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Bagão Félix: ética em tempos de crise
| Bagão Félix Foto © Paulo Spranger/Global Imagens |
Bagão Félix. Aqui.
In Portal Ver, entrevista de Helena Oliveira, publicada no Jornal de Negócios on line, em 30.11.2012.
Da excelência ética. Da septicemia moral. Da sociedade de "pedra pomes". Dos (falsos) dilemas éticos. Do excesso de utilitarismo ético. Das elites verdadeiras e das elites perversas. Da ética da exactidão. Do espelho ético: da ética da primeira pessoa e da ética da terceira pessoa. Da moral e do moralismo. Da ética kantiana: do dever ético passivo e do dever ético activo. Dos cargos e das pessoas. De Miguel Torga. Das crianças, dos salões e das celas. Do útil, do fútil e do inútil. Da austeridade. Do urgente e do importante. Do mundo virtual. Do desemprego. Da auto-estima. Da responsabilidade social. Do investimento nas coisas boas. Da parametrização econométrica da vida das pessoas. Da régua e esquadro. Da medida moral da economia. Do dogma de fé na economia e na política. Da redistribuição das sabedorias. Do triângulo "knowledge, skills e wisdom". De Sócrates, o grego. Da sabedoria dos velhos. Da sustentabilidade do Estado Social. Dos que não têm poder, não têm voz, não fazem greves. Do Estado possibilitador. Da aritmética e da sensibilidade. Do choque dos sistemas de saúde. Do rendimento social de inserção. Dos seus abusos. De outros abusos.
In Portal Ver, entrevista de Helena Oliveira, publicada no Jornal de Negócios on line, em 30.11.2012.
Da excelência ética. Da septicemia moral. Da sociedade de "pedra pomes". Dos (falsos) dilemas éticos. Do excesso de utilitarismo ético. Das elites verdadeiras e das elites perversas. Da ética da exactidão. Do espelho ético: da ética da primeira pessoa e da ética da terceira pessoa. Da moral e do moralismo. Da ética kantiana: do dever ético passivo e do dever ético activo. Dos cargos e das pessoas. De Miguel Torga. Das crianças, dos salões e das celas. Do útil, do fútil e do inútil. Da austeridade. Do urgente e do importante. Do mundo virtual. Do desemprego. Da auto-estima. Da responsabilidade social. Do investimento nas coisas boas. Da parametrização econométrica da vida das pessoas. Da régua e esquadro. Da medida moral da economia. Do dogma de fé na economia e na política. Da redistribuição das sabedorias. Do triângulo "knowledge, skills e wisdom". De Sócrates, o grego. Da sabedoria dos velhos. Da sustentabilidade do Estado Social. Dos que não têm poder, não têm voz, não fazem greves. Do Estado possibilitador. Da aritmética e da sensibilidade. Do choque dos sistemas de saúde. Do rendimento social de inserção. Dos seus abusos. De outros abusos.
De volta à barca do inferno
Costumo dizer que o T. tem um problema com a mãe que lhe saiu na rifa porquanto, gostando de ensinar, lhe coarto às vezes a possibilidade de estudar sozinho. Eu, egoísta, me confesso: não são todas as matérias que me interessam, mas em disciplinas como Português, História ou Inglês, se percebo que a matéria foi apreendida com insuficiente conexão de factos, ideias e conceitos, diverte-me tentar dar a volta à dificuldade, e esclarecê-la pelo lado que mais o possa surpreender, a ele e, se possível, também a mim.
O estudo para o último teste de Português foi uma diversão nesse aspecto: se não tive outro remédio que explorar com ele o lado moralista do "Auto da Barca do Inferno", o aporte de elementos de um curso de Direito com mais de vinte anos provocaram, pela primeira vez desde que no liceu estudei Gil Vicente, uma nova e animada comunicação entre o meu neuroniozinho literário e o jurídico (induzida pela libertação de alguma espécie de "serotonina intelectual", imagino).
Ele é o crime de usura praticado pelo Onzeneiro (que cobrava 11% de juros sobre os empréstimos) e o crime de especulação do Sapateiro que, por ser o único a exercer a profissão, cobrava preços exorbitantes. Ele é o crime de lenocídio da Alcoviteira, a qual se recusava embarcar na barca do inferno, defendendo que "criava as meninas pera os cónegos da Sé", um dos quais acabou também embarcado na mesma nave, todos para gaudio do diabo, perante a indiferença e desprezo da "boa alma" que era o anjo e, certamente, a gargalhada geral da assistência. Por fim, os crimes de corrupção e peculato do Corregedor.
