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Deflação? Medo, muito medo


Economistas alertam para o risco de deflação em Portugal
Por Sérgio Aníbal
In Público, 17.12.2012

Pela primeira vez desde pelo menos 1978, o deflator do PIB caiu em Portugal para valores negativos. Se o fenómeno se prolongar, o país pode arriscar-se a cair na armadilha da deflação

  • Para o Governo e para a troika, é apenas uma redução não permanente dos custos que irá ajudar o país a reconquistar a competitividade perdida, mas são vários os economistas que vêem a recente descida da variação dos preços na economia para valores negativos como mais um sinal de que Portugal se arrisca a cair na perigosa armadilha de uma deflação prolongada.

    No segundo e no terceiro trimestre deste ano, pela primeira vez desde pelo menos 1978 (o primeiro ano das séries longas do Banco de Portugal), o deflator do PIB - que mede a variação dos preços no total da economia, não apenas no consumidor - registou valores negativos.

    Este resultado inédito deverá conduzir, segundo as últimas previsões da OCDE, a que, no total de 2012, se venha também a registar, pela primeira vez em décadas, um deflator do PIB negativo.

    A taxa de inflação no consumidor está também a descer, tendo ficado abaixo da barreira dos 2% em Novembro, mas sendo ainda sustentada por subidas homólogas de preços significativas em bens como os combustíveis e pela subida do IVA operada recentemente.

    Para Luís Campos e Cunha, professor na Faculdade de Economia da Universidade Nova, há nestes números um sinal de alerta que é necessário levar em conta. "Infelizmente, vejo essa evolução como sinal de uma "recessão com deflação". É uma combinação muito perigosa porque não temos política monetária nacional e a política orçamental só pode agravar a situação, em consequência da quase bancarrota de 2011", explica.

    O ex-ministro das Finanças e ex-vice-governador do Banco de Portugal considera ainda que "a deflação possivelmente não é mais aparente e não se mostra nos preços do consumidor, porque há efeitos do IVA". "Só o tempo poderá confirmar ou não os meus receios", afirma.

    À primeira vista, uma descida de preços na economia poderia parecer uma boa notícia, uma ajuda para que os portugueses enfrentassem melhor a descida de rendimentos que já sofreram e que se irá intensificar no próximo ano. No entanto, por trás dessa vantagem aparente, a deflação esconde perigos bem mais graves, que já foram comprovados no passado durante a Grande Depressão dos anos 30 do século passado ou na crise japonesa iniciada nos anos 90.

    Uma deflação prolongada coloca os países numa situação em que, devido a uma expectativa permanente de descida de preços, o consumo das famílias e o investimento das empresas não arrancam, deixando a economia num estado de autêntica depressão.

    Será isto que está a acontecer a Portugal? João Rodrigues, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, acha que sim. "O espectro da deflação é a melhor indicação de que podemos, graças à política de austeridade permanente que comprime a procura, estar a sair da recessão para entrar na depressão", afirma.

    No programa de ajustamento acordado entre as autoridades portuguesas e a troika, a história é contada de outra forma e aponta para um final diferente. Aí, a contracção de custos na economia é apenas vista com um passo necessário para que a economia portuguesa reconquiste a competitividade perdida. A fuga a uma espiral depressiva aconteceria neste caso graças ao sector exportador.

    Luís Campos e Cunha reconhece o desempenho positivo das exportações, mas teme que isso não chegue por si só para travar a ameaça da deflação. "Como sempre defendi, a competitividade da economia portuguesa para exportar não era um problema e a prova disso tem sido o excelente desempenho do sector", afirma.

    João Rodrigues não vê qualquer sinal positivo nas contas externas. "Os últimos dados do INE apontam para uma forte desaceleração do crescimento das exportações, em grande parte devido à replicação das políticas de austeridade nos principais mercados europeus de destino das nossas exportações. A correcção do desequilíbrio externo é feita cada vez mais à custa do colapso do mercado interno", afirma.

    Um dos maiores problemas que a deflação traz a um país fortemente endividado como Portugal é que torna ainda mais difícil a amortização da dívida. No seu último relatório, a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) alerta para este perigo. Um deflator negativo do PIB, contra as previsões do Governo, significa que o PIB nominal vai cair ainda mais do que o projectado, o que faz com que o peso da dívida pública na economia seja ainda maior e, por isso, mais difícil de pagar.

    "Se se vier a confirmar tal situação, de facto, ficará mais complicada a tarefa de estabilização das finanças públicas", reconhece Campos e Cunha.

    João Rodrigues lembra uma frase do economista norte-americano Irving Fisher, sobre a forma como interagem a deflação e a dívida: "Quanto mais os devedores pagam, mais os devedores devem".

