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O Pedro no facebook


- Olá querida, 'tá boa? Com'é que vai ? Já leu o Pedro?
- Olá menina, 'tá tudo bem, tudo bem. E você, 'tá boa?...Pedro? Qual Pedro?
- O Pedrocas, o nosso primeiro-ministro!
- Hum..Pedrocas?
- Sim, o Pedro. Não viu? Ontem foi à televisão. Eu adoro, adoro vê-lo. Mas ainda adoro mais lê-lo.
- A menina está numa excita! Mas onde é que o leu?
- No facebook.
- Ah...só o vi na televisão. Parece que vai cortar ainda mais salários. Um aborrecimento... para os pobres, 'tá claro.
- Mas ele tem razão! Coitado. Não pode fazer mais nada. Tem de cortar nos pobres, eles merecem....
- Merecem?
- Armaram-se em ricos durante imenso tempo. Coitados, queriam ser como nós, 'tá a ver? Ora isso não pode ser.
- Pois, suponho c'a menina tenha razão.
- Pois claro que tenho. Ele tem de os pôr no lugar deles.
- Ah...e também vai baixar o salário dele? E o daqueles outros senhores administradores dos 18 institutos públicos que podem ganhar mais do que ele?
- A sério? Ganham mais do que ele? Dezoito institutos? Não me diga! Mas isso não tinha sido proibido?  Enfim, não sei se vai cortar nesses...mas acho que não...ele não vai cortar só nos pobres? Quer dizer, nos pobres e nos remediados...hoje em dia é quase a mesma coisa.
- Pois é..e agora parece que ainda vai ser mais assim...
- Oh querida, que coisa, lá está a menina com esses seus tiques de esquerda.
- Dá-me pena, você sabe...
- Sim, sim, já sei, os pobres são simpáticos...e agora vai haver cada vez mais simpáticos para a menina gostar.
- A menina é má!
- Oh querida, claro que não sou má. Estou a brincar, não vê? Enfim, isso agora não interessa nada...ele agradeceu...
- Agradeceu?! Não ouvi nada...
- Pois, essa mania de não querer estar o facebook...era o qu'eu lhe 'tava a dizer. 'Tá a ver o c'a menina perde?
-  Agradeceu no facebook?
-  Sim, sim, escreveu "obrigado" e assinou "Pedro". Não é fofinho?
-  Um fofinho, de facto. E agradeceu a quem?
- Aos amigos.
- Aos amigos?
- Ele começou mesmo assim," amigos vírgula". Suponho que se dirigisse a eles, a menina não acha?
- Acho. Que horror! Não me diga que tem amigos pobres.
- Pois, visto desse ponto de vista é estranho... mas foi isso que ele escreveu...terá sido engano?
- Bom, deixe lá isso. E porquê que ele agradeceu aos amigos?
- Diz que fez um discurso dos mais ingratos que um primeiro-ministro poderia fazer aos portugueses.
- Lá isso também me pareceu que foi um bocado ingrato da parte dele: depois de todos os sacrifícios que os portugueses já fizeram, ainda vir com mais estes agora...mas o que é que os amigos têm a ver com isso?
- Enfim, teve de se justificar por causa dos cortes salariais...
- Aos amigos?
- Não, aos portugueses...
- Então porquê que se dirigiu aos amigos?...
- Não sei... ai, que coisa, a menina baralha-me! Olhe nem quero saber.. acha que eu percebo alguma coisa de política? Claro que não. Isso é coisa de pobre. Estava só a fazer conversa.

Portugal insensato


A reportagem desta manhã na Antena 1 procurava demonstrar a seguinte tese: os portugueses que ainda vão para o Algarve procuram as estradas secundárias, evitando as antigas SCUTS uma vez que agora têm portagens.

Uma coisa que aprendi na minha vida foi a não julgar as prioridades alheias. Cada pessoa tem as suas, e não têm de coincidir, sob pena do mundo tombar. Para mim, o adágio de que "os gostos não se discutem, mas educam-se" tem aplicação exclusiva àqueles a quem nos calha educar e, para os outros, é de usar apenas o "vive e deixa viver".

Hoje, porém, nem queria acreditar. As respostas às perguntas do repórter de verão daquele canal de rádio eram a de que a opção se justificava por mais barata, apesar de implicar cerca de mais uma hora de caminho. Ah, e poupa quanto? Cerca de € 20... que sempre dão para uns pequenos almoços e uns lanches, ou para um cozido à portuguesa em Canal Caveira, acrescentavam. E riam-se.

Por acaso, fiz bem poucas vezes a viagem Lisboa-Algarve, mas a recordação que tenho das estradas secundárias que levam àquela região é de uma absurda insegurança, de um trânsito medonho, e de um urbanismo arrepiante, revelador de parte das entranhas de Portugal que mais haveríamos de querer esquecer, na impossibilidade de fazer implodir.

A tudo isto aquelas pessoas se manifestavam absolutamente indiferentes. Segurança, para o que aliás no final da reportagem a polícia veio alertar, foi assunto que nem lhes passou pela mente - e muitas delas teriam os filhos no banco detrás; a irritação que o excesso de trânsito provoca, também não as tocava; a indigência estética da paisagem, é evidente que nem lhes ocorreu, (mas essa é aquela parte das prioridades que, não colocando ninguém em risco, não discuto de todo).

