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Zeppelin sobre Londres

 
R101, Britain's Million-Pound Monster, Comes to London (1929).
[Eu podia ver este vídeo pelo menos tantas vezes quantas já vi...e já o vi cerca de dez vezes.] 
 
 

Ninguém tem culpa


Do "abrupto"

Subia a Rua do Carmo com um amigo meu. Procurávamos um local para comer qualquer coisa rápida. "Aqui?" - pergunta-me. "Sim, porque não?" - respondo, meia distraída, parando à frente da enorme loja com ar sofisticado ainda que, como ele  próprio apontou, pouco cosy. "Reparei no outro dia e fiquei curioso; é uma daquelas padarias francesas".

Sorri, não me ocorrendo sobre uma padaria francesa em Portugal, que não fosse coisas prosaicas como "é muito desplante dos franceses quererem vender pão e bolos a quem os tem muito melhor que eles" e "o que estamos nós à espera para ir fazer mais e melhor em Paris?".

Senti que me olhava surpreendido enquanto caminhávamos para a entrada (eu mereço estes olhares, porque às vezes parece que habito outro planeta). " É da cadeia Eric Keiser". E eu, continuando-me a sentir a última parva do universo: "Hum, não sabia...".

De repente, estaquei. A bem sucedida cadeia francesa de pão variado que parece de plástico, e de bolos caros, com coberturas coloridas e envernizadas, resolveu instalar-se, como por essa altura já toda a gente saberia, menos eu, na loja que era da antiga Livraria Portugal. Ali mesmo.

Da Livraria Portugal só ficou a escada para o primeiro andar, lavada e esfregada de toda a sua história, e um espaço que parecia antes tão pequeno para livros quanto agora parece incomensurável para pães e bolos.

Lembrei-me do texto de Pacheco Pereira, e revi-me ali, nos anos 80/90, à procura de livros por algumas vezes (que aliás nem foram tantas assim). Dei comigo a fixar a escada, agora quase asséptica, com um-olhar-longo-que-pode-ter-parecido-quase-triste, enquanto uma das empregadas ajeitava os bolos reluzentes nos tabuleiros, e uma outra limpava o chão nem se percebia já de quê numa loja tão absurdamente impoluta.

Ninguém tem culpa. Mas como eu gostava que tivesse! Se, de boa mente, a pudesse imputar a alguém, este post não terminaria aqui.

O Facebook e a pastora


Não tenho nada de princípio contra o Facebook...a não ser o facto de, para mim, ter em comum com as montras de yogurtes dos supermercados, os múltiplos canais televisivos, o Corte Inglês, o Museu do Louvre (os Uffizi também servem para o efeito) e os vários destinos de viagens, o dom de aumentar os meus níveis de ansiedade: demasiadas coisas para o tempo que posso ou quero dedicar-lhes.

A todos já tentei vários tipos de abordagem, e de todas saio vagamente frustrada, correndo a sete pés, procurando o ansiolítico na carteira (quase, quase).

Muitas vezes, creio que viveria satisfeita com uma única mercearia na esquina do bairro, com apenas um canal televisivo que odiasse telenovelas e futebol - há pouco, via um documentário na RTP 2 e pensava que para o pouco tempo que vejo televisão, aquele canal seria mais do que suficiente - com a família, meia dúzia de bons amigos de carne e osso, e um passeio ao domingo até à fonte, num cenário de aguarela do pique-nique de burguesas de Cesário Verde.

Só em relação aos livros, convivo confortavelmente com a ideia de que não lograrei ler nem uma infinitésima parte deles e com a eterna e improvável promessa de que chegará o dia de cada um. Relativamente a tudo o mais, simplesmente não quero, não posso ou não sei acompanhar o tempo dos tempos em que me calhou viver.

 Em alguma outra vida devo ter sido pastora. Só não sei se foi no passado, se no futuro.

Dos confins dum tempo com tempo


Quando era criança e adolescente (anos'70), no Carnaval estalavam fulminantes e estalinhos, voavam ovos pelos corredores do liceu e as bombinhas de mau cheiro rebentavam em plena aula, em prejuízo da matéria, do professor e nosso, tudo por entre as maiores gargalhadas. Ouvia-se o Hotel Califórnia dos Eagles. Os mais novos brincavam ao mata, aos índios e aos cowboys - as meninas eram sempre os índios porque eram os bonzinhos, e os rapazes os cowboys porque eram os mauzões - ao stop, às escondidas, às lutas, ao berlinde, ao futebol, aos carrinhos de rolamentos, tudo na rua, tudo horas a fio e sem que nos maçassem. 