Bagão Félix: ética em tempos de crise

 
 
Bagão Félix
 Foto © Paulo Spranger/Global Imagens
 
Bagão Félix.  Aqui.
In Portal Ver, entrevista de Helena Oliveira, publicada no Jornal de Negócios on line, em 30.11.2012.

Da excelência ética. Da septicemia moral. Da sociedade de "pedra pomes". Dos (falsos) dilemas éticos. Do excesso de utilitarismo ético.  Das elites verdadeiras e das elites perversas. Da ética da exactidão. Do espelho ético: da ética da primeira pessoa e da ética da terceira pessoa. Da moral e do moralismo. Da ética kantiana: do dever ético passivo e do dever ético activo. Dos cargos e das pessoas. De Miguel Torga. Das crianças, dos salões e das celas. Do útil, do fútil e do inútil. Da austeridade. Do urgente e do importante. Do mundo virtual. Do desemprego. Da auto-estima. Da responsabilidade social. Do investimento nas coisas boas. Da parametrização econométrica da vida das pessoas. Da régua e esquadro. Da medida moral da economia. Do dogma de fé na economia e na política. Da redistribuição das sabedorias. Do triângulo "knowledge, skills e wisdom". De Sócrates, o grego. Da sabedoria dos velhos. Da sustentabilidade do Estado Social. Dos que não têm poder, não têm voz, não fazem greves. Do Estado possibilitador. Da aritmética e da sensibilidade. Do choque dos sistemas de saúde. Do rendimento social de inserção. Dos seus abusos. De outros abusos.

Explicar? Mas explicar o quê?


Ontem à noite, deixei-me ficar a ouvir Ângelo Correia a perorar sobre a inépcia do Governo em explicar aos portugueses o que está a fazer no âmbito da austeridade, porquê e com que objectivo, pelo que o Executivo teria, na sua opinião, doravante, de cumprir melhor esse papel.

Ficou-me uma dúvida: Ângelo Correia, e outros comentadores que já ouvi na mesma linha, querem que Passos Coelho e Vítor Gaspar expliquem concretamente ainda o quê?

Se o Governo não explica, é porque já explicou o que havia para explicar sobre as razões das medidas de austeridade, com-power-points-e-tudo, e nós-já-percebemos-muito-obrigado: elas tendem a arrecadar o máximo de impostos (com quase ausência de política fiscal, atropelo da economia e asfixia dos serviços públicos), por período indeterminado e indeterminável, com vista ao pagamento de uma dívida colossal e à redução de um déficite assombroso. O que é que, deste quadro de empobrecimento generalizado do país, Ângelo Correia pensa necessitar de esclarecimentos adicionais?

Tendo Portugal atingido, em outubro, 15,8% de taxa de desemprego ( o horrendo significado dos números do desemprego aqui), em vertiginosa tendência de subida, para quê entreter a consciência, pedindo inglórias explicações?

Das nossas âncoras particulares


Amanhã, a Senhor Merkel aterra em Portugal, para uma estadia de breves horas. O país divide-se, quanto à forma como receber a chanceler alemã, e se ela é ou não culpada do aprofundamento da crise europeia em geral, e portuguesa em particular.

Francamente, atingi um ponto em que já não me apetece procurar culpados, nem admitir ou recusar responsabilidades, nem tão pouco esperar que alguém seja capaz de resolver a situação. Dei comigo a pensar, ao invés, o que é que nos impede, aos portugueses, mas também aos restantes europeus, de virarem a mesa, e começarem do zero? De repente, percebi: Londres e Paris.

Numa passagem de um dos livros do Quarteto de Alexandria, "Mountolive" de L. Durrell (Ulisseia), uma das personagens, Clea, num momento que antecedia a 2ª  Guerra Mundial, questionava-se, a certa altura, sobre a possibilidade de efectivamente existirem bombardeiros que destruíssem capitais inteiras. Comentando que sempre julgara que as invenções do homem reflectiam os seus secretos desejos e que, no fundo, todos desejavam o fim "desta civilização", acabava por concluir: "Sim, mas será doloroso perder Londres e Paris. Que acha?"

O que nos faz recear começar do zero, percebi só então o óbvio, é mesmo isso: cada um de nós, portugueses, mas também europeus, rejeita a ideia de perder as suas Londres e Paris particulares. É o pânico de que deixem de existir, pelo menos como as conhecemos, que nos mantém ancorados a uma União Europeia tão absurdamente vacilante nas suas convicções.

Resta saber se estas âncoras nos impedirão de sermos arrastados pela tempestade, ou se nos levarão a afundar à sua passagem.

