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Notas de um dia findo


1. Acordei há pouco meia engripada e estremunhada no sofá da sala. Olhei para o ecrã da televisão. Lá estava mais uma daquelas enjoativas séries de polícia científica, "Mentes criminosas", confirmei, que lhes confundo os nomes, na vaga ideia de que contam histórias de polícias brilhantíssimos, que deduzem coisas muito para lá de Sherlock Holmes, mas que partilham com ele a astuciosa arte de humilharem a minha inteligência.  Prestes a tocar no botão desligante, na direcção da cama...pára! Olhei segunda vez. O que é era aquilo?

Fiz um esforço de ligar o meu próprio botão acordante. Pesquisavam qualquer coisa sobre um povo perdido não sei de que país...em livros. Exactamente, numa pilha de livros com imagens, e não num relógio que tridimensionalmente lhes facultasse num segundo toda a informação necessária. Acendeu-se a minha luz refrescante.

2. Uma vez um psicólogo disse-me que em boa verdade precisamos apenas de dormir quatro horas por dia, que o resto é só necessário para descansar o corpo. O que importava seria saber exactamente quais elas fossem. 20 anos depois descobri que nasci para ermita. Ninguém tem amigos, nem família ou vida social de jeito se as suas quatro horas de sono começarem às 21 horas e terminarem à uma da manhã.

3. Distraída, desligava o computador no emprego, quando cai a notícia no meu quase arqueológico igoogle (a Google ameaça furiosamente retirá-lo de cena algures no final de 2013). Plim! Vítor Gaspar falará amanhã. Momento "Gasparzinho brincando de cowboy", imagina-se. Brinco: se Samaras disse hoje que ser primeiro ministro da Grécia é o cargo mais difícil que alguém pode exercer hoje em dia, o segundo lugar deste ranking vai certamente amanhã para o Ministro das finanças português (tudo isto porque mantemos da Europa a noção aristotélica do lugar que a terra ocupava no universo, bem entendido).

"Cândido" e " A vidente de Sevenwaters"


Estas férias, lembrei-me de um artigo delicioso que li recentemente, publicado em "Porquê ler os clássicos?", de Italo Calvino (Teorema), a propósito de "Candide" de Voltaire, intitulado "Candide ou a velocidade".

Diz-se ali: «No Candide hoje não é o conto filosófico que mais nos encanta, não é a sátira, não é o tomar a forma de uma moral e de uma visão do mundo: é o ritmo. Com velocidade e leveza, uma sucessão de desgraças, suplícios e massacres corre pela página, faz ricochete de capítulo em capítulo, ramifica-se e multiplica-se sem provocar na emotividade do leitor outro efeito que não seja uma vitalidade hilariante e primordial". E prossegue, explicando como é possível em três páginas ser relatado como Conegundes viu esquartejados pai e mãe pelos invasores, foi violada, esventrada, comprada, reduzida à condição de lavadeira, objecto de comércio na Holanda e Portugal, partilhada em dias alternados por dois protectores de fé diferentes e mais, e mais e mais.... quem já leu reconhecerá com um sorriso o quanto esta caracterização é absolutamente verdadeira.

Comiam-se bolas de berlim na praia, e o T. - na idade em que qualquer livro de 100 páginas é um tédio do tamanho de dois universos - lia "A vidente de Sevenwaters", de Juliete Marillier (Planeta), de 400 páginas.

Banhos de mar, e corrida para a toalha para dez páginas. De manhã cedo, caminhava estremunhado para a sala, olhava-me de esguelha e lá iam mais umas tantas. Antes do almoço, bom pretexto para se escusar a pôr a mesa, e depois, bem aproveitada a minha perplexidade para levantar apenas o seu prato, isolava-se para ler duas boas horas. À noite, nada o demovia da leitura, preteridos jogos, conversas e televisão. Quatro dias e meio, 400 páginas! O filho da minha amiga que lho emprestara ria por lhe ter acontecido o mesmo.

Stop. Stop. Como não devem estar à espera que leia um livro com personagens videntes que não me atrai para perceber o que se passa, alguém me explica o que tem este? Ambos, em uníssono: ritmo, ritmo, é sempre a andar, não tem engonhices, estão sempre a acontecer coisas, queremos sempre saber o que vem a seguir, porque vêm sempre mais e mais coisas.