No mesmo dia, havia dois testes, quando não eram três e "bico calado". Os pais não nos ligavam nenhuma, nem aos nossos estudos, nem se fazíamos os trabalhos de casa ou não, e só discretamente vigiavam as nossas companhias. Limitavam-se a dar-nos educação feita de pimenta na língua a cada palavrão e puxões de orelhas por má nota, advertências para que não aceitássemos chocolates de ninguém e, mais tarde, longas sabatinas sobre os malefícios da droga. Ao reforço positivo chamavam "envaidecer as crianças" e nenhuma lhes ouvia um elogio. Os professores davam o seu melhor a tentar instruir-nos à moda antiga e não a educar-nos, sem complexos de culpa. A nós, competía-nos tentar fugir dos não muito imaginativos castigos, dos estalos certeiros e das notas "injustas".

As férias eram uma fartura de enjoar. Líamos toneladas de patinhas e tintins e vaillants e gasparzinhos, o fantasminha e cebolinhas e luluzinhas e super-homens e capitães américa e mafaldinhas e hulks e corto maltês e homens-aranha tudo por esta ordem sem ordem, desde que viesse empacotado em quadradinhos; gozávamos uns com os outros nem sempre politicamente muito correctos e trocávamos segredos de nada, por tudo e por nada e contávamos histórias mirambolantes que não podiam ser confirmadas, o que dava muito jeito.

Na praia, jogávamos ao prego, apanhávamos perigosos escaldões ao sol do meio-dia, mas ninguém nos deixava era tomar banhos de mar até duas horas após a ingestão do almoço, fosse ele uma feijoada ou uma sanduíche. Contabilizadas essas duas horas ao minuto, e escaldados do sol, podíamos cair de chapão na água gélida. Se acontecia alguma coisa tinha sido uma azar, porque se desvalorizavam completamente os choques térmicos. Íamos ao médico quando estávamos doentes e era preciso estarmos mesmo muito doentes, que as dores de ouvidos eram curadas com óleo a ferver, e as pieiras com Vick Vaporub no peito.

Bebíamos Caprisone e instântaneos de ananás da Royal. O Jolly Jelly, que era "morango, chocolate e baunilha, Jolly Jelly!" foi um sucesso ainda que fugaz - para quem não se lembra, era uma espécie de perna-de pau coberto de pepitas de açúcar coloridas - e as batatas fritas Pála-Pála eram comprovadamente "uma tara de sabor". As Doro "que eu adoro" apresentaram-se à concorrência por essa altura.

Por esses dias, a Olá não era o produto meio sofisticado, meio enfadado que é hoje, mas assumidamente lúdico, que fazia parte das nossas brincadeiras, com gelados rafeiros de " frut'ó chocolate" que lambíamos com gosto, e dávamos a lamber aos amigos, dávamos sim, por entre trocas de cromos do Vickie, o pequeno viking, que nos fora televisivamente apresentado em alemão (aqui) com legendas, pois claro, e a quem surgiam ideias esfregando o minúsculo nariz. O cromo nº 25 era muito difícil de arranjar, e aquele com que normalmente se terminavam as colecções, depois de muito se penar a comprar e trocar cromos repetidos. As tartes da Dancake começaram, então, uma democrática carreira promissora.

Nos Santos, saltávamos fogueiras que tinham pelo menos uma vez e meia nosso tamanho, que aproveitávamos também para assar chouriços, mas pedir para o Santo António começava a parecer mal; comíamos, às escondidas, leite condensado às colheradas, e punhamos açúcar amarelo, branco ou de que cor fosse no pão com manteiga com o assentimento familiar; bebíamos água fresca com xarope de groselha e leite com Tody de morango, se lá em casa houvesse alguma folga financeira. Os chocolates era exclusivamente da Regina e os caramelos espanhóis, para quem tivesse a sorte de ter algumas vez passado a fronteira.

Tomávamos banho uma vez por semana, a menos que fôssemos à praia; nos outros dias era "rabinho, pézinhos, carinha e mãozinhas, dentinhos, xi-xi e cama".

Não foi um tempo nem bom nem mau. Foi apenas o meu tempo. Um tempo com tempo.