"Vendo só por onde entrar e não por onde sair"



 
 
    "Um leão vendo-se enfermo
Passa o aviso a seus vassalos
De que à vida vai pôr termo.
      E que intenta aconselhá-los
Sobre a regência futura,
Dar-lhes beija-mão, e honrá-los
      Dos leões à fé lhes jura
Que trata bem qualquer fera
Que o visita e procura:
      Porém na furna as espera,
E quando alguma entrar ousa,
Logo a mata e dilacera.
      Eis uma esperta raposa
      pára e diz, sem que entre lá:
«"Chau" que observo uma coisa!
      Pegadas mil aqui há;
Mas para lá todas vão,
E nenhuma para cá;
     Saúde, Senhor Leão!
Quero-me à glória eximir
De beijar-lhe a régia mão,
      Porque jurei jamais ir
A qualquer casa ou lugar,
Vendo só por onde entrar,
E não por onde sair.»
Foi reflexão mui subida
Esta que fez a raposa;
Que é loucura desmedida
Entrarmos em qualquer coisa
Sem vermos se temos saída."
 
"O leão doente". In "La Fontaine -Fábulas". Temas&Debates.Trad. Curvo Semedo.

União Europeia e o método esquecido dos pequenos passos


"(...) Nas últimas duas décadas, a União Europeia foi abandonando o método dos pequenos passos de Jean Monet e procurou aumentar a passada e acelerar a História. Desde 1992, a União Europeia: 1) Aprovou quatro novos tratados (Maastricht, 1992; Amesterdão, 1997; Nice, 2001; e Lisboa, 2007) e tentou aprovar um Tratado Constitucional em 2004; 2) Criou o Mercado Interno (1993), uma moeda única e uma Política Monetária Única (1999 e 2002) sem estarem reunidos os chamados requisitos mínimos para a criação de zonas monetárias óptimas (Mundell, 1961); 3) Procedeu a três grandes alargamentos a novos Estados-membros (Áustria, Finlândia e Suécia, 1995; República Checa, Chipre, Estónia, Letónia, Lituânia, Hungria, Malta, Polónia, Eslovénia e Eslová-quia, 2004; Bulgária e Roménia, 2007) mais do que duplicando assim o número de Estados-membros; 4) Implementou uma política comercial externa permissiva e frequentemente penalizadora das especializações económicas de muitos Estados-membros); 5) Gerou uma política monetária especialmente orientada para a ambição geoestratégica da União e não focada no seu próprio desempenho económico. Esta corrida veloz não deixou lugar, nem espaço, para o tempo longo de maturação que muitas destas decisões exigiam para poderem ser bem sucedidas. E transformou a União, de uma construção supranacional magnífica e uma referência à escala global que foi, na organização vulnerável e ferida que hoje é.

Nos últimos vinte anos, as elites europeias governantes quiserem fazer toda a história europeia nos seus tempos de vida, procurando assegurar a sua própria imortalidade acima dos líderes fundadores. Talvez tenham mesmo conseguido. Pelas piores razões."


Paulo Neto, "A Europa na agonia dos tempos". In Público, 4.11.2012.

Da vertigem de um ajustamento precipitado


É um estado de emergência total, próximo do de guerra, aquele em que vivemos? É, por isso, condição que temos de achar normal, a de que alguns tantos caiam hoje no campo de batalha da crise, para que outros sobrevivam no futuro? É por isso que, se nos preocuparmos com a mole imensa de desempregados de longa duração, no desespero do "desamparo aprendido", somos vistos como tendo falta de visão de futuro?

É neste sentido também que devemos encarar a refundação do entendimento com a troika? Um estado de urgência tal que, se for preciso, até a Constituição se altera? Nada tenho de princípio contra alterar a Constituição. Em minha opinião podia já ter sido feito. Mas é justo e avisado fazê-lo num momento em que pode ser o único escudo dos mais vulneráveis contra a devastação das suas vidas?

Fazê-lo agora, a quente, num momento de crise profunda, não será precisamente desistir de lhes dar, aos mais fragilizados, ou àqueles que, num futuro muito próximo, darão por si absolutamente impreparados para enfrentar este terramoto de Estado, o acesso a condições de vida minimamente dignas, à esperança de sequer viverem razoavelmente com muito pouco?

Suspeito intensamente da proposta de novos entendimentos que, por bem intencionados que sejam, tenham por único fim atingir as metas do déficite para 2014. As metas, sabe o governo como todos nós, são absolutamente inalcançáveis, pelo que me permito desconfiar que a "refundação", de que fala Passos Coelho, possa contribuir em mais do que uma gota de água para a redução do déficite. Antevejo, em contrapartida, um mar de desespero para uma grande parte da classe média, média-baixa e baixa, que passará a assumir para sempre a sua condição de desempregada, ou, caso mantenha ou consiga emprego, fugirá a todos os impostos que possa, porque se sente legitimada a não os pagar face aos, então, exíguos e medíocres serviços públicos à sua disposição.