Velocidade. Vertigem. Nada se inventa, claro. É só seguir os clássicos. Mas duvido que a senhora Marillier tenha feito melhor que Voltaire, pelo que um dia destes terei de apresentar ao T. o "Cândido".

I cannot live without books


Uma semana fora. Por querer e sem querer, não li jornais, não vi noticiários, não fui ao computador passar os olhos sequer pelos títulos dos jornais on line. Como não uso ipads e afins, desliguei da minha relação actualmente mais ou menos doentia com os media.

Ontem à noite, sentei-me aqui, e percebi que estava tudo igual ou pior do que quando parti, mala feita de alheamentos. Dir-se-ia que, tal como após a construção da Torre de Babel, alguém terá dito da Europa: "(...)Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro (...)"(Bíblia Sagrada - Livraria Figueirinhas), por não querer que sejamos um só povo e falemos a mesma língua.

Evocações bíblicas em turbilhão, prometi a mim mesma que a menos que acabe por concluir que a leitura de Santo Agostinho do Apocalipse - regresso do demónio e fim do mundo - se situa na Europa de 2012/2013, o que é uma improbabilidade, mais que não seja porque imagino que até satanás esteja a par da nossa residual importância geoestratégica, farei um rentrée de mil leituras apenas. Levei três ou quatro livros, mas acabei por ler sobretudo os comprados numa imprevista feira do livro, exigindo agora os outros a minha atenção.

Parece que Thomas Jefferson, o terceiro Presidente dos Estados Unidos, entre 1801 e 1809 terá dito, "I do not take a single newspaper, nor read one a month, and I feel myself infinitely the happier for it", dizendo ainda (desconheço se a título de conclusão) : "I cannot live without books".

Em legítima defesa dos vegetais portugueses


Sábado ao fim da manhã. Brócolos já amarelados no mercado. À medida que avançava pelas bancas, as vendedoras justificavam-se, dizendo que os dias íam secos. A quarta com quem comentei o assunto foi mais específica:
-Oh, minha senhora, o que quer? Não chove... (e em tom de cumplicidade)...e, sabe, são portugueses, não lhes põem químicos...
Ora ali estava uma vendedora que sabia agir em legítima defesa dos vegetais portugueses. Se não era verdade, podíamos as duas fingir que era. Atribui-lhe, portanto, o prémio do marketing "compre português", e trouxe os brócolos que, mergulhados em água fresca como me aconselhou, ficaram de facto com melhor aspecto.
Ainda lhe trouxe o resto dos figos também de origem portuguesa já muito escolhidos e enfezados, mas deliciosos que, tal como os brócolos, apenas aguardavam a compradora mais manipulável do mundo.

Dos confins dum tempo com tempo


Quando era criança e adolescente (anos'70), no Carnaval estalavam fulminantes e estalinhos, voavam ovos pelos corredores do liceu e as bombinhas de mau cheiro rebentavam em plena aula, em prejuízo da matéria, do professor e nosso, tudo por entre as maiores gargalhadas. Ouvia-se o Hotel Califórnia dos Eagles. Os mais novos brincavam ao mata, aos índios e aos cowboys - as meninas eram sempre os índios porque eram os bonzinhos, e os rapazes os cowboys porque eram os mauzões - ao stop, às escondidas, às lutas, ao berlinde, ao futebol, aos carrinhos de rolamentos, tudo na rua, tudo horas a fio e sem que nos maçassem. 

No mesmo dia, havia dois testes, quando não eram três e "bico calado". Os pais não nos ligavam nenhuma, nem aos nossos estudos, nem se fazíamos os trabalhos de casa ou não, e só discretamente vigiavam as nossas companhias. Limitavam-se a dar-nos educação feita de pimenta na língua a cada palavrão e puxões de orelhas por má nota, advertências para que não aceitássemos chocolates de ninguém e, mais tarde, longas sabatinas sobre os malefícios da droga. Ao reforço positivo chamavam "envaidecer as crianças" e nenhuma lhes ouvia um elogio. Os professores davam o seu melhor a tentar instruir-nos à moda antiga e não a educar-nos, sem complexos de culpa. A nós, competía-nos tentar fugir dos não muito imaginativos castigos, dos estalos certeiros e das notas "injustas".