[E em tempo:  eu sei que não fui nada original, que outros blogues estão cheio de tretas destas, mas apeteceu-me].

O Pai Natal e a lanterna mágica





[Retirado da descrição do pequeno filme publicado pelo BFI National Archive]

"Made in 1898, G.A. Smith's 'Santa Claus' is a film of considerable technical ambition and accomplishment for its period. It uses pioneering visual effects in its depiction of a visit from St. Nicholas.

A former magic lanternist ( lanterna mágica aqui ) and hypnotist, Smith was one of the first British film-makers to make extensive use of special effects to create fantastical scenes.(...)."

Don't let them take the trains away from you


"People hate anything well made, you know, it gives them a guilty concious".

Sir George Betjeman, in Branch Line (1963).

Numa altura em que se quer acabar com o tráfego em ramais da ferrovia portuguesa, talvez possamos dar uma uma vista de olhos  aqui . Em três partes, cerca de 30 minutos, o charme e a excelência da BBC sobre um assunto tão nostálgico quanto actual.


Entre parêntesis

Eu queria escrever um poema-entre-parêntesis.
Mas nunca vi um poema-entre-parêntesis,
como poderia escrever um poema-entre-parêntesis?

Posso imaginá-lo. Não teria côr,
nem cheiro, nem autor,
não falaria de amor,
nem da vida, nem do mar,
não teria fôlego
ou ânimo...

Diria apenas da dor,
do soluço
por alguém que desaparece
um minuto cósmico antes
da tarde por nós antecipada...

Depois fechar-se-ia o parêntesis
(e o poema).

(Para a minha querida io )

Porque-não-pode-continuar-como-era

«Estive seis dias de cama com febre alta, tão fraco e abalado que o médico da família passava lá por casa todas as noites, para avaliar o progresso da minha doença, aquela não rara enfermidade da infância chamada porque-não-pode-continuar-como-era».

Philip Roth, in «Conspiração contra a América»


Foi com esta descoberta que a infância daquela criança de nove anos acabou verdadeiramente. Assim, de rompante.

Às vezes pergunto-me se poderá haver vidas que, no fundo, são infâncias eternas, nas quais não perpassa esse momento de dolorosa tomada de consciência de que nada poderá jamais ser como era.

É aquele ponto no tempo em que o mundo ganha mais um adulto e perde um infante. Uma inevitabilidade, daquelas muitas de que é feita a vida das pessoas comuns.

Nunca me esquecerei que, quando a minha avó materna morreu, a minha mãe, de lágrimas nos olhos me disse: -Sabes o que me dói mais? Perceber que, com o desaparecimento da minha mãe, a minha infância se foi definitivamente.

Acho que naquele exacto momento soube que, também para mim, era o adeus a um enorme e descontraído pedaço da menina que eu fora até ali. Porque a minha avó morrera e porque a minha mãe dissera aquilo.

Tive muita sorte: já tinha quase quarenta anos.

Vou dar um passeio rápido para pensar um pouco

Estou a ler o livro «Cavalos roubados» que me ofereceu uma querida amiga. Comecei-o literalmente por indiferença (odeio o título, confesso) e prossigo a leitura por deleite. Per Petterson é norueguês, e o livro está pregado com sonantes prémios, e seguro com os habituais dez clips de extractos de boas críticas de uma a duas linhas cada, num dourado /acastanhado.

Como concluía com outra amiga hoje ao almoço, um livro patentear muitos prémios, hoje em dia, não quer dizer nada (para já não falar das críticas - há-as em todos os jornais e revistas para todos os gostos).

Numa entrevista recente (do Carlos Vaz Marques, talvez) a um escritor super galardoado (espanhol? argentino? chileno? - ignoro que esse senhor, não obstante brilhante entrevistador, esquece-se vezes demais que um ouvinte de rádio raramente ouve uma entrevista de fio a pavio...é da natureza da rádio, não há nada a fazer), a grande pergunta foi feita: o que é preciso para ter tantos prémios? Resposta: ter um bom livro não chega, é preciso sobretudo ter o editor certo, o distribuidor certo e o lobby certo. E de novo o entrevistador, desta feita com um sorriso na voz: - Foi o seu caso? Dispara o nosso homem de falar castelhano, com a exacta noção da provocação e manifestamente sem o tal sorriso: - Pois claro!