Desde que com a barriguinha cheia de pequenos-almoços e lanches comprados nos snack-bares de beira da estrada (que isto de levar sanduiches e sumos de casa dá trabalho), ou o cozidinho assegurado, no eternamente insensato Portugal "está-se bem".

Um estatuto digno para o doente crónico


Curto e grosso. Uma amiga minha sofre de esclerose múltipla. Pese embora seja uma pessoa absolutamente apta a trabalhar - aliás, presta ainda um excelente serviço voluntário numa associação -, enquanto funcionária pública estabeleciam-lhe objectivos anuais que ignoravam olimpicamente o facto de ser uma doente crónica, sendo que não havia, nem há ainda, regime legal que pudesse invocar para lhos reduzirem, mantendo ela o seu posto de trabalho, como seria digno e justo.

Ironicamente, apesar de ainda muito válida para o país que a formou com estudos superiores, viu-se obrigada a pedir reforma antecipada por invalidez, com pouco mais de quarenta anos.

Extracto das motivações de um pedido de audiência dirigido ao Ministro da Saúde, datado de 11 de Julho, por um grupo de pessoas que querem ver aprovado o Estatuto Jurídico para o Doente Crónico (EDC) o mais depressa possível:

        «(...) - Este tipo de doenças, quando não devidamente tratadas e acompanhadas, podem ser incapacitantes.
         - A grande maioria dos doentes crónicos quer trabalhar, mas para isso é necessário fazer ajustes, nomeadamente nos objetivos a cumprir.
         -   Uma doença crónica obriga em muitos casos, a ter várias baixas ao longo do ano. Injustamente, são descontados os dias que faltam, como se se tratasse de uma doença normal. além disto é exigido o mesmo ritmo de trabalho, mesmo durante as crises que o doente tem ao longo do ano.
         - O Estado terá menos despesas se criar condições para os doentes crónicos. Por exemplo: com alguma isenção de horário, o doente evita ficar de baixa o dia todo, e assim adiar a reforma antecipada por invalidez. Poderia haver a possibilidade de uma baixa parcial, isto é o doente pode ficar de baixa uma tarde ou uma manhã, sem ter de ficar o dia inteiro.
          -Um doente com cansaço crónico (esclerose múltipla, fibromialgia...) poderia ter um horário reduzido ou uma isenção temporária do seu local de trabalho para descansar. Sairia mais barato ao estado esta pequena alteração, do que o doente ficar de baixa ou pedir a reforma antecipada por invalidez.
          - Atualmemente, um doente com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) tem uma esperança de vida de três anos. É justo/digno obrigar este doente a trabalhar até morrer?

           - A legislação existente em Portugal não define com clareza e rigor técnico científico o que é uma doença crónica, sendo suportada em documentos oficiais dispersos e muito incompletos.
            - Em Portugal, estima-se  que milhares de pessoas sofrem de doença crónica. Um doente crónico debate-se com vários problemas burocráticos causados pela falta de diplomas atentos à suas dificuldades que passam por problemas físicos, emocionais e psicológicos, familiares e ainda profissionais e educacionais. (...)
            - Alguns destes doentes lamentam-se dizendo que a doença crónica pode ser deveras incapacitante, pode acontecer a qualquer um de nós em qualquer idade e quando menos se espera. Dentro do universo das doenças crónicas cabem todas as doenças para as quais já não existe retorno. E por muito saudáveis que ainda sejamos, todos nós somos potenciais doentes crónicos. Lembramos que cabe ao Estado a competência para criar condições para que um doente crónico mantenha a sua dignidade e qualidade de via.
            - Com a criação do EDC, pretendemos definir o que é um doente crónico e quais são as doenças crónicas. E assim serem reconhecidas as incapacidades em função da doença e não da TNI [Tabela Nacional de Incapacidades] ("tabela das seguradoras") (...)».

Igualde entre os sexos: só a indiferença é sinónimo de deferência


REUTERS/Pascal Rossignol

Jean-Marc Ayrault, em França, conseguiu a paridade no governo recentemente formado, tal como prometido eleitoralmente por François Hollande. Como fez? Contou 17 homens para um lado, 17 mulheres para outro e chamou-lhe um governo paritário.

Como sou mulher, defendo a igualdade entre sexos e sou absolutamente contra a discriminação feminina, estou à vontade para dizer que acho que Hollande e Ayrault  sabem fazer contas, são politicamente correctos, mas assumiram uma inaceitável atitude paternalista e portanto perversa no que concerne à igualdade no respeito por homens e mulheres.

O que aquela contabilidade me diz é que Hollande/Ayrault não procuraram um governo competente na mais respeitosa indiferença pelo sexo dos ministros, mas um governo apenas paritário. E isso não é necessariamente uma boa opção por muitos aplausos que suscite. Nem má, aceite-se, mas é suspeita: quem é que me garante que não se preferiu em alguns casos prejudicar a competência de um ou outro ministério, em benefício da paridade formal do governo? Não haveria dois homens mais aptos para os cargos que foram ocupados por duas mulheres, ou duas mulheres que fizessem um melhor lugar que dois dos homens escolhidos?