Curiosamente, alguns daqueles costumes que Gil Vicente tão magistralmente resume, terão passado de apenas moralmente censuráveis nos séculos XV e XVI a óbvios crimes actualmente; outros nunca foram além da segredada intolerância judaico-cristã (como a infidelidade do Fidalgo). Outros passaram a ser criminalmente, mas também politicamente, rejeitados, como a tirania dos mais fortes pelo mais fracos de que, ainda que, fugazmente, foi acusado o mesmo fidalgo.
Uma gostosa, inesperada e reveladora segunda espreitadela à análise caustica de costumes, de Gil Vicente, foi o que ganhei com aquele teste de Português do meu adolescente preferido.
"Vendo só por onde entrar e não por onde sair"
"Um leão vendo-se enfermo
Passa o aviso a seus vassalos
De que à vida vai pôr termo.
E que intenta aconselhá-los
Sobre a regência futura,
Dar-lhes beija-mão, e honrá-los
Dos leões à fé lhes jura
Que trata bem qualquer fera
Que o visita e procura:
Porém na furna as espera,
E quando alguma entrar ousa,
Logo a mata e dilacera.
Eis uma esperta raposa
pára e diz, sem que entre lá:
«"Chau" que observo uma coisa!
Pegadas mil aqui há;
Mas para lá todas vão,
E nenhuma para cá;
Saúde, Senhor Leão!
Quero-me à glória eximir
De beijar-lhe a régia mão,
Porque jurei jamais ir
A qualquer casa ou lugar,
Vendo só por onde entrar,
E não por onde sair.»
Foi reflexão mui subida
Esta que fez a raposa;
Que é loucura desmedida
Entrarmos em qualquer coisa
Sem vermos se temos saída."
"O leão doente". In "La Fontaine -Fábulas". Temas&Debates.Trad. Curvo Semedo.
Coisas que mudam e coisas que nunca mudam
A Newsweek , a partir de 1 de janeiro de 2013, vai passar a ter formato exclusivamente digital.
Em boa verdade, a Newsweek não vai desaparecer. Se a subscrevermos, esta como qualquer outra que lhe siga o caminho, andará até bastante mais connosco, podendo ser lida e consultada em qualquer momento. O "ambiente agradece" deve estar agora em festa.
Resta-me, portanto, prestar sentidas homenagens aos restolhar das suas folhas lustrosas, em que tantas vezes me esforcei por deduzir o sentido de palavras numa língua que dominava ainda mal, no autocarro em direção ao Instituto Americano.
De qualquer modo, não terá ainda sido nesta, que é de 24 de Fevereiro de 1969, escolhida, como é óbvio, aleatoriamente: "Taxes- How to ease the squeeze".
António Pinho Vargas e John Cage
[António Pinho Vargas - "Jornal de Negócios on line", Isabel Aveiro, 07.09.2012]
António Pinho Vargas, músico,
compositor e professor, foi aluno de John Cage durante duas semanas de 1988 num
seminário na Holanda. Do compositor norte-americano lembra "a simpatia", mas
também o "empenho" que pedia aos músicos com quem trabalhava.
Uma "experiência única" com um homem que Pinho Vargas classifica como "um grande
inventor, um grande criador de mundos, que levou a cabo uma interrogação sobre
'o que é a música'". John Milton Cage Jr. nasceu há 100
anos.Há um vídeo no YouTube que, se for encarado com
sentido de humor, serve para resumir a controvérsia que até hoje a obra
4'33''gera. Chama-se "Death Metal cover - John Cage 4'33"" e é a versão "death
metal" da peça de John Cage, onde um baterista "interpreta" a obra escrita em
1952. Nos comentários, há quem tenha escrito: "o vídeo tem 3'21''. Estás a tocar
demasiado depressa".
No original, a obra de quatro minutos e 33 segundos de Cage é dividida em três andamentos - 30'', 2'23''e 1'40''. Durante todo esse tempo, nenhum instrumento é tocado, embora o intérprete "leia" a pauta, fazendo parte da peça todo o som ambiente e reacção da audiência. Para os seguidores de Cage, é a sua obra mais emblemática. Para os seus críticos, é qualquer outra coisa que não música.