Ponto assente, portanto, que os prémios valem o que valem (não porque o senhor o tenha dito, mas porque é um facto) e que se gosto do livro é porque gosto, independentemente deles; e gosto hoje, mas amanhã já me pode não dizer nada, que só os clássicos aguentam o balanço dos tempos, sejamos honestos.

***

Sou um bocadinho sublinhadora. Sublinho, às vezes, coisas que anos depois nem sei o que me levou a passar-lhes o lápis por baixo (mas só o facto de me perder a adivinhar as razões já me diverte, confesso).

Ontem à noite sublinhei toscamente: «Agora vou dar um passeio rápido até lá abaixo para pensar um pouco. Volto dentro de uma hora».

Há pouco peguei de novo no livro e dei com o sublinhado, entre outros. Mas fiquei a cismar neste em concreto e, aliás, de todos o mais singelo.

E é porque a razão daquele sublinhado é tão clarinha para mim agora quanto, suponho, não o será dentro de alguns anos, e sobretudo não o seria há vinte e cinco anos atrás quando as férias grandes pareciam não mais terem fim, que me apresso agora a explicar o seu fascínio para minha própria memória futura:

«Vou dar um passeio» - estamos numa Noruega envolta em frio e chuva e alguém anuncia que vai passear.
«Vou dar um passeio rápido (...) volto dentro de uma hora» - um passeio de uma hora, para os meus padrões de stress, não é rápido. Rápido é qualquer coisa que se faz em dez minutos.
«Vou dar um passeio rápido lá abaixo para pensar um pouco» - alguém admite que precisa de ir passear para pensar. Pode conceder-se, e concede-se, com naturalidade, uma hora de passeio para pensar. Não precisa de justificar uma saída com um vou às compras, ao cinema, correr com os auscultadores nos ouvidos...Não! Vai, simplesmente, passear para, também, simplesmente, pensar.

Simples, não é?

O mar existe

Corriam os anos 60, inícios de 70 talvez.
Na aldeia do meu avô, perdida na beira interior, ainda mais interior do que é agora, um bando de raparigas de cerca de 15 a 16 anos que em casa nem televisão tinham, nunca havia visto o mar.

O mar. O mar que para mim estava logo ali, era-lhes desconhecido. Água só conheciam mesmo a da fonte da aldeia, cristalina, que traziam no pote à cabeça para suas casas, por entre gargalhadas igualmente cristalinas, quais Lianores pela verdura.

A minha avó, despachada como era, pegou em três ou quatro delas, primas do marido e respectivas amigas e «fazem favor de vir ver o mar!».
E elas vieram.

Não fui ver o mar com elas. Mas a descrição que a minha avó fez do seu deslumbre ficou-me na «retina do ouvido». Parece que ficaram assim a olhar, só a olhar e depois riram muito, porque não era possível haver tanta água, nem tanta beleza no mundo.

Ontem alguém me enviou um sms: «nesta tua nova era, espero que possas reconhecer as tuas qualidades». Exagerava, claro. Não só porque não são muitas, como porque até reconheço algumas das que tenho. Mas foi um voto bonito e trouxe-me a recordação desta história.

Quantas vezes nos contentamos com a água da fonte trazida no pote a cheirar a barro molhado. Essa água pode ser fresca, límpida e até pura. E pode trazer até, se a deixamos para trás, a nostalgia do tempo em que só a conhecíamos a ela.

Não podemos é perder de vista que o mar profundo, ondulante, imenso e intenso, existe.