A Islândia orgulha-se de ter recuperado de uma crise monumental sem ter prescindido do estado social. Mas para os portugueses, o estado social é coisa de nórdicos ricos e patéticos. Nós somos do sul, país pobre e periférico. Em Portugal, quando qualquer crise aperta, o povo, a primeira coisa que exige é a reinvenção de um Salazar, a imposição de um regime autoritário de qualquer cor ideológica, e os políticos, por seu turno, equacionam logo o desmantelamento do estado social, sem pensarem em propiciar aos mais desprotegidos, ou que nisso se transformem pela acção quixotesca de um governo, a possibilidade de viverem condignamente com as funções sociais do Estado em regime de serviços mínimos.

Preparamo-nos, portanto, para morder a mão que poderia dar aos mais carenciados algum consolo e alento para enfrentar os tempos difíceis que aí vêm. Num esforço enxangue, em lugar de negociarmos os juros usurários que nos cobram os nossos credores, insistimos em voltar ao salazarento "pobrezinhos mas honradinhos", de que falava João Galamba na discussão do Orçamento do Estado (deputado desse PS que, tal como o PSD,  geriram anteriormente o país com a irresponsabilidade de um pobre de espírito a quem saiu o euromilhões com a cumplicidade dos restantes partidos), e que Vitor Gaspar repudiou, ofendido, apenas porque, aparentemente, sofre de uma ignorância lexical tão extensa, quanto são reconhecidamente grandes os seus conhecimentos de modelos económico-financeiros, confundindo "salazarento" com "salazarismo".

Sim, há que mudar de paradigma. Recusá-lo seria alimentar um "optimismo irrealista" que teria efeitos perversos. Mas a necessidade de mudança tem ser intuída pelas pessoas, para o que é imprescindível tempo, pelo menos algum tempo. Não se muda as agulhas do raciocínio colectivo como se fossem as das linhas do comboio, e "a prioridade a um ajustamento rápido" de que falava ontem o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, é uma leitura fria e desapiedada da realidade, que ele pode institucionalmente defender, mas que eu devo, eticamente, rejeitar.

Vivo a realidade dos meus dias, e essa diz-me que há já demasiados corpos no campo de batalha e que muitos mais se lhe juntarão. Sei que um dia esses corpos serão "retirados do quadro" - há uma cena notável no filme "Linhas de Wellington", em que o general Wellington insiste que o quadro da batalha tem demasiados corpos e sangue, e pouca glória, mandando refazê-lo. Hoje, todavia, enquanto escrevo isto, não tenho de ter contemplações para visões de generais aos quais, ainda por cima, não reconheço as capacidades de Wellington. Serei, portanto, o pintor que insiste em recriar o que vê, e não apenas o que outros querem mostrar.

Mudar paradigmas com ajustamentos rápidos é algo de obviamente ilusório e precipitado e, se o desmantelando de grande parte do estado social acabar por fazer, como fará certamente, parte desse reajustamento, é garantido que se vai, com a água do banho, a cultura, a educação, a saúde, bem como os benefícios sociais a um nível ética e socialmente aceitável, só porque é mais fácil, e sobretudo mais rápido, do que cirurgicamente eliminar ineficácias e, lentamente, deixar então que o crescimento e desenvolvimento económico permita  que os privados tomem conta de parte possível das funções do Estado.

No fim, queiram os deuses que me engane porque muito gostaria poder, daqui a poucos meses, rir-me deste post, os credores continuarão descontentes connosco, exigirão ainda mais sacrifícios do que já cedemos de barato, e nem sequer nos poderemos orgulhar de um estado social eficaz, porque nessa altura estará tão anémico quanto os seus utentes.

Da nação que rola à aventura de messianismo em messianismo


Manuel Laranjeira,
excerto de um dos textos publicados no jornal "O Norte" em 1907-1908
compilados no livro "Pessimismo nacional" da frenesi.

"(...) Um dos aspectos mais típicos da sociedade portuguesa e um dos seus males mais funestos é a sua prodigiosa fertilidade messiânica. A cada passo surge um homem que se sente com envergadura e ventre de messias. Por cada messias que aborta, pululam inesgotavelmente centos de messias, toda uma falperrra de messias. E, enquanto a nação rola à aventura de messianismo em messianismo, a sociedade portuguesa, lentamente, infatigavelmente vai-se dissolvendo e desagregando (...)."