A obra 4'33'' é "seguramente a mais falada e a menos ouvida, para além do seu próprio paradoxo", afirma o compositor António Pinho Vargas. "É uma obra conceptual muito forte na sua origem; é natural que seja sobretudo 'o conceito' que motiva os discursos - muitos - sobre John Cage". Esclarece: "prefiro, pessoalmente, algumas peças para piano dos finais dos anos 40".
Está hoje o mundo mais preparado do que em 1952 para uma obra como 4'33''? Somos hoje mais receptivos à ruptura? "Não me parece", responde António Pinho Vargas. "Diria até que a sua atitude dos anos 60 - experimentação radical, 'happenings', o som do mundo, etc. - se deslocou da área musical, onde diversos tipos de ortodoxias, tanto modernas como pós-modernas, se defrontam com alguma ferocidade, se manifestam mais em instalações de arte contemporânea. O lugar de Cage hoje é mais o Museu de Arte Contemporânea do que a sala de concertos", defende.
"Uma experiência única" António Pinho Vargas, músico, compositor e professor na Escola Superior de Música de Lisboa, foi aluno de John Cage quando tinha 37 anos e o norte-americano contava com 76 anos. "Conheci Jonh Cage no seminário de duas semanas que ele orientou no Conservatório de Haia em 1988", recorda. Quando questionado a avaliar esse tempo, responde que "a experiência foi não apenas positiva, como única". "Cage organizava o seu próprio seminário com o 'I Ching', que sempre transportava consigo, escolhendo músicos e compositores, usando ao acaso os números do 'I Ching'" [ou "Livro das Mutações", texto clássico chinês composto por um sistema de 64 hexagramas, de uso divinatório].
Dessas duas semanas vividas em 1988, quatro anos antes de John Cage morrer, António Pinho Vargas destaca, "em primeiro lugar, a sua simpatia. Estava habituado a compositores professores que transportavam consigo todo o peso do mundo e muitos encaravam uma orientação estética diversa como um defeito ou um erro que era necessário expurgar". Cage não era assim, relembra. "Guardo na memória com mais nitidez um ensaio de 'Fontana Mix' [composição de 1958 para coreografia de Merce Cunningham]. Numa obra daquele tipo - com instrumentos e sons não convencionais - Cage pedia com rigor e clareza coisas que, à primeira vista, pareciam indiferentes. Pedia o máximo empenhamento aos músicos. Essa foi uma boa lição".
"O que é a música?"Concorda Pinho Vargas com a definição de alguns, de que Cage foi "um dos maiores compositores dos EUA do século XX? "É difícil abordar a questão nesses termos", responde. "Penso que foi um grande inventor, um grande criador de mundos, que levou a cabo uma interrogação sobre 'o que é a música'. Desse modo, a sua figura, por um lado, ultrapassa o âmbito da música, pela contribuição filosófica e estética que as obras e os seus livros provocaram e, por outro, as suas peças sofrem alguma rejeição e o isolamento, por parte do mundo musical tradicional, que muitos outros das vanguardas desse período e mesmo da música de hoje em geral. As excepções a este panorama são poucas", acredita.
No sentido contrário, para os que vêem Cage hoje sobrestimado, que enquadramento mais justo deveria ser dado à sua obra na história da música? "É justamente pelo lado da invenção e da criatividade, palavras que quase desapareceram do vocabulário académico no ensino da composição, que se deve avaliar hoje o seu legado. Mostrou-nos uma nova atitude face ao som do mundo".
O som do silêncio Celebraram-se esta semana 100 anos sobre o nascimento de John Milton Cage Jr. Quando escreveu a sua "declaração autobiográfica", em 1990, o compositor norte-americano descreveu o pai como "inventor" e a mãe, redactora dos "Los Angeles Times", como alguém que "nunca estava feliz". "Nenhum dos meus pais foram à faculdade. Quando eu fui, desisti passados dois anos". Cage, impulsionado pelos pais que acreditavam que seria escritor, partiu então para a Europa, onde descobriu a arte e arquitectura clássica e moderna. De volta à Califórnia, investe na poesia, influenciado pelo estilo de Gertrude Stein. Mas a música intrometeu-se: "conheci Richard Buhlig, que fora o primeiro pianista a tocar Opus II de Schoenberg", que aceitou "encarregar-se da minha composição musical", escreveu Cage. Daí foi para Henry Cowell e para Adolph Weiss, até atingir finalmente Arnold Schoenberg. Confrontado com um Cage sem dinheiro para lhe pagar, Schoenberg perguntou-lhe: "devotarás a tua vida à música?". "Desta vez", recordou Cage na sua autobiografia, "disse-lhe que sim". Mas dois anos depois, era claro para ambos que Cage "não tinha sensibilidade para a harmonia".