As férias eram uma fartura de enjoar. Líamos toneladas de patinhas e tintins e vaillants e gasparzinhos, o fantasminha e cebolinhas e luluzinhas e super-homens e capitães américa e mafaldinhas e hulks e corto maltês e homens-aranha tudo por esta ordem sem ordem, desde que viesse empacotado em quadradinhos; gozávamos uns com os outros nem sempre politicamente muito correctos e trocávamos segredos de nada, por tudo e por nada e contávamos histórias mirambolantes que não podiam ser confirmadas, o que dava muito jeito.

Na praia, jogávamos ao prego, apanhávamos perigosos escaldões ao sol do meio-dia, mas ninguém nos deixava era tomar banhos de mar até duas horas após a ingestão do almoço, fosse ele uma feijoada ou uma sanduíche. Contabilizadas essas duas horas ao minuto, e escaldados do sol, podíamos cair de chapão na água gélida. Se acontecia alguma coisa tinha sido uma azar, porque se desvalorizavam completamente os choques térmicos. Íamos ao médico quando estávamos doentes e era preciso estarmos mesmo muito doentes, que as dores de ouvidos eram curadas com óleo a ferver, e as pieiras com Vick Vaporub no peito.

Bebíamos Caprisone e instântaneos de ananás da Royal. O Jolly Jelly, que era "morango, chocolate e baunilha, Jolly Jelly!" foi um sucesso ainda que fugaz - para quem não se lembra, era uma espécie de perna-de pau coberto de pepitas de açúcar coloridas - e as batatas fritas Pála-Pála eram comprovadamente "uma tara de sabor". As Doro "que eu adoro" apresentaram-se à concorrência por essa altura.

Por esses dias, a Olá não era o produto meio sofisticado, meio enfadado que é hoje, mas assumidamente lúdico, que fazia parte das nossas brincadeiras, com gelados rafeiros de " frut'ó chocolate" que lambíamos com gosto, e dávamos a lamber aos amigos, dávamos sim, por entre trocas de cromos do Vickie, o pequeno viking, que nos fora televisivamente apresentado em alemão (aqui) com legendas, pois claro, e a quem surgiam ideias esfregando o minúsculo nariz. O cromo nº 25 era muito difícil de arranjar, e aquele com que normalmente se terminavam as colecções, depois de muito se penar a comprar e trocar cromos repetidos. As tartes da Dancake começaram, então, uma democrática carreira promissora.

Nos Santos, saltávamos fogueiras que tinham pelo menos uma vez e meia nosso tamanho, que aproveitávamos também para assar chouriços, mas pedir para o Santo António começava a parecer mal; comíamos, às escondidas, leite condensado às colheradas, e punhamos açúcar amarelo, branco ou de que cor fosse no pão com manteiga com o assentimento familiar; bebíamos água fresca com xarope de groselha e leite com Tody de morango, se lá em casa houvesse alguma folga financeira. Os chocolates era exclusivamente da Regina e os caramelos espanhóis, para quem tivesse a sorte de ter algumas vez passado a fronteira.

Tomávamos banho uma vez por semana, a menos que fôssemos à praia; nos outros dias era "rabinho, pézinhos, carinha e mãozinhas, dentinhos, xi-xi e cama".

Não foi um tempo nem bom nem mau. Foi apenas o meu tempo. Um tempo com tempo.

[E em tempo:  eu sei que não fui nada original, que outros blogues estão cheio de tretas destas, mas apeteceu-me].

Finalmente, encontrei o meu anjo da guarda

Do fundo do corredor do supermercado, pareciam um casal jovem apenas embrenhado na decisão da marca de leite a levar para casa. Ela, de uma simplicidade incomum feita de bom gosto, vagamente ajoelhada ao lado dos pacotes; ele, alto e bem constituído, corpo trabalhado provavelmente num ginásio da moda, olhava-a, segurando o cesto ainda para as primeiras compras. Podiam ser personagens de um filme francês.

Por nada, a minha atenção auditiva fixou-se na conversa deles, pelo instante de apenas três passos em direcção à zona dos congelados.
-Se continuares a achar que olho para todas as mulheres...
A minha alma estacou. A voz dele baixa e serena, mantendo a pose de banalidade quotidiana. Ela, silenciosa, retirando do plástico os pacotes finalmente escolhidos, como se ele não tivesse dito aquilo. Aparentemente, nada mudara entre o fundo do corredor e aqueles três passos.