FMI: quando a bela adormecida acorda do seu longo sono


"(...)Até ao momento, diz o estudo [do FMI] as previsões para a evolução da economia têm sido efectuadas partindo do pressuposto de que um euro de medidas de austeridade provoca uma queda adicional do PIB de 0,5 euros. O FMI vem agora reconhecer que, afinal, a perda do PIB pode ir dos 0,9 euros até aos 1,7 euros. Uma conclusão que pode explicar muitas das previsões falhadas até agora em economias como a grega, portuguesa, irlandesa ou espanhola.

Para o próximo ano, o Governo prevê uma contracção da economia de 1%, com um recuo de 2,6% no consumo privado. Valores que são mais favoráveis do que os que se deverão registar este ano (variação negativa de 3% no PIB e de 5,8% no consumo privado) e que se verificaram em 2011 (variação negativa de 1,7% no PIB e de 3,9% no consumo privado). Isto apesar de, segundo aquilo que foi apresentado pelo ministro das Finanças para o Orçamento do Estado, se poder esperar que 2013 seja o ano com uma dose mais forte de medidas que afectam de forma directa o rendimento disponível dos portugueses.

Usando as novas contas do FMI é fácil perceber o potencial de erro que existe. Por um lado, de acordo com os modelos que ainda estão a ser usados e agora considerados errados, os cerca de 5500 milhões de euros de medidas adicionais de austeridade previstas para este ano (considerando apenas as que afectam o rendimento disponível) levariam a um recuo adicional do PIB de 1,6 pontos percentuais. Por outro lado, usando os números agora aconselhados pelo FMI, a quebra adicional do PIB poderia estar entre 2,9 e 5,5 pontos percentuais. (...)".



Jornal Público de 14.10.2012.

Portugal em busca das certezas perdidas


"(...) Há um batalhão de gente neste momento a lutar pelo País mesmo que parte dele não saiba fazê-lo. Cada português tem de decidir se acredita nisto. Se desiste, se se rebela. Ou se acredita, tira o sangue das pedras, paga impostos, luta pela sua vida e pela dos outros. Sim, é uma decisão cada vez mais individual. Porque está a tornar-se uma decisão de fé. (...)"

Pedro Santos Guerreiro. Jornal de Negócios. 3 de outubro de 2012.

Portugal em busca da culpa perdida



Um gigantesco "é bem feito" é dito todos os dias pelo Governo ao país. O país retribui em espécie.

Pacheco Pereira. Público. 6 de outubro de 2012.
 
*** 
Em Portugal, nunca nenhum governante deixou de sonhar ser uma espécie de Fontes Pereira de Melo moderno, espalhando auto-estradas ou semeando rotundas, criando dívida directa ou dívida através de PPP, assim contribuindo para que, só em 2007, cerca de 70 por cento do crédito bancário total concedido a empresas e a particulares fossem destinados ao cluster da construção civil e imobiliário. Não surpreende que, com estes comportamentos e distorções, a dívida tenha crescido e a economia estagnado.
 
José Manuel Fernandes. Público. 5 de Outubro 2012.

***
As economias no mundo ocidental estão a sofrer uma violenta ruptura com o passado iniciado algures no anos 80. Desde essa altura o crescimento fez-se à custa de crédito, num modelo liderado pelos Estados Unidos. Dizia-se que a China produzia e os Estados Unidos consumiam, a crédito dos chineses. Este foi o modelo que se rompeu com consequências devastadoras para os países mais fracos e endividados.

Helena Garrido. Jornal de Negócios. 2 de outubro de 2012.

União europeia: a pobreza exclui, a riqueza isola


"A pobreza exclui (...) e a riqueza isola."
Lawrence Durrell, em "Justine" (Ulisseia)


Paul Krugman terá escrito ontem na sua coluna do New York Times", intitulada de "A loucura da austeridade na Europa", "que as medidas de austeridade levadas a cabo por países como a Grécia, Espanha ou Portugal foram demasiado longe". **

Terá acrescentado que os alemães não acreditam nisso: "Falem com políticos alemães e eles irão mostrar-vos a crise do euro como um jogo moral, um conto de países que viveram acima das suas possibilidades."

Assentemos nisto honestamente: foi pena estes três países não terem optado a tempo por uma política de rigor e de disciplina ao longo dos anos que levaram de integração europeia. 

Mas começa a ser óbvio, mesmo para quem, como eu, defende as vantagens de ajustamentos nestes Estados-membros (uma expressão que, aliás, nos discurso político e mediático começa a perder terreno para apenas "Estados" ou "países") ainda que induzidos pela crise das dívidas soberanas, que serem eles agora impostos abruptamente, num curtíssimo espaço de tempo, em ambiente recessivo e absolutamente desesperançado, e ainda por cima em jeito de castigo, só pode dar mau resultado.