É claro que sei que isto faz parte de uma estratégia dos países democráticos para darem o exemplo de promoção das mulheres na sociedade. Mas será que esta paridade extremada não é tão plástica e ridícula como seria ter escolhido 17 ministros adeptos do Paris Saint-Germain e 17 do Monpellier Hérault?

Um governo não é propriamente um corpo de dança de tango ou valsa. Não precisa de parelhas.Os ministros de qualquer dos sexos distinguem-se pela personalidade, capacidade de trabalho, inteligência e aptidão para aos cargos que vão exercer. Ter evitado este exagero na procura da igualdade formal (sobretudo quando a material está prejudicada, porque as pastas mais importantes foram entregues a homens) seria obstar a que fosse sub-liminarmente lançado sobre as mulheres membros do governo - ou pelo menos sobre algumas delas - o opróbrio de exercerem um cargo para que um qualquer homem seria mais apto.

A indiferença pela absoluta paridade teria revelado bem mais deferência pela inteligência feminina e pelo seu actual estatuto nas sociedades ocidentais que esta paridade manifestamente esforçada.

Fazer do desemprego uma oportunidade para se ser empreendedor


Chove intensamente. A aldeia está isolada porque há semanas que não pára de chover, não se antevendo que a chuva cesse tão depressa. Os aldeões, ensinados e incentivados durante gerações a construírem as suas casas exclusivamente de barro cru, assistem impotentes à sua transformação em lama, que agora escorre em cascata pelos carreiros pedregosos do lugar.

O chefe comunitário, que com o seu eterno opositor alterna no poder há mais de trinta anos, manda reunir o povo na montanha, na caverna usada nessa emergência para reuniões deliberativas. Todos acorrem, na expectativa de uma solução para a grave crise habitacional da aldeia. Sente-se o vapor desesperado da transpiração húmida dos corpos ansiosos.

O Grande Chefe sobe ao pequeno palanque e dirige-se-lhes: - Meus amigos, caros conterrâneos, as vossas casas estão destruídas, porque vós as construístes em barro cru. É certo que chove há mais de um mês, e que isso não é culpa vossa, mas construir casas em barro foi obviamente um erro.

E continua: - Estou aqui para vos dizer que temos agora a certeza, garantida pelos mais experientes especialistas em meteorologia, que no decurso de todo este ano e talvez, quem sabe,  do ano que vem, vai continuar a chover a este exacto ritmo. Mas o que vos quero dizer também, é que não vos podeis deixar abater: há que fazer desta desgraça uma oportunidade para mudarem a vossa maneira de pensar, para alterarem a vossa mentalidade tacanha e apostarem na modernidade. Meus amigos, parai de chorar pelos cantos, e construí casas de cimento.

Um grande silêncio. O atrevidote da aldeia olha em volta. Ninguém os ensinou a construir casas em cimento. Aliás, nem sabem  o que é cimento.

- Chefe, diz timidamente, com a vossa licença, o que é cimento?

- Ah, meu caro amigo,  não sabeis o que é cimento! Esse é o problema: ninguém sabe aqui o que é  cimento, nunca ninguém soube o que era cimento, daí na aldeia não haver cimento. E é precisamente por isso que estamos como estamos. Pois fiquem todos a saber, que o cimento é um material durável, que serve para construir casas de modo a que não se desfaçam com a chuva. Portanto, meus amigos, agora que já sabem o que é cimento, tratem de construir as vossas casas em cimento, e depressa porque, como já disse, vai chover ainda durante um ano, pelo menos. Repito: transformem esta desgraça numa oportunidade.

[With a little help from  Pedro Passos Coelho ]   

Não há melhor educadora do que a mãe?


1. Não me preocupa particularmente o que diz o Cardeal Manuel Monteiro de Castro, que não é da minha Igreja (aliás, nem tenho Igreja, nem partido, o que me tem poupado alguns dissabores).
2. Em minha opinião, eu teria educado bastante bem o meu filho, se tivesse optado por ficar em casa a educá-lo, é um facto. Grata pelo voto de confiança.
3. O Senhor Cardeal não pode, contudo, dizer que isso teria sido o melhor para o meu filho - e consequentemente para a sociedade - porque não me conhece: posso ser uma pessoa sem princípios ou valores, o que faria de mim uma péssima educadora.
4. Acresce que não pode ter a certeza que eu preferisse ter ficado em casa mesmo que me fosse pago um salário, porque trabalhar, por sorte, é para mim também uma opção de vida que, não tenho dúvidas, muito valoriza a minha contribuição para a sua educação.
5. Também não percebo por que razão há-de desconsiderar o pai do meu filho. Por acaso, até tenho  ideia de que o poderia ter criado bastante bem, se tivesse sido essa a sua escolha.
6. Do mesmo passo, não vejo como saberá que o meu filho teria preferido ser educado apenas por mim, e não por um número diversificado de pessoas, como sejam, para além de mim, o pai - porque os pais agora também se empenham, Senhor Cardeal - avós e escolas/colégios. Acabei, aliás, de lhe colocar a questão: "- Claro que preferia ter sido educado por todos, como fui!".

Da aritmética dos medicamentos


Vou passar a usar a expressão "síndrome omeprazol" para situações absolutamente inacreditáveis que se passavam em Portugal na era a.t. (antes da troika).

