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Primeiro e último nome, por favor


Esta manhã, passava os olhos pelo "Público" de ontem e deparei com o anúncio de dois concursos para atribuição de mediação de jogos sociais do Estado, vulgo, totobola, totomilhões e outros totos que nem sei enumerar. Gargalhei com gosto.

Anunciava-se, portanto, a abertura dos concursos e, de seguida, elencava-se os membros do júri. Desinteressante? Absolutamente. O que me chamou a atenção foi que, aos licenciados, antes da graça de cada um, foi colocado o título de Dr. ou Dr.ª, e aos restantes, o de Sr. ou Sr.ª.... Neste último caso, nem sequer, Sr.ª D....., Sr.ª apenas, que o que interessa é  marcar bem a diferença, em provincianas vénias aos Senhores Drs.

Lembrou-me isto o quanto me irrita também, ligar para um serviço público solicitando uma informação, pedir o nome do funcionário com quem falei, e responderem: Liliana, Marta ou João. E eu, "desculpe, Marta quê?", e de lá, "nada, basta Marta, só cá há uma". Como se os serviços públicos fossem jardins de infância e os utentes tivessem entre três e cinco anos de idade.

Não pretendendo ressuscitar o "tema Álvaro",  não entendo por que não somos chamados  pelos nossos primeiro e último nome, e insistimos, ou numa pretensa meritocracia de títulos, ferrugenta, formal, patética e provinciana, ou numa "demeritrocracia" do cidadão indiferenciado, desenraízada e aviltante.

Hum...elucidativo


Descrição de um elucidário de direito, que integra o catálogo recentíssimo de uma editora de publicações jurídicas:

"A obra incide sobre um conjunto de temas recorrentes de direito civil e processual civil, uns que foram apresentados no processo de progressão na carreira, outros preparados exclusivamente como mero exercício ou tratamento teórico do assunto, e, outros mais, desenvolvidos como premissa maior do silogismo judiciário exercitado no âmbito de decisões proferidas em variados processos em juízo."

Sem emenda

Recomeçaram as aulas.

O Têzinho está no sétimo ano e sem aulas de matemática desde o início do ano (parece que teve hoje a primeira com uma professora provisória, seja lá o que for que isso queira dizer).

A questão foi levantada, obviamente, na reunião da Directora de Turma com os encarregados de educação. Admitiu: inadmissível. O que há a fazer? Nada, o Ministério é que coloca os professores e o que foi colocado ficou doente. Portanto, há que esperar que seja colocado outro. Paciência (sic).

Pergunta lógica, nos tempos cada vez mais exigentes que correm: e o que é que a Escola pretende fazer para compensar os alunos destes dias e dias de aulas perdididos, de uma disciplina essencial à sua formação académica, sendo certo que no 9º ano os exames nacionais não se atém aos alunos que tiveram mais ou menos aulas?
Resposta: Nada, a professora vai ter que dar a matéria toda...só que mais depressa (sic).

E aulas complementares? Não nem pensar, não há professores para isso. (Hum...)

E as aulas de substituição? Ah, essas não são aulas. São formas de ocupar os miúdos, para que não andem a correr pelos recreios. E que tal fazer-se um plano de estudos, para que, já que têm de estar dentro das aulas, ao menos aprendam alguma coisa, sobretudo estes alunos que não têm aulas de uma disciplina importante semanas a fio?

Resposta: eles têm um horário muito sobrecarregado. Todos gostávamos de ter furos quando éramos alunos, porquê retirar isso aos miúdos de hoje? (Hum...sim, claro, se antes se fazia mal, por que razão fazer agora bem, afinal de contas?!)

Calei-me. Não tive, nem tenho nada para dizer a uma professora que ensina, hoje em dia, como se o paradigma fosse o de há trinta anos atrás (e não é, até porque as aulas então tinham a duração de 45 m e agora têm de 90 m, logo os furos são pelo correspondente período de tempo)? Paradigma esse, aliás, que, como sabemos, já não era nada bom à data: o ranking da OCDE sempre demonstrou isso mesmo, e já estamos a pagar essa factura a nível económico-financeiro.

Continuamos, todavia, neste despreocupado «no passa nada».