Nos anos 40, e já depois de passar por Hollywood, e de encontrar o seu público através do mundo da dança, Cage entrou no Cornish College of the Arts, um marco na sua vida. É onde encontrará o coreógrafo Merce Cunningham, parceiro e parceria profissional para o resto da sua vida, e o budismo Zen, mais tarde desenvolvido pelo diálogo com o mestre Daisetz Suzuki. "Nos finais dos anos 40", descreveu Cage, "descobri por experimentação que o silêncio não é acústico. É uma alteração da mente, é uma reviravolta. Dediquei a minha música a isso. O meu trabalho tornou-se uma exploração da não-intenção". Para o levar a cabo, utilizava a aleatoriedade do "I Ching", focando a responsabilidade não na tomada de decisões, mas na colocação das questões. "As cordas, os sopros e a percussão sabem mais de música do que sabem sobre som", definiu. "Para estudar o ruído, precisam de ir à escola de percussão. Aí, irão descobrir o silêncio, uma forma de mudar a mente; e aspectos do tempo que ainda não foram postos em prática. (...) O espírito da percussão abre tudo, mesmo aquilo que estava, por assim dizer, completamente fechado".
No original, a obra de quatro minutos e 33 segundos de Cage é dividida em três andamentos - 30'', 2'23''e 1'40''. Durante todo esse tempo, nenhum instrumento é tocado, embora o intérprete "leia" a pauta, fazendo parte da peça todo o som ambiente e reacção da audiência. Para os seguidores de Cage, é a sua obra mais emblemática. Para os seus críticos, é qualquer outra coisa que não música.
A obra 4'33'' é "seguramente a mais falada e a menos ouvida, para além do seu próprio paradoxo", afirma o compositor António Pinho Vargas. "É uma obra conceptual muito forte na sua origem; é natural que seja sobretudo 'o conceito' que motiva os discursos - muitos - sobre John Cage". Esclarece: "prefiro, pessoalmente, algumas peças para piano dos finais dos anos 40".
Está hoje o mundo mais preparado do que em 1952 para uma obra como 4'33''? Somos hoje mais receptivos à ruptura? "Não me parece", responde António Pinho Vargas. "Diria até que a sua atitude dos anos 60 - experimentação radical, 'happenings', o som do mundo, etc. - se deslocou da área musical, onde diversos tipos de ortodoxias, tanto modernas como pós-modernas, se defrontam com alguma ferocidade, se manifestam mais em instalações de arte contemporânea. O lugar de Cage hoje é mais o Museu de Arte Contemporânea do que a sala de concertos", defende.
"Uma experiência única" António Pinho Vargas, músico, compositor e professor na Escola Superior de Música de Lisboa, foi aluno de John Cage quando tinha 37 anos e o norte-americano contava com 76 anos. "Conheci Jonh Cage no seminário de duas semanas que ele orientou no Conservatório de Haia em 1988", recorda. Quando questionado a avaliar esse tempo, responde que "a experiência foi não apenas positiva, como única". "Cage organizava o seu próprio seminário com o 'I Ching', que sempre transportava consigo, escolhendo músicos e compositores, usando ao acaso os números do 'I Ching'" [ou "Livro das Mutações", texto clássico chinês composto por um sistema de 64 hexagramas, de uso divinatório].
Dessas duas semanas vividas em 1988, quatro anos antes de John Cage morrer, António Pinho Vargas destaca, "em primeiro lugar, a sua simpatia. Estava habituado a compositores professores que transportavam consigo todo o peso do mundo e muitos encaravam uma orientação estética diversa como um defeito ou um erro que era necessário expurgar". Cage não era assim, relembra. "Guardo na memória com mais nitidez um ensaio de 'Fontana Mix' [composição de 1958 para coreografia de Merce Cunningham]. Numa obra daquele tipo - com instrumentos e sons não convencionais - Cage pedia com rigor e clareza coisas que, à primeira vista, pareciam indiferentes. Pedia o máximo empenhamento aos músicos. Essa foi uma boa lição".
