu desejo perpetuamente crucificado. Reencontrava naquele mito colocado nos confins do mundo as teorias dos filósofos que havia feito minhas: durante a sua vida breve, cada homem tem sempre que escolher, entre a esperança infatigável e a sensata ausência de expectativa, entre as delícias do caos e as da estabilidade, entre o Titã e o Olímpico. A escolher entre eles, ou a pô-los, um dia, de acordo um com o outro."

"Memórias de Adriano", Marguerite Yourcenar, Ulisseia, tradução de Maria Lamas

Porque não dão um emprego ao meu pai?


Crise de 1929
"A troika em Setembro passado avançava com perspectivas pessimistas: Portugal atingirá uma taxa de desemprego oficial de 13,5% ao longo de 2013, valor que seria o pico deste flagelo no país. O governo, na mesma altura, dizia que não. Vítor Gaspar não admitia um cenário tão grave, antecipando “só” um pico no desemprego de 13,3% e ao longo deste ano, depois tudo melhoraria ao longo do ano seguinte. Ambos estavam completamente enganados.
No final de 2011, o desemprego oficial bateu os recordes e chegou a 14%, fruto de um salto trimestral nunca antes visto: mais 1,6 pontos. E a tendência, como se antecipa nas previsões do governo e da troika, é piorar.
Mas mais do que números, falemos de pessoas. O que quer dizer um salto de 1,6 pontos percentuais no desemprego entre Outubro e Dezembro de 2011?
Este valor significa que em três meses mais de 81 mil residentes em Portugal ficaram sem emprego, qualquer coisa como 885 pessoas por dia em todos os 92 dias de Outubro a Dezembro, úteis ou não. No final de Dezembro, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) havia 771 mil desempregados em Portugal. Em Outubro eram 689,6 mil (...)" (aqui)(17.02.2012).

Excertos literários da minha vida - VII


Philip Roth

"Virado do avesso, o implacável imprevisto era o que nós, miúdos da escola, estudávamos como «História», história inofensiva, em que tudo quanto é inesperado no seu próprio tempo é relatado na página do livro como inevitável. O terror do imprevisto é o que a ciência da História oculta, transformando uma tragédia numa epopeia."

Philip Roth, in "A conspiração contra a América", Biblioteca Sábado, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

Da aritmética dos medicamentos


Vou passar a usar a expressão "síndrome omeprazol" para situações absolutamente inacreditáveis que se passavam em Portugal na era a.t. (antes da troika).

O omeprazol é o princípio activo de um medicamento muito receitado, que se destina a diminuir da quantidade de ácido produzido pelo estômago.

Na era a.t., o Estado português achava normal comparticipar um medicamento genérico com aquele princípio activo, que custaria € 24, por caixa de 28 comprimidos (Abril de 2010, lido aqui). Nessa altura, como se pode ler no mesmo local, já em Espanha o preço de um medicamento genérico com o mesmo princípio activo e número de comprimidos seria de € 3,5 (cerca de sete vezes menos, portanto). A fonte não será do mais fidedigno, mas também não vejo grandes razões para duvidar.

De qualquer modo, aqui o jornal Público anunciava que o mesmo medicamento passaria, em 1 de Julho de 2011, de 14,66 euros para 5,93 euro (isto é, menos 60%).

Agora, o mesmo diário ( aqui ) revela que mesmo já tendo atingido valores mais próximos dos espanhóis (aleluia!), ainda assim, custa o dobro em Portugal, o que faz os portugueses acorrerem a Espanha comprar aquele, entre outros fármacos.

Parece que, finalmente, todos nós, particulares e Estado (sobretudo), aprendemos a fazer contas. 

Polaroids Ilustrarte 2012

Harriet Russel  (o meu livro preferido:  "Sixty impossible things before lunch")

Martin Jarrie (ilustrador em destaque)

Valerio Vidali (o vencedor da Ilustrarte 2012), Planeta Tangerina

Cláudia Palmarucci

André Letria ("Se eu fosse um livro", da Pato Lógico)

Alicia Baladan

Excertos literários da minha vida - VI


Albert Camus

 "Contentaremos mediocremente um homem, se lhe dermos os parabéns pelos esforços graças aos quais de tornou inteligente ou generoso. Pelo contrário, ele rejubilará, se se admirar a sua generosidade natural. Inversamente, se dissermos a um criminoso que o seu crime nada tem com a sua natureza, nem com o seu carácter, mas com com infelizes circunstâncias, ele ficar-nos-á violentamente reconhecido. Durante o julgamento, escolherá mesmo este momento para chorar. No entanto, não há mérito nenhum em ser-se honesto, nem inteligente de nascença!"

Albert Camus in "A Queda", Livros do Brasil, tradução revista de José Terra

Brincar sem morder o dono


Não me recordava mas, dizia Pedro Lomba antes de ontem no Público, que começa a ser um clássico: de vez em quando lá vem um politico dizer que Portugal usa e abusa das lamúrias (versão de Jorge Sampaio) ou da pieguice (versão de Passos Coelho).

A ser verdade (o que aliás nem me parece, mas concedo) entenda-mo-nos, se o povo tem os políticos que merece, os políticos têm o povo que merecem.

O que me pergunto é se a auto-piedade é o defeito verdadeiramente relevante dos portugueses nos tempos que correm. A lamúria é  geralmente  provocada por uma circunstância externa susceptível de desaparecer, ainda que em velocidade de cruzeiro se auto-alimente.

Não será, ao invés, a nossa eterna autocomplacência que urge combater? Pode ler-se num dos significados de complacência - o pejorativo - adiantado pelo reverenciável Houaiss, que esta é a atitude que "denuncia demasiada condescendência, indulgência ou deferência com algo ou alguém".

A autocomplacência de um país é uma idiossincrasia perigosa porquanto opera em ciclo vicioso. Criticando tudo, com ou sem razão, estamos logo também na primeira linha a perdoar, esperando em troca um tratamento tão ou mais benevolente para com as nossas próprias falhas (mesmo que infinitamente menores em extensão e consequências para o interesse público).

Enquanto vivermos no pânico de nos confrontarmos primeiro, e lutarmos depois, contra o pequeno grau de exigência que usamos para connosco próprios, nenhum governante receará dizer seja o que for em desabono do povo que o elegeu, por saber que de volta terá apenas dentadinhas de cachorro, que brinca sem magoar o dono.

Em suma, digam os sucessivos primeiros-ministros e presidentes da República o que quiserem, é a zona de conforto da autocomplacência que Portugal deve abandonar, se quiser escapar com êxito à escalada da inércia contra a mediocridade, incompetência, clientelismo e corrupção.