O omeprazol é o princípio activo de um medicamento muito receitado, que se destina a diminuir da quantidade de ácido produzido pelo estômago.

Na era a.t., o Estado português achava normal comparticipar um medicamento genérico com aquele princípio activo, que custaria € 24, por caixa de 28 comprimidos (Abril de 2010, lido aqui). Nessa altura, como se pode ler no mesmo local, já em Espanha o preço de um medicamento genérico com o mesmo princípio activo e número de comprimidos seria de € 3,5 (cerca de sete vezes menos, portanto). A fonte não será do mais fidedigno, mas também não vejo grandes razões para duvidar.

De qualquer modo, aqui o jornal Público anunciava que o mesmo medicamento passaria, em 1 de Julho de 2011, de 14,66 euros para 5,93 euro (isto é, menos 60%).

Agora, o mesmo diário ( aqui ) revela que mesmo já tendo atingido valores mais próximos dos espanhóis (aleluia!), ainda assim, custa o dobro em Portugal, o que faz os portugueses acorrerem a Espanha comprar aquele, entre outros fármacos.

Parece que, finalmente, todos nós, particulares e Estado (sobretudo), aprendemos a fazer contas. 

Brincar sem morder o dono


Não me recordava mas, dizia Pedro Lomba antes de ontem no Público, que começa a ser um clássico: de vez em quando lá vem um politico dizer que Portugal usa e abusa das lamúrias (versão de Jorge Sampaio) ou da pieguice (versão de Passos Coelho).

A ser verdade (o que aliás nem me parece, mas concedo) entenda-mo-nos, se o povo tem os políticos que merece, os políticos têm o povo que merecem.

O que me pergunto é se a auto-piedade é o defeito verdadeiramente relevante dos portugueses nos tempos que correm. A lamúria é  geralmente  provocada por uma circunstância externa susceptível de desaparecer, ainda que em velocidade de cruzeiro se auto-alimente.

Não será, ao invés, a nossa eterna autocomplacência que urge combater? Pode ler-se num dos significados de complacência - o pejorativo - adiantado pelo reverenciável Houaiss, que esta é a atitude que "denuncia demasiada condescendência, indulgência ou deferência com algo ou alguém".

A autocomplacência de um país é uma idiossincrasia perigosa porquanto opera em ciclo vicioso. Criticando tudo, com ou sem razão, estamos logo também na primeira linha a perdoar, esperando em troca um tratamento tão ou mais benevolente para com as nossas próprias falhas (mesmo que infinitamente menores em extensão e consequências para o interesse público).

Enquanto vivermos no pânico de nos confrontarmos primeiro, e lutarmos depois, contra o pequeno grau de exigência que usamos para connosco próprios, nenhum governante receará dizer seja o que for em desabono do povo que o elegeu, por saber que de volta terá apenas dentadinhas de cachorro, que brinca sem magoar o dono.

Em suma, digam os sucessivos primeiros-ministros e presidentes da República o que quiserem, é a zona de conforto da autocomplacência que Portugal deve abandonar, se quiser escapar com êxito à escalada da inércia contra a mediocridade, incompetência, clientelismo e corrupção.

Emigrar é um direito, não um dever


Se os professores "excedentários" ou quaisquer outros profissionais portugueses se virem, face à actual conjuntura, na contingência de emigrar, esse é um direito que lhes assiste. Há que lamentar, desejar-lhes boa sorte e esperar que rapidamente as condições de vida em Portugal melhorem, para que regressem depressa.

Mas, entenda-mo-nos: emigrar é um direito dos cidadãos, não um dever.

Pedro Passos Coelho não pode  aconselhar os seus concidadãos a emigrarem, como o fez hoje, pela simples razão de que a última coisa que um Primeiro-Ministro de qualquer país pode desejar - e muito menos exprimir - é que os  nacionais do país do qual recebeu um mandato para governar, e a quem tem o dever de proporcionar as melhores condições de vida possíveis, saiam ou vejam sair os seus filhos, por aí não poderem viver com dignidade.

Como não é a primeira vez que é dita coisa idêntica por um membro do Governo, há alguma forma de ler este "conselho" que não seja a de se querer transformar, habilmente, o direito de emigrar num dever de emigrar? Era o que nos faltava, de facto.

A mala-pata de Portugal, hoje como sempre, não são as crises, mas a absoluta falta de senso, maturidade e ética dos nossos políticos. É tão triste.

Na sua linda casa, com um automóvel magnífico e servido por criados atenciosos






Primeiro e último nome, por favor


Esta manhã, passava os olhos pelo "Público" de ontem e deparei com o anúncio de dois concursos para atribuição de mediação de jogos sociais do Estado, vulgo, totobola, totomilhões e outros totos que nem sei enumerar. Gargalhei com gosto.

Anunciava-se, portanto, a abertura dos concursos e, de seguida, elencava-se os membros do júri. Desinteressante? Absolutamente. O que me chamou a atenção foi que, aos licenciados, antes da graça de cada um, foi colocado o título de Dr. ou Dr.ª, e aos restantes, o de Sr. ou Sr.ª.... Neste último caso, nem sequer, Sr.ª D....., Sr.ª apenas, que o que interessa é  marcar bem a diferença, em provincianas vénias aos Senhores Drs.