A febre dos livros da Anita

No dia em que fiz seis anos estava em casa da minha avó. O meu avô longe, em terra distante e distantes ainda as constantes disputas entre eles.
Eu, com o meu vestido curtinho, acetinado, azul bebé com bolinhas brancas.
Eu, de cabelo curto, como a minha mãe gostava e que eu só achava graça no dia em que o cortava porque ficava igual ao meu irmão.
Eu, no quarto da minha avó, sozinha com a excitação dos seis anos, desse número afinal já respeitoso de permanência no planeta terra.
Eu, no quarto da minha avó com o seu eterno ainda que ligeiro odôr a cânfora. Baixei-me para apanhar qualquer coisa e quando me levantei, dei comigo a meio corpo, reflectida no espelho.
Senti-me tão...eu. Tão simplesmente, e pela primeira vez, eu. Nem bonita, nem feia. Nem feliz , nem triste. Baixei-me de novo só pelo prazer de me levantar e rever aquele momento em que a minha imagem surgia de novo repetida no espelho.
Pois bem, ali estava, senhoras e senhores: Eu!
Uma menina que se sentia nesse momento especial, mas apenas porque ía fazer seis anos, e porque para a festa que os celebraria estavam convidados todos os meninos do bairro da minha avó onde eu passava férias (e passaria ainda durante muitos anos).
No mais, apenas uma menina. Uma menina como todas as outras meninas (engraçado como esse sentimento de pertença ao «mundo do igual aos outros» foi e veio ao longo da vida, umas vezes de bem comigo mesma por causa disso, outras vezes de mal exactamente pelo mesmo facto).
Foi nesse dia, marcado por essa descoberta ínfima e imensa do Eu, que encontrei igualmente aquele que acabou por ser o meu vício de ainda alguns anos. O vício de coleccionar os livros da Anita.
Não me perguntem se não tinha tido livros antes. Claro que tinha. Lembro-me vagamente de um do Nody versão não computorizada que agora entusiasma a criançada e de que aparentemente já ninguém se lembra; um de um Pato amarelo e outro de uma vaquinha malhada.
Mas esses eram, acho, apenas não mais do que brinquedos. O estado deles era o de amarfanhados e semi rasgados e o local onde podiam ser encontrados, algures entre bonecas descabeladas e peças de lego soltas.
Nesse dia dos seis anos, a oferta do livro«Anita no carrossel» marcou, todavia, a diferença.
Teve, então, início a febre de os coleccionar a todos (exercia mesmo chantagem sobre a minha mãe para que mos comprasse assim que saíssem) e de, incessantemente, os ler e reler.
Ainda hoje recordo com uma nitidez impressionante de muitas das imagens deliciosas que vi e revi nos seus pormenores até à exaustão.
Com as suas lombadas amarelas passaram a ser guardados em local distinto e bem destacado relativamente aos restantes brinquedos e livros. Um, dois, três, contava-os mil vezes: no «Anita dona de casa», os pais saiam de casa por um dia e deixavam a Anita e o irmão em casa (o que não se pensaria disso hoje) e os petizes cheios de iniciativa tomavam conta da casa - nunca esquecerei a pinta de graxa com que o irmão Pedro ficou no nariz, quando ambos se deitaram à tarefa de engraxar sapatos. No «Anita vai às compras» a miúda visitava um armazém tipo corte inglês, versão encantadora; no «Anita no campo» deliciava-se a acampar e a saltar em cima de um colchão insuflável que fazia inveja às amiga que dormiam em colchões quentes de penas (sic ou pelo menos quase); no «Anita na Quinta» apanhava suculentas cerejas com a sua amiguinha «Berta» (quase apostaria que era esse o nome dela) e naquele que creio, seria o meu preferido, o «Anita na praia» recordarei para sempre aquela ilustração deliciosa e única da Anita com um gelado de morango que ainda hoje me faz crescer água na boca.
Sinceramente, creio que pelo menos alguns deles ainda os tenho nas minhas prateleiras...mas quase que instintivamente recuso-me a prestar-lhes uma visita. Não me apetece que o meu olhar adulto e já politicamente correcto desconecte tão deliciosas memórias.

Sem lugares marcados

Hoje passei na zona do Quarteto, em direcção ao King. Espreitei. Mantém-se lá, fechado, mas como se fosse reabrir naquela sua eterna força decadente depois de amanhã. Não foi transformado em Banco, nem numa Loja dos trezentos, nem em Pastelaria fina de confecção própria, nem sequer na Loja da Pipinha - decoração de interiores.

De repente vi-me, daqui a alguns anos, a ter saudades do King, oásis onde ainda se vêem filmes como «o Segredo de um cuscus» ou «Aquele querido mês de Agosto» ou, ou, ou....como senti, naquele momento, do inolvidável cheiro a carruagem de segunda classe da linha do Estoril das salas do Quarteto - e para as quais até os bilhetes eram idênticos aos que se compravam para viajar nos comboio dessa linha e, como eles, também não davam direito a lugares marcados....

Será que há já um museu de cinema em Portugal?! Ignoro. Se não, proporia que o fizessem ali. Mas também que guardassem aquele odor numa caixa de abertura fácil apenas para quem mantivesse a nostalgia dos bons velhos tempos do Quarteto.