"O que é a música?"Concorda Pinho Vargas com a definição de alguns, de que Cage foi "um dos maiores compositores dos EUA do século XX? "É difícil abordar a questão nesses termos", responde. "Penso que foi um grande inventor, um grande criador de mundos, que levou a cabo uma interrogação sobre 'o que é a música'. Desse modo, a sua figura, por um lado, ultrapassa o âmbito da música, pela contribuição filosófica e estética que as obras e os seus livros provocaram e, por outro, as suas peças sofrem alguma rejeição e o isolamento, por parte do mundo musical tradicional, que muitos outros das vanguardas desse período e mesmo da música de hoje em geral. As excepções a este panorama são poucas", acredita.
No sentido contrário, para os que vêem Cage hoje sobrestimado, que enquadramento mais justo deveria ser dado à sua obra na história da música? "É justamente pelo lado da invenção e da criatividade, palavras que quase desapareceram do vocabulário académico no ensino da composição, que se deve avaliar hoje o seu legado. Mostrou-nos uma nova atitude face ao som do mundo".
O som do silêncio Celebraram-se esta semana 100 anos sobre o nascimento de John Milton Cage Jr. Quando escreveu a sua "declaração autobiográfica", em 1990, o compositor norte-americano descreveu o pai como "inventor" e a mãe, redactora dos "Los Angeles Times", como alguém que "nunca estava feliz". "Nenhum dos meus pais foram à faculdade. Quando eu fui, desisti passados dois anos". Cage, impulsionado pelos pais que acreditavam que seria escritor, partiu então para a Europa, onde descobriu a arte e arquitectura clássica e moderna. De volta à Califórnia, investe na poesia, influenciado pelo estilo de Gertrude Stein. Mas a música intrometeu-se: "conheci Richard Buhlig, que fora o primeiro pianista a tocar Opus II de Schoenberg", que aceitou "encarregar-se da minha composição musical", escreveu Cage. Daí foi para Henry Cowell e para Adolph Weiss, até atingir finalmente Arnold Schoenberg. Confrontado com um Cage sem dinheiro para lhe pagar, Schoenberg perguntou-lhe: "devotarás a tua vida à música?". "Desta vez", recordou Cage na sua autobiografia, "disse-lhe que sim". Mas dois anos depois, era claro para ambos que Cage "não tinha sensibilidade para a harmonia".
Nos anos 40, e já depois de passar por Hollywood, e de encontrar o seu público através do mundo da dança, Cage entrou no Cornish College of the Arts, um marco na sua vida. É onde encontrará o coreógrafo Merce Cunningham, parceiro e parceria profissional para o resto da sua vida, e o budismo Zen, mais tarde desenvolvido pelo diálogo com o mestre Daisetz Suzuki. "Nos finais dos anos 40", descreveu Cage, "descobri por experimentação que o silêncio não é acústico. É uma alteração da mente, é uma reviravolta. Dediquei a minha música a isso. O meu trabalho tornou-se uma exploração da não-intenção". Para o levar a cabo, utilizava a aleatoriedade do "I Ching", focando a responsabilidade não na tomada de decisões, mas na colocação das questões. "As cordas, os sopros e a percussão sabem mais de música do que sabem sobre som", definiu. "Para estudar o ruído, precisam de ir à escola de percussão. Aí, irão descobrir o silêncio, uma forma de mudar a mente; e aspectos do tempo que ainda não foram postos em prática. (...) O espírito da percussão abre tudo, mesmo aquilo que estava, por assim dizer, completamente fechado".
Manoel de Oliveira - O Pintor e a Cidade
[O texto que acompanha o filme no Youtube]
"Sinopse: Documentário sobre a cidade do Porto através das aguarelas do pintor António Cruz. O artista sai do seu atellier e percorre a cidade. As imagens reais alternam com as impressões estéticas que o artista vai registando nas suas aguarelas.
Observações: Estreado em 1956 no São Luíz e no Alvalade, em Lisboa. Teve o aplauso unânime da crítica. Aplauso que se repetiu em Paris e em Veneza e que lhe valeu, em 1957, o primeiro prémio internacional da sua carreira, a Harpa de Ouro do Festival de Cork, na Irlanda. Recebeu, também, o Prémio SNI para a Melhor Fotografia.