Lembrou-me isto o quanto me irrita também, ligar para um serviço público solicitando uma informação, pedir o nome do funcionário com quem falei, e responderem: Liliana, Marta ou João. E eu, "desculpe, Marta quê?", e de lá, "nada, basta Marta, só cá há uma". Como se os serviços públicos fossem jardins de infância e os utentes tivessem entre três e cinco anos de idade.

Não pretendendo ressuscitar o "tema Álvaro",  não entendo por que não somos chamados  pelos nossos primeiro e último nome, e insistimos, ou numa pretensa meritocracia de títulos, ferrugenta, formal, patética e provinciana, ou numa "demeritrocracia" do cidadão indiferenciado, desenraízada e aviltante.

Hum...elucidativo


Descrição de um elucidário de direito, que integra o catálogo recentíssimo de uma editora de publicações jurídicas:

"A obra incide sobre um conjunto de temas recorrentes de direito civil e processual civil, uns que foram apresentados no processo de progressão na carreira, outros preparados exclusivamente como mero exercício ou tratamento teórico do assunto, e, outros mais, desenvolvidos como premissa maior do silogismo judiciário exercitado no âmbito de decisões proferidas em variados processos em juízo."

Ninguém assaltou a caixinha dos direitos sociais!


Começa a cansar, a forma como o Governo português anuncia as medidas de austeridade (e os comentadores as comentam, aliás) como se cada português fosse um menino mal-educado, que se portou mal e que agora tem de ser admoestado e castigado. Mesmo quando dizem expressamente que não é para penalizar, como aconteceu hoje relativamente à Madeira, o Primeiro-Ministro e os seus ministros adoptam sempre o ar de "isto não é um castigo, mas é para o menino aprender que estas coisas não se fazem...se não formos nós a ensinar, quem ensina?".

Talvez seja tempo de o Governo perceber que se não é exigível - e nem sequer desejável - que chore connosco os sacrifícios que nos impõe, como fez a ministra italiana, justifica-se um mínimo de respeito por cada um dos portugueses que não tem individualmente culpa do estado a que o país chegou, e que não assaltou a caixinha dos direitos sociais de cada um dos governos do 25 de Abril até aos dias de hoje.

Também nenhum português individualmente é culpado da nossa falta de competitividade, do nosso baixo grau de escolaridade, de não sermos melhores do que outros povos. Podemos colectivamente ser responsáveis pelos maus governos que escolhemos, mas desafortunadamente sempre foram medíocres as opções que se nos ofereciam e, até à data, nada prova que a actual seja melhor. É fácil impor medidas duras de austeridade, chamar-lhes reformas e escudar-se com a Troika, a um povo que se sente culpado sem saber bem do quê.

Senhor Primeiro-Ministro, Senhor Ministro das Finanças, Senhor Ministro da Saúde, não precisamos de manifestações de solidariedade exacerbadas e despropositadas, que a reconhecida resiliência nacional ultrapassará tudo o que venha por aí sem pancadinhas nas costas, mas por amor de quem sois, também não é necessário anunciar cada medida como se muito se congratulassem com a sua imposição.

Do desencanto com a FNAC


Ontem estive na FNAC. Sempre preferi a Feira do Livro à FNAC, porque para além de ter os mesmo 10% de desconto, pelo menos é ao ar livre, quando lá vamos é sinal de que os longos invernos estão a terminar e, sobretudo, porque nos podemos deleitar na procura de livros de fim de stock, de fundo de loja, com as letras meio tortas, geradas ainda numa qualquer gráfica da era industrial.

Não vou negar que o peso de alguns anos que já tenho, influencia. A natureza humana é assim, e a  verdade é que comecei a ir à Feira do Livros com seis anos, quando ainda era  montada na Avenida da Liberdade. Nessa altura passeava-se por lá, comendo o negro fumo dos automóveis, não farturas ou gelados, e ouvindo as buzinas guerreiras dos Fiats 127, dos Datsun, dos Citröen boca de sapo, dos Renault 5, avenida a cima, avenida abaixo, como se tudo aquilo fosse normal. E era.

Apesar da preferência pela Feira do Livro, é óbvio que a chegada a Portugal da FNAC, me encheu de júbilo. A Feira do Livro tem uma duração limitadíssima no tempo e não tinha, decididamente, o glamour de uma ansiada marca estrangeira que apostava em Portugal, onde os índices de leitura fariam qualquer um recear instalar-se sequer em Lisboa, quanto mais noutra cidade do país, como acabou por acontecer.

E facto era, a FNAC - ao invés das restantes livrarias do Chiado - tinha livros, muitos, novos, expostos de forma arejada, apelativa e brilhante e um conceito de "os livros são para ser apreciados, sente-se e desfolhe-os à sua vontade", que era obviamente comercial, mas tinha a vantagem de não parecer. E quem não se quisesse perder no fausto da sua exposição, sempre poderia recorrer às prateleiras mais esconsas, e encontrar exemplares surpreendentes, os quais podiam ali permanecer por meses esquecidos, sem que isso preocupasse os seus proprietários.