Mitos educacionais

Há alguns mitos na educação da nossa crianças que nos são incutidos diariamente e que há muito me apressei a destruir, em benefício da minha sanidade mental.
Mito nº 1 - A geração dos 35- 45 anos actual educa pior os seus filhos do que a educaram os seus pais (chamemos-lhe a nostalgia da educação dos anos 60/70 do século passado).
É verdade que enquanto pais, hoje em dia, estamos menos tempo em casa com os nossos filhos, em média do que o tempo que os nossos pais estavam connosco. Ou pelo menos, as mães que que não trabalhavam. A minha mãe, por exemplo, acabou professora de liceu, após anos de recuperação do simples quinto ano do liceu e de um Magistério primário, nível de educação máxima que o regime salazarista - cuja bondade o meu avô partilhava com o senhor que lhe deu o nome - lhe permitira. Até então, lembro-me sobretudo muito dela a cuidar de mim e do meu irmão, a alimentar, a vestir, a lavar a roupa, a passara a ferro, com a ajuda do que sem pudor então se chamava mulher-a-dias.
Do que me lembro bem era das horas e horas a fio a brincar e a brigar com o meu irmão, no quarto, na sala, na cozinha, em todo o lado...e em lado nenhum. A minha mãe, algumas vezes que a sua escassa disponibilidade lhe permitia certamente, lá arranjava uns bocadinhos a jogar connosco, a brincar a qualquer coisa, mas poria as mãos no fogo se o fez mais de um quarto das vezes que o fiz, eu própria, com o meu filho. A outra avó do meu filho, ao que sei, compensava com tempo e com paciência a falta de estudos e enchia-lhe os ouvidos de «histórias morais». Fazia bem...de alguma forma o valores tinham de ser transmitidos aos petizes.
As vezes que já fiz os trabalhos de casa com ele - ou até que a minha própria mãe já o fez com o neto - têm bem pouco a ver com o número de vezes que ela os fez comigo.
Isto, porque ao contrário do que a nossa nostalgia enganosamente imagina, mesmo as mães que estavam em casa, que não trabalhavam, entretinham-se, com a lida da casa e com as roupas que era necessário arranjar para a família toda. Pois, é verdade. Não obstante contar com alguma ajuda doméstica, a verdade é que a minha mãe, até começara estudar - altura em que muito provavelmente deixou um pouco da lida da casa para trás - concentrava os seus vinte e poucos anos à difícil tarefa de organizar um apartamento de quatro pessoas.
E não era fácil. Enumero os que não se lembram: não havia máquina da roupa, nem da loiça, as camisas do meu pai eram de popeline (experimentem passá-las, aquilo era uma ciência, a empregada seria praticamente só para isso),os lençóis eram todos de algodão e integralmente passados com precisões que me abstenho de enumerar embora ainda as saiba muito bem, as fraldas, meus senhores, eram de pano e lavadas diariamente, várias vezes, não se facilitava nada, que sós assim se era uma boa dona de casa; os pequenos-almoços, almoços, lanches e jantares estavam sempre todos a seu cargo, os banhos dos miúdos, a modista - não havia zaras e afins -os bolos eram batidos à mão e uma boa dona de casa fazia alguns de vez em quando pelo menos;almoçar ou jantar fora, no dia em que o rei fazia anos...E os pais? Esses apenas trabalhavam fora, competindo-lhes trazer o dinheiro para casa.
Será, então verdade que as mães - para já não falar dos pais - estavam mais próximas das crianças que nós éramos do que nós estamos dos nossos filhos? Na minha opinião, não estão mais perto, nem estão mais longe. Estão mais perto as que, então, e apenas por contornos de personalidade estariam mais perto e, mais longe as que, pelos mesmos motivos, antes estariam mais longe. Há simplesmente mães que nasceram para ser mães, que nessa função e independentemente de trabalharem ou não, gostam de ser mães - era o caso da minha e de mim própria - e há mães para quem esse facto é um mero acaso do destino...preferem ir às compras, passear, ler, estar com as amigas e até mesmo trabalhar, do que conseguir uma aproximação eficaz com os filhos. Gostos, apenas gostos.
Vale isto por dizer que de facto, as mães não tinham mais tempo para nós do que nós temos para os nossos miúdos, hoje. O que acontece é que elas viviam com muito menos complexos de culpa do que nós vivemos.