"Em 1955 fui à Alemanha. Havia já um curso sobre a côr, que me começou a interessar muitíssimo. Fiz um curso na Agfa, curso intensivo sobre a côr durante um mês. Depois fui a Munique ver as máquinas, e embrenhei-me outra vez. Arranjei uma máquina e comecei pelo Pintor e a Cidade que foi o meu primeiro filme a côr e um dos primeiros filmes portugueses a côr.
Fiz O Pintor contra O Douro. Enquanto O Douro é um filme de montagem, O Pintor é um filme de êxtases.
Eu descobri no Pintor e a Cidade que o tempo é um elemento muito importante. A imagem rápida tem um efeito, mas a imagem quando persiste ganha outra forma.
O Pintor e a Cidade é uma obra fundamental na minha carreira, na mudança da minha reflexão sobre o cinema.
É a primeira vez que eu volto as costas a um cinema de montagem".
Manoel de Oliveira, in entrevista com João Bénard da Costa, 1989
"Produção independente que, por um lado, retoma o espírito pioneiro e vanguardista do Douro, é, em termos narrativos e estilísticos, uma ruptura total com o que ficou para trás.(...) Mais precisamente, o que se trata aqui é de parar e reflectir sobre o cinema e os seus materiais, de decompor imagens (imagens da cidade e imagens de um outro olhar sobre essa cidade), separá-las entre si e dos sons respectivos, e repensar de origem para que serve isso de juntá-los de novo, com que sentido, com que objectivo.(...) ligando isto ao tema - o que se trata é de reflectir transparentemente uma das ideias essenciais de todo o cinema de Oliveira: a ideia de desdobramento, o sucessivo desdobramento de olhares que o acto de filmar (e de ver um filme) representa.
...Aqui, o emprego do som é revelador, na medida em que é o som que conta essas relações, a história dessas relações. (No O Pintor e a Cidade o som é como que a "ficção").(...) É o som que "puxa" essa entrada sucessiva da sua imagem para o real fílmico. É o som que a liga, que a faz cumprir uma função.
...A arte como veículo intermediário, não como ponte "entre o autor e o mundo", mas como lugar de concentração/irradiação de olhares e intenções, como espelho que reflecte em todas as direcções, eis o que nos parece a essência de O Pintor e a Cidade".
José Manuel Costa, in Folhas da Cinemateca Portuguesa, 1988"
in amordeperdicao.pt
Título original: O Pintor e a Cidade
Origem: Portugal
Duração: 27 min.
Local de Estreia: São Luís (Lisboa) - 27 de Novembro 1956
Realização: Manoel de Oliveira
Argumento: Manoel de Oliveira
Dir. Fotografia: Manoel de Oliveira
Montagem: Manoel de Oliveira
Dir. Som:Alfredo Pimentel
Sonoplastia: Heliodoro Pires
Música: Luís Rodrigues, Rebelo Bonito, Ino Sanvini
Canções: Orfeão do Porto; Madrigalistas
Produtor: Manoel de Oliveira
Lab. Imagem: Tóbis Portuguesa
Distribuição: Doperfilme
negativo: 35 mm
Observações: Estreado em 1956 no São Luíz e no Alvalade, em Lisboa. Teve o aplauso unânime da crítica. Aplauso que se repetiu em Paris e em Veneza e que lhe valeu, em 1957, o primeiro prémio internacional da sua carreira, a Harpa de Ouro do Festival de Cork, na Irlanda. Recebeu, também, o Prémio SNI para a Melhor Fotografia.
"Em 1955 fui à Alemanha. Havia já um curso sobre a côr, que me começou a interessar muitíssimo. Fiz um curso na Agfa, curso intensivo sobre a côr durante um mês. Depois fui a Munique ver as máquinas, e embrenhei-me outra vez. Arranjei uma máquina e comecei pelo Pintor e a Cidade que foi o meu primeiro filme a côr e um dos primeiros filmes portugueses a côr.
Fiz O Pintor contra O Douro. Enquanto O Douro é um filme de montagem, O Pintor é um filme de êxtases.
Eu descobri no Pintor e a Cidade que o tempo é um elemento muito importante. A imagem rápida tem um efeito, mas a imagem quando persiste ganha outra forma.