Exauridos como estaremos após esforços gigantescos no trilho do empobrecimento, com economias enxangues e incapazes, por isso, de se autofinanciarem, seremos, na União Europeia, como aquela criança que, frequentando o melhor dos colégios, não tenha o que almoçar em casa: débil, com medíocre rendimentos escolar e sem amigos.

Se isso acontecer poderemos já antecipar com facilidade o fim da União Europeia.

Sim, para que quereremos nós, países então sobreempobrecidos, ou eles, Estados ainda ricos, manter a Europa artificialmente unida, se parte dela se sentirá excluída como um sem-abrigo, enquanto a outra festejará, isolada, num esplendoroso castelo de arrogância?

Os políticos alemães de que fala Krugman podem ter até razão, mas o que farão depois com ela?

** Sobre os riscos da austeridade diz mais no seu blog: http://krugman.blogs.nytimes.com/2012/09/28/debt-is-a-drug-and-so-is-austerity/

Quando o "autismo" é tamanho XL


As manifestações de sábado passado evidenciaram que, politicamente, mais mortífero do que fracassar previsões económico-financeiras e pedir sacrifícios adicionais e desmesurados a um povo, é governar de forma autista, "gabinetista", com falta de bom senso político, desconhecimento da realidade e desrespeito pela inteligência dos governados.

Estou convencida que anunciar e insistir na transferência do pagamento da TSU dos empregadores para os trabalhadores, uma medida tão obviamente ineficaz, iníqua e cuja demonstração da incorrecção técnica é de uma simplicidade atroz, com a mesma despreocupação de quem trauteia a canção "Nini dançava só p'ra mim", acabará por constituir um case study de "erros infantis a evitar", e será mesmo incluído em próximos manuais para "políticos tótos".

O pior é que este erro pueril pode sair caro ao país. Corremos o risco, não só de ver abalada um mínimo de coesão nacional à volta do assunto austeridade, como ainda que as instituições e a imprensa internacionais - que por definição reduzem tudo à sua expressão mais simples quando se trata de assuntos que observam de fora, não nos iludamos - se sintam tentadas a ver nas manifestações em Portugal, a evidência da proverbial resistência dos países intervencionados ao imprescindível esforço de contenção orçamental.

Não é, no entanto, fácil traduzir aquela que é a indizível questão portuguesa que acabou indirectamente por levar milhares (eu própria!) à rua, numa linguagem que um alemão, um finlandês ou um holandês entendam. É ela que, se é um facto que temos um problema económico- financeiro para resolver, grande, enorme, do tamanho do mundo, ele pouco é se comparado com aquele que é a imaturidade, impreparação, falta de visão e experiência de vida, da nossa inábil e autocomplacente classe política.

É óbvio que precisamos do dinheiro que nos é emprestado pela troika como pão para a boca, mas o que nos dava mesmo jeito era uma meia dúzia, nem precisava de ser muito bem contada, de políticos a sério.

You'd be a man of vision, if only you could see


Relativamente às novas e ineficazes medidas de austeridade que o governo e a troika resolveram impor a Portugal, I rest my case.




What's New, Mr. Magoo?
What new and wild adventure have you bumped into?
You are a man of stature,
In your hat you're 5 foot 3.
You'd be a man of vision,
If only you could see!

What's New, Mr. Magoo?
My, but your dog McBarker looks a lot like you!
He'd be a good night watch dog,
But he's nearsighted too!

From your peculiar point of view,
This crazy world's a blur to you!
Oh say, can you see What's New, Mr. Magoo?

A saída da Grécia do euro seria sempre uma catástrofe


Para quem já descarta levianamente a Grécia da zona euro, talvez seja melhor (também) nas costas dos outros começar a ler as suas.

Por Ricardo Reis, Professor de Economia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, hoje mesmo no Dinheiro vivo.

http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO057428.html

Já estamos a chegar?


O T. , na aborrecência dos 14 anos, vinha ontem no carro a queixar-se: duas hora de viagem para fim de férias na aldeia. Optáramos pela A14, seguida da A17, o que significa que a viagem seria um pulinho em autoestradas praticamente desertas, construídas com três faixas, prevenindo um crescimento económico improbabilíssimo.

Os meus pais e eu só nos ríamos. De que te queixas tu, miúdo? Tu sabes lá o que era viajar "lá para cima" quando eu e o tio éramos pequenos? E enumerei: as curvas de Alenquer - de que o presépio gigante era o único atractivo, e ainda assim porque nos contentávamos com bem pouco; as curvas de Rio Maior atrás dos camiões que o pai insistia em ultrapassar, creio que para se entreter, para desespero da mãe. O frango na púcara em Alcobaça se a coisa corria bem, mas chegávamos mesmo a ter de almoçar no Carregado ainda.