Ontem, quando por lá passei - para além da nota lúgrebe de ver bem menos gente a comprar, e bastante menos coisas, o que de mal não tem o facto em si que um pouco de contenção faz bem, mas o que indicia - não pude deixar de registar o desconforto que cada vez mais a FNAC me provoca. Os livros, e até os cd's, deixaram definitiva e despudoradamente de ser o seu core business. Assume-se como um supermercado de tecnologia que também vende livros e discos como quem vende detergentes. Ponto final.

A FNAC fez-me sentir alguém do século passado, quando afinal só passaram onze anos sobre o início deste. É bom que me comece a habituar a esta sensação experimentada por todos os nossos antepassados e até a retirar algum prazer dela. Reconheço inúmeras vantagens nos avanços tecnológicos, mas não me parece que o facto de aderir cegamente às imposições do main stream me façam sequer um dia mais nova do que aquilo que sou. E mesmo que tivesse esse poder, há certos diabos a que não me apetece vender a alma.

Desenganos

Leio no "Jornal de Negócios" de ontem : a troika, em Setembro, antecipou uma queda do PIB muito mais acentuada em 2011 do que em 2012; o Banco de Portugal ao invés, já em Outubro, previu uma queda mais acentuada do PIB em 2012 do que em 2011.

Confesso que não pude deixar de sorrir com os motivos pelos quais a troika se enganou: "porque tinham a convicção de que a procura interna iria travar a fundo com o anúncio da ajuda internacional".

As troikas do mundo, esse clubes de selectos técnicos dos números, deviam aparecer nos países a intervencionar munidos de sociólogos/psicólogos, para falharem um pouco menos as suas previsões. Se o fizessem, provavelmente, perceberiam que ter aquela convicção relativamente ao povo português é uma absurdo risível.

Os portugueses padecem de três características que são boas ou más, dependendo apenas da perspectiva pelas quais as olhamos, mas que prejudicam previsões de quem, arrogante ou inocentemente, as não tem em conta.

A primeira: os portugueses são tão ingénuos ou ignorantes que não sabiam o que implicava uma ajuda internacional (a última intervenção do FMI já lá vai e nem foi especialmente dura para um país sentado ainda numa lógica de pensamento salazarista). Para o português médio, quando foi anunciada, ajuda internacional significava alguém que, bondosamente, vinha dar a mão a outro alguém. Contrapartidas? Ah, pois, logo se vê -como dizia M. Soares há uns anos, o dinheiro há-de aparecer.

É neste momento que entra a segunda característica portuguesa que espantaria qualquer povo menos conformado: uma confiança ilimitada e quase bovina nos governantes (e já agora, nos banqueiros, graças aos deuses neste caso, porque então seria bonito), só porque são governantes. A lógica é que por muito maus que já tenham provado ser, sempre são as elites do país e, portanto, hão-de proteger-nos.

Curiosamente, mesmo quando os tais governantes medíocres decidem explicar a verdade, alertar para as consequências até porque não têm outra hipótese, entra a terceira característica espantosa dos portugueses, a saber, uma inigualável falta de imaginação relativamente às reais consequências do que significa aquilo que o senhor governante está a dizer na televisão. Isto é, uma incapacidade total de colar palavras actuais a uma realidade futura.

O que acabo de dizer também não previ, bem entendido, que é sempre fácil dizer, olha o morto está morto porque... (e se o digo mesmo agora, é porque tenho o gene do português médio para aquelas características, como é óbvio). Mas, enfim, também não sou paga para isso.

Uma coisa é certa, as palavras de Passos Coelho na quinta-feira à noite tiveram o condão de finalmente conectar os portugueses com a realidade, e a nossa realidade é qualquer coisa próxima já da morte cerebral.

Há, portanto, o direito à indignação sim, contra todos os que nos enganaram e que, se não são responsáveis por sermos todos ingénuos, alienados, crédulos e falhos de imaginação, deviam ser certamente responsabilizados por nos terem mentido anos a fio (e, meus senhores, estou a falar de todo o espectro político português, governantes, partidos de todas as sucessivas oposições e sindicatos incluídos), ao ponto de estarmos agora a ouvir dizer, perplexos, que o Estado é credor do sangue, suor e lágrimas do trabalho e, mais grave ainda, do próprio emprego de portugueses que não sonhavam sequer ter tal dívida.

Esta semana, se bem entendi...

Os últimos dislates de A.J. Jardim obrigaram-me a calçar umas socas alemãs. Agora sei exactamente o quanto eles desesperam com o espírito «o dinheiro há-de aparecer», próprio dos povos do sul da Europa.

***
Uma farmacêutica lamentava-se ontem, na rádio, do estado de insolvência de muitas farmácias. Atribuía o facto também à redução do preço dos medicamentos, dando o exemplo de que no último ano (dou alguma margem, porque até creio que era num período menor) o preço de um dos medicamentos mais vendidos em Portugal (o Omeprazol) fora reduzido em 1000%. 1000%? Arrepiei-me: se as farmácias não estão agora a praticar vendas com prejuízo - o que duvido- viviam antes com margens de lucro manifestamente absurdas (conheço os argumentos, mas poupem-me, as altas qualificações dos profissionais justificavam isto?). Por outras palavras, devemos lamentar as farmácias agora, ou os consumidores retroactivamente?