Duas voltas mais e dirijo-me à caixa. Reparo que estou atrás deles. Ele sai de cena, porque se esquecera de algo. Ela olha-o por uns segundos, e volta-se para a frente. Estaquei de novo. Nas costas descobertas dela, entre as alças de um vestido de ganga delicioso, uma tatuagem em letra elegante:
«Finalmente, encontrei o meu anjo da guarda».

Eufemismos

Todas as profissões têm os seus eufemismos próprios. A dos merceeiros é simples, mas há que conhecê-la:
- Os melões são bons?
- As pessoas não se têm queixado.
À confiança, levará um pepino para casa.

Refreshing



Quatro anos depois.


[Sala dos mapas. Museus do Vaticano.]

Confissões, inconfissões e um risco de timidez

Anda por aí uma corrente de questões sobre livros e leituras, para a qual a minha querida amiga Io me nomeou e a mais nove pessoas. Diverti-me às pampas a responder-lhes (bem-hajas, Io). Não indicarei ninguém na última questão, porque sou tímida e/ou estraga festas e porque este é um blogue solitário por natureza**. Ainda assim, se alguém ler isto e não tiver ainda sido nomeado, não quebre a corrente que é de bem e faz bem, e esteja à vontade para se considerar referido por mim, porque certamente o estaria mesmo, pelo menos em espírito.

1. Existe um livro que lerias várias vezes?
Definitivamente Mrs Dalloway de Virgínia Wolf. Mas, a qualquer um da Virgínia Wolf poderá acontecer isso um dia destes.

2.Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Guerra e Paz de Léon Tolstoi, o Som e a Fúria de William Faulkner e Ulisses de James Joyce. Seguindo a classificação de J.L.Borges: os primeiros parecem não ter sido escritos para mim, o terceiro espero simplesmente ainda não estar preparada para ele.

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
Só me ocorre a Bíblia, porque espero viver bastantes anos ainda. Só ela contém milhares de histórias e personagens susceptíveis de estimularem a imaginação e a reflexão por toda uma vida. E sem querer parecer cínica, acredito que, para estes efeitos, quanto menos religioso se for (como é o meu caso) tanto melhor.

4.Que livro gostarias de ter lido e que por algum motivo nunca leste?
Trata-se mais de um autor : Enrique Vila-Matas. Motivo, percebi agora: desagradam-me os títlulos dos livros dele (ou seja, não há motivo).

5. Que livro leste e cuja cena final jamais conseguiste esquecer?
Estive quase a declarar que passava esta. Raramente me lembro do final de um livro. Recordo-me de passagens, do ambiente, do prazer que me deu a sua leitura, de uma ou outra das suas personagens, de uma ou outra descrição, diálogo, frase, mas de um final, quase nunca. Todavia, como este li recentemente, fez uma entrada directa para a galeria dos livros da minha vida e mantenho muito fresca a emoção associada ao seu final, nomeio o «Mau Tempo no canal» de Vitorino Nemésio:
«Margarida, para lá dos cortinados e dos mognos do seu beliche, deixando ao marido a ilusão de que estava nos braços de Morfeu, olhava fixamente para a rede do beliche de cima. E apesar da "veilleuse" que arroxeava a penumbra do camarote, sentia-se cega...cega como a serpente do anel que nenhum ventre de peixe levaria a mesa humana e que, àquela hora jazia, como a "cucumária dos abismos", no mais secreto mar».


6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Até ao ataque às estantes paternas, foram quilos de Anita e Nody (ambos com as deliciosas ilustrações de então); depois, relidas mil vezes, as colecções de "Os cinco", "Os sete", das gémeas, do colégio das quatro torres, do Langelôt, e a banda desenhada de todos os meus amigos (que a minha mãe proibia por razões que percebo mas não concordo). Os livros de Júlio Verne, de que adorei cada passagem. (Mas também a Odette de Saint-Maurice -ai querida Io -, cujo encanto só se eclipsou quando, com a amiga minha Isabel, pusemos uma carruagem da CP inteira a rir ao recontarmos uma à outra na maior galhofa, as cenas mais patéticas, moralistas e condescendentes daqueles livros escritos para educar as futuras "mulherzinhas" do pré-25 de Abril.) Depois passei para os policiais da Vampiro, que a minha mãe comprava para ela.