Um país entre parêntesis (e com asterisco)

A minha amiga nem queria crer. No Centro de Saúde, à frente dela, um senhor acabara de ser esclarecido, pela funcionária do atendimento com quem decidira confirmar - pelo sim, pelo não - se sempre teria lugar a consulta que marcara via net, para a semana seguinte, que era mesmo «pelo não».
- Não?!
- Nesse dia, o médico vai estar num Congresso.
- Mas, então, como é que eu consegui marcar a consulta?
- Porque o sistema informático não assume esse tipo de situações...nem isso, nem as férias, nem as licenças...
O utente encolheu os ombros e, aparentemente resignado, marcou para outro dia.
Chegada a sua vez, a minha amiga decidiu comentar com a funcionária que, se fosse com ela, teria lavrado uma reclamação no Livro Amarelo.
- E faria muito bem. Isto é inacreditável. É que assim aquele sistema não serve para nada.
- Pois, devia ser mudado e rapidamente.
- Claro. E até era simples: bastaria que no formulário colocassem um asterisco, indicando que o sistema não assume os dias em que os médicos, por causa dos congressos, férias e licenças não estão a dar consultas...

Momento simplex II

Aqui há uns tempos e, também a propósito do cartão de cidadão, relataram-me uma história inqualificável.

Uma amiga minha, também com um filho menor, precisou de tirar com urgência o dito cartão para o miúdo. A Loja do cidadão pejada de gente (cem pessoas à sua frente, se não estou em erro), dirigiu-se ao edifício das Conservatórias do Registo Civil, na Fontes Pereira de Melo em Lisboa. Não sei por que critério lá escolheu uma, mas descobriu que no disponibilizador de senhas faltava aquele que deveria ter a menção «cartão de cidadão».

Dirigiu-se, portanto, à senhora que se encontrava à porta da conservatória e questionou-a sobre o assunto: as senhas eram dadas ali, pessoalmente. Muito bem, então queria uma. É para si? Não, para o meu filho. Olhou a criança de cima abaixo. Ah, então está bem. E entregou-lhe a senha...número três. Seriam cerca de onze e meia, meio-dia, e a minha amiga estranhou, mas congratulou-se pela sua esperteza. Coitados daquele que, na Loja do cidadão, desconheciam esta possibilidade.

Sentou-se, aguardando a sua vez e, sem mais nada com que se entreter, observou a senhora. A cada utente que se aproximava, com as mesmas questões que ela própria levantara, a funcionária perguntava invariavlemente, «é para quem?». Sobretudo pessoas de mais idade que respondiam ser para elas, dizia enfadada, «já fechámos as senhas para hoje».

Os utentes, desalentados, voltavam costa e ela comentava quando já não a podiam ouvir: «pffff...cartão de cidadão, não queriam mais nada, há tantos lugares onde irem...».

A minha amiga percebeu, então, o segredo da senha número três, às onze e meia da manhã. Simplex.

Momento simplex I


Dos factos:
1- A minha sobrinha tem três anos e, portanto, mal consegue pronunciar correctamente o primeiro e último nome (os erres são sempre dramáticos nesta idade);
2- Necessitando de viajar com ela, a mãe requereu o respectivo cartão de cidadão. Com ela. Normal.
3- Depois terá de o ir lá buscar, veio a descobrir... com ela também.

Quando o funcionário, ufano, lhe garantiu isto mesmo, a minha cunhada franziu o sobrolho, depois argumentou que iria ela e os documentos comprovativos da filiação mas, por fim, precisando mesmo do cartão e com urgência, dispôs-se obviamente a levar a petiza a enlouquecê-la na Loja do Cidadão no dia previsto para a entrega.

Não resisti. Fui ao site do cartão de cidadão (nem vou ver a lei, que já que o que me interessa analisar o que desta informação pode passar para os funcionários e o cidadão, bem entendido):

«Por razões de segurança, não é permitida a entrega a terceiros. A entrega será realizada na presença do cidadão titular, salvo raras excepções devidamente comprovadas e permitidas pelo Instituto dos Registos e Notariado. Nestes casos o cidadão terceiro deve ser devidamente identificado(...)» sendo necessária a apresentação de documento que ateste a sua identidade.