E depois era viajar, viajar, viajar parecia que até à eternidade. Chegávamos ao destino quase à noite, por estradas esburacadas e, por vezes, até por trancos e barrancos já que a alguns troços faltava mesmo alcatrão. E os miúdos que éramos nós, lá atrás, sem cinto de segurança, aos gritos e desafios constantes entrecortados pela desesperante cantilena "já estamos a chegar?".

O meu pai  riu-se e comentou: e vocês ainda tiveram sorte. Aqueles primeiros 25 km de autoestrada a partir de Lisboa fizeram grande diferença. Sabem lá o que era antes disso.

O T. engasgou... e eu também. É verdade, confirmei agora na Wikipedia: os primeiros 25 km de autoestrada Lisboa-Porto foram inaugurados apenas em 1961, alguns anos, poucos, antes de eu nascer, portanto. Só em 1977, três anos após o 25 de abril e nove anos antes da nossa entrada para a então Comunidade Económica Europeia, foi concluído o troço Vila Franca de Xira-Carregado, de apenas 6 Km.

Só em 1991, a A1, que liga as duas maiores cidades do país, ficou integralmente concluída com a entrada em serviço do troço Torres Novas-Condeixa. É certo que podemos dizer que andámos de cabeça perdida durante muitos anos, mas lembrar-me do suplício infantil daquelas viagens de um dia inteiro, relembra-me que partimos de um nível muito (demasiado) baixo.

Toda a gente sabe que os homens...


"Os maridos das outras" é a canção que Portugal trauteia este verão. A letra, de Miguel Araújo, muito bem esgalhada aliás, tem sido sujeita a tratos de polé interpretativos e, "silly season" para que te quero, também dei comigo a pensar onde vai ela buscar o seu lado cómico.

Já ouvi classificá-la como uma canção irónica. Dou de barato que seja a figura de estilo que marca a ideia da letra, mas não me parece que ao longo dos versos se diga, no essencial, o contrário do que se quer dar a entender (Houaiss da Língua portuguesa).

Então, como e porquê que a letra nos diverte, toda ela e não apenas a sua ideia? Creio que o efeito cómico é provocado, sobretudo, pela forma como Miguel Araújo tira proveito, não de uma, mas de duas falácias (erros de argumentação) conjugadas, próprias de algum tipo de raciocino feminino sobretudo urbano (português?), intuído na expressão "toda a gente sabe que...".

A primeira falácia é a de que os homens são "brutos", "feios", "lixo" e "animais", se forem os nossos maridos. E é uma falácia porquê ? Porque se alguns o serão, outros não o são. Logo a informação está incompleta, e portanto trata-se de uma generalização abusiva destinada, no caso, a fazer rir.

A segunda falácia é a de que "os maridos das outras" são em absoluto o oposto, o que estatisticamente também nunca poderia ser verdade.  As expressões exageradas como o "arquétipo da perfeição", "pináculo da criação" e "amáveis criaturas" acentuam a extensão do equívoco, aumentado portanto a comicidade da ideia.

Tudo isto é envolto de facto - chegámos lá -  num manto bem pouco diáfano de ironia: quando se diz que os nossos maridos têm carradas de defeitos, que os maridos das outras não têm, e "que servem para fazer felizes as amigas da mulher", obviamente que se quer dizer o inverso, isto é, "vocês são tontas ou quê"?

No género canção de verão, é uma letra mesmo muito bem achada, e revela uma olhar fino, inteligente e risonho sobre alguns vícios de raciocínio femininos.

O lado bom da privatização da RTP 2


Há duas formas de encarar o anúncio da escolha da RTP 2 para privatização. A primeira é negativa: as boas notícias actualmente escasseiam, pelo que era inevitável que o Governo optasse por privatizar aquele dos dois canais de melhor qualidade, e o que presta aliás um notável serviço público de televisão.

A outra é a positiva. Finalmente, vamos  voltar a falar da medida em que cabe ao Estado cumprir as obrigações de serviço público. Espero que, perdendo o canal a que o serviço público acabou por ficar quase exclusivamente afecto, se ganhe um novo, este equilibrado e sensato, livre pelo menos do  excesso inadmissível e abjecto de tralha televisiva que atafulha hoje em dia a RTP-1.

Telhados de vidro


Se houve cançoneta que sempre me buliu com o sistema nervoso foi a "Casa portuguesa" **(passo qualquer comentário sobre a definição de casa portuguesa de Raúl Lino, que não me lembro de lhe ler notas sobre S. Josés de azulejo ou duas raquíticas rosas no jardim).