O Pintor e a Cidade é uma obra fundamental na minha carreira, na mudança da minha reflexão sobre o cinema.
É a primeira vez que eu volto as costas a um cinema de montagem".
Manoel de Oliveira, in entrevista com João Bénard da Costa, 1989
"Produção independente que, por um lado, retoma o espírito pioneiro e vanguardista do Douro, é, em termos narrativos e estilísticos, uma ruptura total com o que ficou para trás.(...) Mais precisamente, o que se trata aqui é de parar e reflectir sobre o cinema e os seus materiais, de decompor imagens (imagens da cidade e imagens de um outro olhar sobre essa cidade), separá-las entre si e dos sons respectivos, e repensar de origem para que serve isso de juntá-los de novo, com que sentido, com que objectivo.(...) ligando isto ao tema - o que se trata é de reflectir transparentemente uma das ideias essenciais de todo o cinema de Oliveira: a ideia de desdobramento, o sucessivo desdobramento de olhares que o acto de filmar (e de ver um filme) representa.
...Aqui, o emprego do som é revelador, na medida em que é o som que conta essas relações, a história dessas relações. (No O Pintor e a Cidade o som é como que a "ficção").(...) É o som que "puxa" essa entrada sucessiva da sua imagem para o real fílmico. É o som que a liga, que a faz cumprir uma função.
...A arte como veículo intermediário, não como ponte "entre o autor e o mundo", mas como lugar de concentração/irradiação de olhares e intenções, como espelho que reflecte em todas as direcções, eis o que nos parece a essência de O Pintor e a Cidade".
José Manuel Costa, in Folhas da Cinemateca Portuguesa, 1988"
in amordeperdicao.pt
Título original: O Pintor e a Cidade
Origem: Portugal
Duração: 27 min.
Local de Estreia: São Luís (Lisboa) - 27 de Novembro 1956
Realização: Manoel de Oliveira
Argumento: Manoel de Oliveira
Dir. Fotografia: Manoel de Oliveira
Montagem: Manoel de Oliveira
Dir. Som:Alfredo Pimentel
Sonoplastia: Heliodoro Pires
Música: Luís Rodrigues, Rebelo Bonito, Ino Sanvini
Canções: Orfeão do Porto; Madrigalistas
Produtor: Manoel de Oliveira
Lab. Imagem: Tóbis Portuguesa
Distribuição: Doperfilme
negativo: 35 mm
Este parte, aquele parte...
Este parte,
aquele parte
E todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão
Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
e filhos que não têm pai
Coração
que tens e sofres
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará
(Adriano Correia de Oliveira / Rosalía de Castro-José Niza/José Niza)
"Cândido" e " A vidente de Sevenwaters"
Estas férias, lembrei-me de um artigo delicioso que li recentemente, publicado em "Porquê ler os clássicos?", de Italo Calvino (Teorema), a propósito de "Candide" de Voltaire, intitulado "Candide ou a velocidade".
Diz-se ali: «No Candide hoje não é o conto filosófico que mais nos encanta, não é a sátira, não é o tomar a forma de uma moral e de uma visão do mundo: é o ritmo. Com velocidade e leveza, uma sucessão de desgraças, suplícios e massacres corre pela página, faz ricochete de capítulo em capítulo, ramifica-se e multiplica-se sem provocar na emotividade do leitor outro efeito que não seja uma vitalidade hilariante e primordial". E prossegue, explicando como é possível em três páginas ser relatado como Conegundes viu esquartejados pai e mãe pelos invasores, foi violada, esventrada, comprada, reduzida à condição de lavadeira, objecto de comércio na Holanda e Portugal, partilhada em dias alternados por dois protectores de fé diferentes e mais, e mais e mais.... quem já leu reconhecerá com um sorriso o quanto esta caracterização é absolutamente verdadeira.
Comiam-se bolas de berlim na praia, e o T. - na idade em que qualquer livro de 100 páginas é um tédio do tamanho de dois universos - lia "A vidente de Sevenwaters", de Juliete Marillier (Planeta), de 400 páginas.