7. Qual o livro que achaste mais chato e mesmo assim leste até ao fim e porquê?
Paris é uma festa de Ernest Hemingway. Foi há tanto tempo que já nem me lembro porquê.

8.Indica alguns dos teus livros preferidos.
Literatura estrangeira (sem ordem de preferência): Mrs Dalloway, As Ondas, Rumo ao Farol, todos de Virgínia Wolf; A Morte de Ivan Ilich de Léon Tolstoi; O Jogador e Crime e Castigo, ambos de Dostoiévsky; O Amante de Marguerite Duras; Os Buddenbrook e A Montanha Mágica de Thomas Mann; As Memórias de Adriano, A obra ao Negro e O tempo esse Grande Escultor, os três de Margueritte Yourcenard; A Condição Humana de André Malraux; O Processo de Kafka; Ficções de Jorge Luís Borges; Gente de Dublin de James Joyce (atenção o jornal Público vai comerciá-lo para a semana); O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde; O Estrangeiro de Albert Camus;Werther de Goeth; As vinhas da ira de John Steinbeck; Servidão Humana de Somerset Maugham e Alice no País das Maravilas de Lewis Carrol.
Literatura Lusófona( sem ordem de preferência): Mau tempo no canal de Nemésio, os Maias de Eça de Queirós, A Selva de Ferreira de Castro, S. Paulo de Teixeira de Pascoaes, O vendedor de passados, de José Eduardo Águalusa, Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, Roma de António Mega Ferreira, Memorial do Convento, de Saramago, O mundo à minha procura de Ruben A. e a Deusa Sentada de Helena Marques.

9. Que livro estás a ler?
A Música da Fome de Le Clézio e Aprender a Rezar na Era da Técnica de Gonçalo M. Tavares, por entre ensaios e poesia, que não contam para este jogo.


10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.**

Ainda bem que eu não sou mãe

- Hoje, podias aspirar parte da casa, enquanto eu faço o resto das coisas?
Respirou fundo, mas nem má-vontade se poderia chamar ao esgar.
- Sim, claro.
Pega no aspirador. Explico como deve fazer e fiscalizo pelo canto do olho com pequenas indicações. O quarto dele, o meu, o hall, tudo a eito e com algum método. Quando chegou a vez da cozinha, o enfado e o cansaço haviam-se definitivamente instalado.
-Já está. Posso ir?
-Podes. Está feito. Obrigada.
Corre para o quarto e já de skate alinhado transversalmente à anca, abrindo a porta da rua:
-Seca de trabalho! Ainda bem que eu não sou mãe.

À velocidade da luz

Actualmente, sem muito tempo para a reflexão, a ética é um lugar estranho: podemos dar connosco a sorrir ou, simplesmente, a nem reagir a um dito de espírito, graçola ou comentário de adolescente que, se nos concedêssemos algum tempo para pensar, recusaríamos em absoluto.

Os desafios, nesta matéria (e também aqui sem muito tempo para pensar, claro, que eu não sou diferente dos que me rodeiam, nisso como em nada) seriam quatro: um primeiro, o de aprenderemos a ser rápidos na aplicação aos casos concretos e que passam por nós à velocidade da luz, dos valores apreendidos no tempo em que ainda tínhamos tempo para pensar. Um segundo, o de nessa avaliação nos apercebermos se eles ainda são, em consciência, aplicáveis ou se já estiolaram (há sempre os que precisam de revisão). Um terceiro o de, caso já merecerem ser reequacionados, conseguir revê-los, adaptá-los ou criar novos em sua substituição.

O quarto desafio vai em parágrafo separado e é o de saber calar a tempo, detectado que há ali um dilema a ser pensado. Não precipitar uma opinião sequer "líquida" quanto mais "gasosa". Saber esperar, porventura em casos mais complexos, que alguém, um filósofo, um escritor, dispondo da vocação e concedendo-se o tempo que nos mingua, pense, debata, escreva ou diga algo que nos permita pensar por nós, a partir daí, acerca do assunto.

Neste último caso, resta rezar para quem é desta arte, e esperar simplesmente para os que a não partilham, que esse outro o faça a tempo de os novos valores que substituiriam os anteriores com vantagem, e que subscreveríamos, nos chegarem a tempo (e com tempo) de os assimilarmos e aplicarmos.