Mito nº 2 - Damos mais brinquedos do que nos davam a nós porque os queremos compensar do pouco tempo que temos para eles.
Ponto um - os nossos pais não nos davam menos brinquedos por convicção mas por exclusão. Os carrinhos com que o meu irmão brincava eram importados de Inglaterra, não da China, baratos portanto à custa do dumping social. Aqueles eram caros e, consequentemente, a sua compra racionada, logo por aí. Comparativamente, todos os nossos brinquedos e livros infantis, eram bem mais caros do que são agora. Depois, havia a firme convicção de que o dinheiro disponível era para poupar. As crianças tinham um brinquedo no Natal e outro no aniversário, porque ninguém nadava em dinheiro.
Ponto dois - Independentemente da época em que se vive, sempre houve pais mais generosos com os filhos e outros que, por convicção, também, achavam que não tinham de lhes dar mais do que davam. A minha amiga Nita tinha um órgão, repito, um órgão! Fiz notá-lo à minha mãe, tal como o meu filho me faz notar a mim que o colega X tem uma piscina; e, tal como eu, ela encolheu os ombros e disse - E daí? Hoje, o meu filho tem um piano electrónico, mas não tem uma piscina. Ponto três - Ao invés do que antes acontecia, há menos pais que sabem dizer que não.
E se não sabem dizer não, é porque confundem culpa e autoridade...sempre que exercem autoridade, não sabem se o fazem por culpa de não passarem mais tempo com o petiz a quem agora tentam impor respeito por regras e disciplina se, porque é assim que se educa crianças (mesmo que não se acerte sempre....).
Mito nº 3 - Como não temos tempo para as nossas crianças, enchêmo-las de actividades.
Nasci em 1964 e até 1970, não houve televisão lá em casa. Não me perguntem se por convicção se por mero desinteresse dos meus pais. O meu sonho constante era o de ir para casa dos meus avós onde uma maravilhosa televisão a preto e branco brilhava na sala. Essa televisão emitia, imagine-se, desenhos animados, apenas entre as 18 horas e as 18.30 m. Mas mesmo quando eu atingia esse meu objectivo máximo, os meus pais tinham por garantido que das 12 a 14 horas que eu estava acordada durante o dia, apenas meia hora era dedicada a desenhos animados, durante a semana; mas mais do que isso, que esses desenhos animados eram sempre de uma candura extrema, chegando mesmo, ao fim-de-semana, a ser apresentadas por um senhor chamado Vasco Granja que os ía buscar a inocentes países de leste (quem se lembra do «lápis mágico»), ou a ver séries como o «Olho vivo», «Casei com uma feiticeira» ou o «Bonanza». Parecendo que não, era um descanso, e não havia qualquer culpabilidade associada a isto. Quer dizer, mesmo que os meus pais não prestassem muita atenção à minha educação - o que, por acaso, não era de todo o caso - que mal me podia advir daqueles momentos televisivos? E da tele -escola, quando chegava a casa, alguns anos mais tarde?
Por isso, o meu tempo era repartido entre a escola (pública que as privadas eram para os mais inaptos), a leitura - li a colecção dos cinco, dos sete, das gémeas, do colégio das quatro torres, do Langelot, cada uma cerca de 10 vezes ou 20 vezes -as muitas brigas e algumas brincadeiras com o meu irmão e...a rua. Pois, claro, a rua e os amigos recrutados ali. A rua onde nos perdíamos durante manhãs e tardes, dias e dias de fins-de-semana e de férias, horas e horas esquecidas. Em que nós nos esquecíamos dos pais e eles se esqueciam de nós, até que um aparecesse em casa com um joelho botado abaixo, por se ter estampado de bicicleta.
Aos nossos pais, nestas condições, não lhes passava pela cabeça terem de nos entreter. De vez em quando lá nos levavam ao cinema ou ao teatro, agora actividades de Verão, de Natal, de Páscoa?! Nem havia! Para quê?
Compare-se, portanto, tão só, o que é comparável.

Os velhos comboios da linha do Estoril

Hoje, dois homens esperavam dois comboios na estação de Belém. Um para Cascais. O outro para Lisboa. Frente um ao outro, carris de permeio, ria um do que o outro dizia. Ria, deliciado. Inundou-me, dentro do automóvel, a nostalgia daquele esquecido cheiro a queimado das carruagens castanhas de segunda classe dos comboios da linha do Estoril (lembram-se, as de primeira classe eram azuis). Apeteceu-me rir, também, deliciada.