A pobreza simultaneamente envergonhada e honradinha, tranvestida de grandiosa generosidade, expressa no verso " a alegria da pobreza está nessa grande riqueza de dar e ficar contente" é de uma tamanha indigência espiritual que, se a justiça fosse justiça, nem por um buraco do tamanho do Oceano Atlântico haveria de entrar no reino de qualquer céu (dar, não nos deixa felizes, sejamos ricos ou pobres?).

O apelo à pequenez portuguesa, pequenez essa que Maria Filomena Mónica tem por fatalidade nacional na crónica de ontem do "Expresso", "Educação e Desenvolvimento Económico" - por muito que a senhora me caia no gôto, e cai, até eu tenho de admitir que por vezes exagera, como neste caso, quando diz desabridamente que Portugal nem com muita instrução lá vai, não se questionando se a instrução apenas não foi no sentido certo, nos últimos 30 anos - começa a ser bandeira deste governo.

Mau é ser apanhado na espiral do empobrecimento. Pior, é ouvir de quem nos governa, que isso não só é inevitável, como é até desejável, sem que  se explique exactamente porquê, uma vez que nunca vamos ser tão pobres como os chineses e, portanto, nunca tão competitivos como eles.

E desculpe-me o mundo, mas a renovação do ideal do pobrezinho mas honradinho não é sequer uma tradução mesmo que livre de teses neoliberais: trata-se simplesmente de uma decadente teoria salazarista, a cheirar a naftalina, a que o governo recorre por default, à míngua de ideais e mecanismos imaginativos e profícuos, que melhor respondam às exigências da troika. 

No "Público" de hoje, a insuspeita, porque europeísta, jornalista Teresa de Sousa, depois de reconhecer que o Executivo de Passos Coelho está a ganhar na imagem externa do país, aponta, certeira, e retribuindo mesmo em dobro,  o facto de internamente o governo atirar à cara dos elos sempre mais fracos da sociedade portuguesa, as virtudes de uma "vida modesta":

"(...) O segundo [discurso do governo] é corporizado por alguns ministros da parte "popular" da coligação mas também por alguns sectores ditos "liberais" do PSD. É, simultaneamente, o elogio e o castigo da pobreza como ideologia nacional. O elogio do empobrecimento de uma classe média que se habituou a ter carro e férias lá fora, que se sentiu com esse direito, mas que afinal não o tinha. O regresso à vida "modesta" parece ser a única ideia que têm para equilibrar as contas públicas e aumentar a competitividade. No fundo, é o único argumento que podem apresentar para justificar o peso brutal dos impostos sobre a classe média e a deflação salarial a que passou a estar sujeita, mais a redução de algumas garantias sociais que servem para cortar as despesas do Estado, o que está certo, mas que são apresentadas como combate às mordomias e aos excessos. É aqui que entra o castigo da pobreza. Esta ideologia redentora das virtualidades do empobrecimento é a mesma que faz dela um pecado individual que é necessário punir. A sua expressão mais revoltante é, por exemplo, o vezo com que se quer castigar os detentores do RSI - obrigados a trabalhar "voluntariamente", não porque o trabalho seja a forma de saírem da dependência mas porque é o castigo que merecem. E nem sequer me vou dar ao trabalho de fazer a ressalva de bom-tom: que há sempre abusos e que é preciso combatê-los. Abusos? Que abusos quando o país fica a saber que o Ministério Público está a investigar suspeitas de práticas de inside trading nas duas grandes privatizações que foram o emblema do Governo? Esta perseguição aos mais pobres e esta "responsabilização" dos excessos da classe média (desde que não seja eu...) tem também a sua versão "liberal" na caça às facturas dos cabeleireiros e dos electricistas, apresentados como gente que não perde uma ocasião para defraudar o Estado, mas cuja maior diferença é não terem acesso a um poderoso escritório de advogados para lhes permitir contornar da melhor forma (absolutamente legal) os impostos. Demagogia? Seria, se não estivéssemos perante uma realidade em que o rigor e a moralização dos costumes apenas se aplicam a uma parte, por sinal a mais fraca.
Falta a terceira componente desta mistura perigosa: justamente o discurso liberal de Pedro Passos Coelho. Também ele se evaporou contra uma realidade que é mais complexa do que a ideologia, contra as coisas que estão a correr mal e contra a incapacidade de alguns dos seus ministros mais liberais vindos das melhores escolas anglo-saxónicas. Perdeu o rumo ou a compostura, como se quiser, quando reagiu a quente à decisão do TC sobre os subsídios da função pública, não hesitando em lançar a pior das ameaças: se não querem perder os subsídios, então vamos cortar na saúde e na educação. E por que não nas PPP ou nas rendas vergonhosas de alguns sectores da economia? (...)».

** Há uma versão com, apesar de tudo, bastantes mais charme de Amália; mas como vivo de mal com a canção, quem quiser terá de a pesquisar no youtube.