Até mais ler...

Ultimamente, deparo-me com pessoas que insistem em acabar livros de que não estão a gostar.

Lembram-me o tempo em que me esforçava para ler os extensos e densos artigos do Jornal das Letras. Aprendi muito ali, mas também penei muito. Retirava 10% da sua leitura, o que para quem tinha 50% do tempo disponível, era um bom equilíbrio.

Andava na Faculdade (expressão, no caso, mais do que apropriada, porque de facto «não corria», «andava só» mesmo, como se tivesse todo o tempo do mundo à minha frente, o que era uma óptima opção de vida, vejo agora) e lia, lia, lia e ía ao cinema e ao teatro e lia, lia,lia e ainda tinha tempo infindo para filmes e séries da RTP (versão única no mercado, ainda).

Hoje, não tenho, obviamente, tanto tempo. A minha estante dos livros "para ler", é demasiado extensa, de tal modo que, por essa entre outras razões, restringi a idas à FNAC. Posso perder tempo com livros que não me despertam os sentidos? Não posso, mais que não seja porque haverá sempre qualquer outro que os despertaria. E essa é uma ideia que me é cada vez mais insuportável.

Confesso, todavia, que não sendo o único, há um livro em especial que lamento ter abandonado: «Ulisses» de James Joyce. Desisti ao fim de duzentas páginas, vencida mas não convencida e de tal modo irritada comigo própria, que o incluí na estante dos «lidos» para o esquecer...

Anteontem, li numa entrevista, sereníssima - eu quero ser assim quando for grande! - de João Lobo Antunes, à revista «Ler», de Agosto, que Jorge Luís Borges terá dito que havia muitos livros que não lia até ao fim, ou porque não tinham sido escritos para ele, ou porque ainda não estava preparado para eles

Alguns livros espalhados pela casa, com marcador entre a 10º e a 50ª página, ficaram automaticamente condenados à pena de «alfarrabização». Para outros, porém, como o «Ulisses» abriu-se, num sorriso luminoso, a real hipótese de um «até mais ler»...

Pinóquio e Gepeto

Há pessoas que, nas grandes, como nas pequenas coisas são geniais.
Para os reconhecer nas grandes, outros farão melhor que eu, com prémios e coisas dessas que muito orgulham os amigos.

Aqui, faço questão de celebrar os pequenos e divertidos incidentes sem importância, não só porque a mais me não «ajuda o talento e a arte», como ainda porque, como bem sabemos, é deles que são feitos os nossos dias mais felizes.

Cruzávamos mails, a três, esta tarde. Pequenas e rápidas frases. Ironizo e chamo à minha querida amiga e interlocutora, mentirosa. Resposta risonha: Pinóquio, Pinóquio, eu?!!!
E o nosso interlocutor, seu belo Perseu: :^)
E eu, distraída ou obtusa: Que é isso?
E ele: Um pinóquio, claro! (comentado em francês para o «francamente» ser mais incontornável).
E eu: Boa! E um Gepeto, como seria?
Pensei, por alguns momentos, que não estaria para me aturar, o que era legítimo. Falamos de um artista, mesmo.Preparava-me para minimizar o mail e esquecer o assunto, quando cai a resposta: :3)

Sei que se ouviam

Conheço-os, de vista, há já alguns anos. Dir-se-ia até que são bem pouco simpáticos. No elevador, bom dia, boa tarde de sorriso ausente. Eles, e o cãozito de raça indefinida. Altos, magros, denunciando rigor no que comem e bom gosto discreto no vestir. Podiam até nem ser portugueses. Usam, aliás, o ar altaneiro próprio dos colonos anglo-saxónicos, que não provoca, nem permite, conversas de circunstância.

Marido e mulher, parecem, todavia, senão gémeos, pelo menos irmãos. A idade acentua-lhes as semelhanças. Envelhecem ambos como secam as flores dentro dos livros, preservando-nos a exacta memória do que foram.

Ontem, caminhava desalmadamente pelo parque urbano, quando se atravessaram, suaves, no meu caminho, ignorando-me ostensivamente. Qual hamster na roda, passei várias vezes pelo banco onde se haviam sentado. Na minha primeira volta, ambos olhavam o fim do dia, em silêncio. Nas seguintes, ela deitara-se, cabeça no colo dele, procurando com o rosto, os últimos raios de sol. Não percebi se falavam, mas sei que se ouviam.