***
A minha gestora de conta queixava-se dos incumprimentos nos créditos. Ah, pois, comentei, e lembrando-me das lojas fechadas de fresco pelas quais tinha passado à ida para o Banco, entrei distraída na estafada questão do crédito mal-parado.
- Não! Não está a perceber, não é crédito mal-parado. São clientes com prestações em atraso, apenas porque pediram aos patrões para suspenderem a transferência de salário para a sua conta. Receberam-no em «cash» para irem de férias, e dizem-mo na cara.

***
O médico olhou-me por cima dos óculos: - Huuum, pois, convém operar de novo. Suspirei. Nada de novo, já esperava. Orçamento, por favor, pedi. Ele: - No meu hospital (público), o Estado paga € 1 300 por cada operação destas que eu faça a um utente do serviço público. Já viu? Com duas destas, tinha o meu mês ganho.
Deu-me um orçamento de 1/3 daquele valor.

***
Parece uma evidência que já nem vale a pena tentar escamotear: até Dezembro, a Grécia seguida de Portugal correm contra o tempo, e o tempo ganhará. Mas qual será, então, o país europeu que ficará de pé para entregar a medalha de ouro ao triunfante tempo?

Hospitais: acordos para que vos quero

A minha amiga A. pegou no telefone para marcar um exame de diagnóstico no Hospital CUF Belém, porque sabia que tinha acordo com a ADSE.
Pergunta imediata de uma voz simpática: -Qual é o seu sistema de saúde, ou seguro?
- ADSE.
- Lamento. Não estamos a efectuar marcações, mas pode inscrever-se numa lista de espera para um contacto futuro que lhe faremos daqui a sete meses para marcação - informou a voz simpática.
A A. engoliu em seco. Sete meses com aquela dor no braço com causas por diagnosticar, acrescido de mais não se sabia quanto tempo? Enfim, logo se veria. Inscreveu-se na tal lista.
Comentando com um amigo comum, ele asseverou-lhe que estavam com certeza a fazer aquilo que a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) havia expressamente proibido, por exemplo, ao Hospital dos Lusíadas, por deliberação do seu Conselho Directivo, de 17 de Setembro de 2009, proferida no âmbito do Processo de Inquérito nº ERS/016/09: descriminar os doentes beneficiários da ADSE, estabelecendo diferentes tempos de espera entre eles e quem se apresentasse como «particular».
Não acreditou.
-Não? Que exame tens de fazer? - e pega no telefone, acto contínuo.
A mera resposta "particular", à pergunta inicial, gerou um largo sorriso de boas vindas: sim, sim, claro, exame já para daí a oito dias naquele mesmo hospital, ah... e se tivesse muita urgência poderia conseguir marcação para qualquer outro hospital da mesma cadeia, ainda com maior brevidade.
Um fax indignado da A. relatando tudo resolveu a questão (que se teria ficado a dever a um mal-entendido, obviamente, disseram-lhe). Em oito dias fez o exame.
À queima-roupa: que tal a ERS proibir simplesmente a perguntinha «qual o sistema de saúde ou seguro a que pertence»? Ou que tal os utentes se recusarem simplesmente a responder a essa pergunta?

Sem título

(Foi qualquer coisa muito próxima disto...)

-E o que faz? - o Senhor Malato, que me entretém as noites de arrumações (só percebi agora e não sei explicar).
- Estou no terceiro ano de arquitectura - de preto, ar «cool», óculos de aros negros, cabelo muito curto.
- Muito bem. E Galileu, sabe quem foi?
- Sei...dizia que a terra era o centro do mundo (assim mesmo, e já era uma conclusão após uma série de disparates que nem consigo atar...).
Pensei que o apresentador ía ter uma apoplexia, seguindo-se todavia uma paciente/trocista explicação sobre quem tinham sido Ptolomeu, Copérnico e Galileu.
Desliguei a atenção.
Quando a voltei a ligar, lá estava ainda o tipo «cool» do terceiro ano de arquitectura.
- E Maluda, sabe quem foi?
- Não, nunca ouvi falar.

London, London I

Fui, no final do mês passado, mostrar um pouquinho de Londres ao querido Têzinho. Uma visita turística, absolutamente sem pretensões que não fosse (quase, quase) a de o levar lá, divertirmo-nos e que ele ganhasse um bocadinho, por pequeno que fosse, de mundo.

Tudo o que um miúdo de doze anos - e se calhar qualquer pessoa - tem direito, na sua primeira vez na cidade, pelo que os registos são poucos e não muito interessantes: Big Ben, Roda do Milénio, pequena viagem de barco no Tamisa, «bus» para turista, um musical (Billy Elliot, enfim, médio) e até o Madame Tussauds. ..

Museu da Ciência (assombroso), Museu de História Natural (colossal, dispensa bem os meus cumprimentos) e os imperdíveis Gabinetes de Guerra, onde Churchill se refugiava para co-estabelecer, com os restantes aliados, a estratégia de combate aos alemães.

Um «bunker», então, ao que se sabe, muito fedorento e irrespirável, tanto mais que ninguém prescindia ali do vício do tabaco e o Senhor Primeiro-Ministro, como bem sabemos, não seria um bom exemplo, nessa matéria. «Bunker», que de bunker em matéria de segurança contra ataques, só teria o facto de ser secreto. Supostamente, encontra-se hoje como no dia em que acabou a guerra (mais arrumadinho, imagino).