Que retirar desta preciosa informação:

a) do primeiro período que não é permitida a entrega do cartão que não seja à minha sobrinha de três anos. À própria, entenda-se.
b) da primeira parte do segundo período e do quarto período que estavam a brincar com a malta.Pode ser entregue a terceira pessoa, sim senhor, desde que bem identificada. Não se propõem, afinal, entregar-lo na mão da gaiata, que lhe chamaria um figo. Fique, portanto, descansado que também não terá o cartão do seu filho de seis meses cuspinhado por lho terem entregue na mão. Menos mal, hem?
c) Mas não pense que se livra de, tal como a minha cunhada, ter de levar o benjamim à Loja do Cidadão (acompanhado de toda a logística que o persegue). Leia bem todo o segundo período: o mini-cidadão, salvo raras excepções que terão de ser devidamente comprovadas e permitidas pelo IRN, tem de estar presente no solene momento da entrega do cartão, não obstante o adulto acompanhante ter sempre de se identificar devidamente;
d)E note bem que nem sequer se dão ao trabalho de colocar as possíveis excepções na lei: é mesmo para se dirigir ao IRN, que terá de decidir (em seis meses, imagino) do caso do mini-cidadão cuspinhoso, ou do velhinho entrevado, ou do impossibilitado por uma intervenção cirúrgica, ou, ou, ou... (digo isto, porque procurei no site do IRN e não encontrei qualquer referência à questão - presumo, portanto, que a autorização haja mesmo de ser casuística).

Questões de alta segurança se levantam. Que importa se o titular do cartão tem três anos como a minha sobrinha, seis meses como o seu ou até apenas dois meses, (idade em que desafio qualquer funcionário a distinguir o meu filho do do meu vizinho) ou até se está de cama com gripe H1N1? É titular, logo, tem de estar presente naquele momento! Ou então grama com a burocracia de ter de se pedir o especial favor ao IRN de deixar que a mãe, devidamente identificada, vá lá por si.

Enchantex.

A D. FP, a engenheira, a borracheira e o galho dela

No meu local de trabalho existe uma enorme borracheira centenária e património municipal que, aparentemente, necessitaria de um nível de atenção municipal superior àquele de que tem beneficiado. No outro dia, um ramo gigante caiu no caminho de acesso a cafetaria, e só não magoou ninguém porque, do último andar do edifício, uma alma contemplativa se apercebeu de que estava a esgalhar. Pânico, barreiras à volta de todo o jardim, visitas de uma engenheira da Câmara Municipal de Lisboa, que gesticulou e opinou muito, que eu vi...mas não vi, nem soube de qualquer intervenção dos senhores que, efectivamente, e de mangas arregaçadas, deveriam resolver o problema da árvore, se o houvesse. Esquecemos, portanto, o assunto já que desapareceram o pânico, o galho, as barreiras e a senhora engenheira.
Duas semanas depois, hoje concretamente, novo ramo, este mais pequeno, cai perto do meu gabinete.
Pego no telefone e falo com a senhora D. FP que presumi responsável pela árvore, porque fora ela quem eu vira com a engenheira gesticulante.
Eu- D. FP, caiu outro ramo.
D. FP - Ai, sôtora, não me diga!
Eu - Ai digo, digo. Caiu aqui mesmo.
D. FP - Ah, pois foi. Estou a ver daqui. Mas a Engenheira da Câmara esteve cá e diz que está de boa saúde...
Eu - Ó D. FP, de boa saúde só se for a senhora engenheira, porque olhe que a árvore....
D. FP - Ai disse, disse. Disse que está muito saudável, que é um problema de ter os ramos pesados e disse até que nem havia risco...
Eu - Não havia risco de quê?!...
D. FP - Risco para as pessoas...
Eu - Acredito...desde que não passem por baixo dela. Que olhe que, apesar deste ramo não ser muito grande, magoaria bastante quem estivesse a passar aqui, por certo...
D. FP - Mas ninguém passa aí, sôtora!
Eu - Não passa aqui ninguém?! Mas como não? Se tem um caminho aqui ao pé da janela...passa muita gente aqui durante o dia....
D. FP (farta de saber disso, que o caminho está ali há anos) - Ah...então mas se é assim...tem de se mandar vedar o caminho...
Eu - Mas, ó D. FP, o outro caminho que leva à cafetaria, também está por debaixo da árvore. E passam lá dezenas de pessoas por dia...aliás foi onde caiu o primeiro ramo.
D. FP - Pois é, sôtora...pois é, também tem de se mandar vedar esse...mas olhe, sôtora, que a Senhora Engenheira disse que árvore está muito saudável, que é só um problema de peso das castanhas, que estas árvores em Portugal não deviam ter castanhas, mas por causa das mudanças climáticas esta tem castanhas e os ramos ficam muito pesados....