De «Wendy e Lucy», a sua realizadora, Kelly Reichardt dizia ontem ao Ípsilon: «Num mundo ideal, penso que se tirarmos todos os diálogos, um filme ainda funciona».

Lágrimas de crocodilo

Fui ao oftalmologista. Andava/ando com algumas dificuldades de visão, quase indefiníveis.

Escolhi um supra-sumo, na expectativa de não ouvir o que receava, isto é, que não era um caso para si e assim me ver remetida, com pesarosa carta de recomendação, ao famoso Dr. House (parece que é um síndroma que atacou a população portuguesa: todos achamos que nenhum médico vai detectar estranha doença que nos atacou, mesmo que ela conste das primeiras páginas dos manuais dos estudantes do primeiro ano de medicina...porque não havia eu de partilhar desta estimulante sintomatologia?).

Afinal, ouviu-me com um ar vagamente trocista e diagnosticou: olhos secos, tem de usar lágrimas artificiais. E lá ando eu, de lágrimas fabricadas, a chorar à força.

Enfim, antes isso que não precisar delas por andar a chorar pelos cantos, feita uma inenarrável Madalena arrependida.

Dá tanto trabalho, ser preguiçoso

Cansam-me sempre mais as coisas que tenho para fazer do que aquelas que já fiz.
Faz! Não me apetece. Não fizeste, não fizeste, devias ter feito. Faz, faz! Não!
Um preguiçoso, acreditem, tem uma forma peculiar, ainda que inconsciente, de pensar: por muito que se faça, há-de crescer sempre trabalho. Melhor mesmo será, portanto, não substituir o que já está feito por aquilo que estará logo a seguir na fila de espera.
Quando dá por ele, o preguiçoso tem uma infindável lista de coisas não feitas.
Normalmente, opta, então e só então, por fazer tudo de uma assentada. Tudo, quer dizer, tudo o que está atrasado e não necessariamente por qualquer ordem lógica, isto é, de urgência, atraso, interesse ou seja qual for, mas apenas aquela que lhe apetece e de, preferência, a que dê menos trabalho.
Como alguém já disse, os preguiçosos têm sempre vontade de fazer qualquer coisa...mas, digo eu, nunca aquela que devia ser feita.

Contar até dez

Conto sempre até dez.
Posso é contar mais depressa ou mais devagar.
O que ainda não descortinei é se se trata de uma qualidade, se de um defeito, se me prejudica ou beneficia.
Talvez no meio esteja a virtude.
Vou passar a contar até cinco (já que estamos no ano dez e só para contrariar).

Carta a 2010

Caro Senhor 2010:

Escrevo-lhe para lhe pedir, se não fôr muito incómodo, que seja um ano diferente dos seus antecessores. Que se digne V.Exª fazer melhor que eles - aqui para nós, que eu não sou de intrigas, os que se sentaram na sua cadeira antes de si andaram para aí a fazer umas maldades muito maldosas (reitero a redundância).

Ficam portanto, aqui, os meus votos de que o seu mandato seja longo, se bons forem os seus intuitos, e curtinho se vier por mal.

Este planeta azul e os seus habitantes de todas as espécies sabem, porque a História ensina, que os anos são como os ditadores: aparecem sem serem convidados ou eleitos, abusam do seu poder, usam de arbitrariedade nos seus mandamentos. Não pedem licença, nem desculpa.

Mas permito-me recordar-lhe que o exercício do poder passa também por alguma complacência e bondade. Se pudesse usar delas na maior parte dos seus 364 dias, ficar-lhe-íamos muito gratos.

Na expectativa de que logre fazer o seu melhor, apresento os meus melhores cumprimentos.

Apenas mais um Natal

Mais um Natal.

Almoço de Natal com os meus pais.

Morreu, há poucos dias, o pai de outra amiga minha.

No andar debaixo, alguém alegra as teclas do piano com o «Silent Night», entre aplausos e gargalhadas dos demais.

O meu filhote foi passar o dia de Natal com o pai, depois da consoada com mãe. «É no Natal que as famílias se reúnem todas juntas (ou quase todas juntas)», escreveu no postal que me trouxe da escola.

Nas ruas, ninguém. Chove muito.

Que dôr, o Natal. Que bom, o Natal.