Corremos dois pisos da Tate Modern à velocidade «cem-metros-sem-barreiras» (uma das duas únicas concessões - a outra foi a visita à Abadia de Westminster de que, aliás, só o tecto da capela de Henrique VII me deixará uma recordação perene - que negociei para aquela viagem, já que ela era sobretudo para ele, e só porque ainda não existia da última vez que lá estivera, séculos atrás, e morria de curiosidade). Enviesarei, portanto, qualquer resposta que implique pronunciar-me sobre o quanto gostei, ou não, da Galeria ou, sequer, de qualquer quadro.

E por aqui ficam os registos do roteiro londrino com o filhote. Sem muitas histórias, mas que espero que conte na história da sua vida, para o bem e para o mal, que com as más experiências, tal como com as boas, também se aprende.

***
Antes de me ir embora:
1. Inacreditavelmente mau, o Madame Tussauds, ainda que não tanto quanto a excitação das centenas de pessoas que por lá pululavam. Fugimos em «no time» - não sem antes tirarmos duas fotos, ele com o Mourinho, eu com o Wilde, obviamente e apenas, para obtermos as nossas credenciais para a maledicência. Não me lembro quem me terá dito que, para o miúdo, seria giro, pelo que concluo que sonhei.

2. Que se passa com os belos, sempre-verdes e celebrados jardins londrinos que eu, nos tais séculos atrás conheci? Os outros não sei, mas St James Park e e Hyde Park pareciam searas alentejanas em pleno Verão.

De mergulho na escola pública XII

Ainda frequentei, no tempo de M. Caetano, em S. João do Estoril, uma turma de 3ª e 4ª classe em simultâneo, num total de 40 alunas. Era o espírito do mealheiro a ditar as suas regras e nós, pois claro, só pode ser, há uma guerra no ultramar que gasta muito dinheiro e recursos humanos, há uma censura que impede que se diga o que não estão bem, portanto, aprendem os que aprenderem e os que não aprendem logo se vê.

Depois do 25 de Abril, as turmas continuaram imensas. Colectivos de trinta alunos era comum.E quem aprendesse, aprendia, quem não aprendesse, depois se via (rimou de propósito).

E a coisa foi correndo, supostamente em direcção a uma escola mais inclusiva e à «progressiva degradação da qualidade de ensino» - o que é uma expressão notável, porque parece dizer que alguma vez foi boa, o que não é verdade, porque se o tivesse sido, a qualidade intelectual média do país seria muito superior à que sempre foi e é, mas adiante.

Com o 1º Governo Sócrates, a mulher dos lábios finos - nos livros de Enid Blyton havia sempre um preconceito contra as pessoas de lábios finos e eu cresci a lê-los - lembrou-se de dizer que os professores não prestavam. Era verdade. Mas só alguns. Também há ministros que não prestam. É uma fatalidade. Todavia, ela não distinguiu e o povo saiu à rua, sem «a alegria que costumava ter», expressando (agora já podia) que a ministra não prestava.

Neste presta, não presta, caiu a educação na depressão. Quer dizer, os professores, os pais e a opinião pública, que a criançada quer mesmo é fugir por entre os intervalos da chuva, leia-se, que se lhes exija o mínimo possível (mas eles não têm de pensar, por ora).

Acabou por surgir (finalmente!) a questão da redução do número de alunos por turma. Acho que nunca o disse neste blogue, mas antes do movimento ser criado, eu já estava com ele, mesmo que nem tenha aderido, por distracção.

É claro que é uma utopia. E as utopias morrem também e, quantas vezes, por falta de dinheiro. Quanto mais uma assim e numa altura destas. Siga-se, portanto, em frente que se nem no Governo de Guterres, que foi um bodo aos pobres, as turmas passaram para 22 alunos, iriam passar agora?

Acresce que até parece que temos até um rácio alunos/professor melhor que a média da OCDE (disse o Público de ontem) Mas, ponto um, há sempre números para provar tudo e o seu contrário e, ponto dois, que me interessam esses ou quaisquer outros números provando seja o que for? Há alguma dúvida que um professor domina e lecciona melhor uma turma de 15 alunos do que uma de 30?

Não há verba (nem vou usar de demagogias, género, mas há para o TGV do Poceirão), não há verba. Estamos conversados. Mas como é que pode não ser considerada, nem pelo Governo, nem pelo PSD «uma medida central»?

Não se trata de defesa dos professores - que a professora de inglês do meu filho é tão preguiçosa para ver testes de 27 alunos (cancelou o último teste porque com tantos feriados e pontes não era justo para as crianças terem de prestar aquela prova, imagine-se!!) como o havia de ser para 15, mas isso teria de ser visto noutra sede - é, tão só, uma questão de lógica e sensatez.

Entendamo-nos, há que optar: ou queremos uma «escola inclusiva» e as turmas pequenas são uma prioridade ; ou temos (independentemente de querermos) uma «escola exclusiva», de elites, apostando apenas nas crianças cujos pais colmatam, em casa ou com explicações extra, o que elas não aprendem na escola (e em mais uns tantos que vencem mesmo no deserto) e, de facto, a dimensão das turmas é indiferente.