Banhos de mar, e corrida para a toalha para dez páginas. De manhã cedo, caminhava estremunhado para a sala, olhava-me de esguelha e lá iam mais umas tantas. Antes do almoço, bom pretexto para se escusar a pôr a mesa, e depois, bem aproveitada a minha perplexidade para levantar apenas o seu prato, isolava-se para ler duas boas horas. À noite, nada o demovia da leitura, preteridos jogos, conversas e televisão. Quatro dias e meio, 400 páginas! O filho da minha amiga que lho emprestara ria por lhe ter acontecido o mesmo.
Stop. Stop. Como não devem estar à espera que leia um livro com personagens videntes que não me atrai para perceber o que se passa, alguém me explica o que tem este? Ambos, em uníssono: ritmo, ritmo, é sempre a andar, não tem engonhices, estão sempre a acontecer coisas, queremos sempre saber o que vem a seguir, porque vêm sempre mais e mais coisas.
Velocidade. Vertigem. Nada se inventa, claro. É só seguir os clássicos. Mas duvido que a senhora Marillier tenha feito melhor que Voltaire, pelo que um dia destes terei de apresentar ao T. o "Cândido".
Chavela
17.04.1919 - 05.08.2012
Probablemente ya
de mí te te has olvidado
y sin embargo yo
te seguiré esperando.
No me he querido ir
para ver si algún día
que tú quieras volver
me encuentres todavía.
Por eso aún estoy
en el lugar de siempre
en la misma ciudad
y con la misma gente.
Para que tú al volver
no encuentres nada extraño
y sea como ayer
y nunca más dejarnos.
Probablemente estoy
pidiendo demasiado
se me olvidaba que
ya habíamos terminado.
Que nunca volverás
que nunca me quisiste
se me olvidó otra vez
que sólo yo te quise.
Probablemente ya
de mí te te has olvidado
y sin embargo yo
te seguiré esperando.
No me he querido ir
para ver si algún día
que tú quieras volver
me encuentres todavía.
Por eso aún estoy
en el lugar de siempre
en la misma ciudad
y con la misma gente.
Para que tú al volver
no encuentres nada extraño
y sea como ayer
y nunca más dejarnos.
Probablemente estoy
pidiendo demasiado
se me olvidaba que
ya habíamos terminado.
Que nunca volverás
que nunca me quisiste
se me olvidó otra vez
que sólo yo te quise.
O lado bom da privatização da RTP 2
Há duas formas de encarar o anúncio da escolha da RTP 2 para privatização. A primeira é negativa: as boas notícias actualmente escasseiam, pelo que era inevitável que o Governo optasse por privatizar aquele dos dois canais de melhor qualidade, e o que presta aliás um notável serviço público de televisão.
A outra é a positiva. Finalmente, vamos voltar a falar da medida em que cabe ao Estado cumprir as obrigações de serviço público. Espero que, perdendo o canal a que o serviço público acabou por ficar quase exclusivamente afecto, se ganhe um novo, este equilibrado e sensato, livre pelo menos do excesso inadmissível e abjecto de tralha televisiva que atafulha hoje em dia a RTP-1.
O homem que plantava árvores
Silêncio, solidão, persistência, obstinação e grandiosa generosidade.
Óscar de 1987 para a melhor curta-metragem de animação. .
Realizado pelo canadiano Frédéric Back, a partir de um conto do francês Jean Giono. Narrado aqui por Philippe Noiret.
Em inglês, embora não legendado aqui com narração de Christopher Plummer, para quem (como eu) prefira um tom mais suave.
É na terra não é na lua
É um trailer muito, muito bonito. Mas insuficientemente revelador do quão humano, poético, cativante, divertídíssimo, intenso, real, comovente, delicado, surpreendente, melancólico e profundamente inteligente é "É na Terra não é na Lua", de Gonçalo Tocha. Há planos e momentos deste documentário que espero nunca perder de memória.
"A morte a mim não me mata..."
Procurava "A Lira" de Adriano Correia de Oliveira, que esta semana teria feito 70 anos, com quem aprendi literalmente a adorar esta canção, ainda antes do 25 de Abril. O LP, dos meus pais, tinha na capa a fotografia "setentona" de um menino na praia, e tenho de me lembrar de o desencantar onde quer que esteja.
Entretanto, perdi-me por aqui. Mario Iglesia que,"googlei", parece ser um dos novos nomes do cinema digital independente espanhol (as coisas que eu não sei!) e Úxia - galega também ela.
" A morte a mim não me mata, quem mata a morte sou eu".
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