Mostrar mensagens com a etiqueta Secção Y. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Secção Y. Mostrar todas as mensagens

Ninguém tem culpa


Do "abrupto"

Subia a Rua do Carmo com um amigo meu. Procurávamos um local para comer qualquer coisa rápida. "Aqui?" - pergunta-me. "Sim, porque não?" - respondo, meia distraída, parando à frente da enorme loja com ar sofisticado ainda que, como ele  próprio apontou, pouco cosy. "Reparei no outro dia e fiquei curioso; é uma daquelas padarias francesas".

Sorri, não me ocorrendo sobre uma padaria francesa em Portugal, que não fosse coisas prosaicas como "é muito desplante dos franceses quererem vender pão e bolos a quem os tem muito melhor que eles" e "o que estamos nós à espera para ir fazer mais e melhor em Paris?".

Senti que me olhava surpreendido enquanto caminhávamos para a entrada (eu mereço estes olhares, porque às vezes parece que habito outro planeta). " É da cadeia Eric Keiser". E eu, continuando-me a sentir a última parva do universo: "Hum, não sabia...".

De repente, estaquei. A bem sucedida cadeia francesa de pão variado que parece de plástico, e de bolos caros, com coberturas coloridas e envernizadas, resolveu instalar-se, como por essa altura já toda a gente saberia, menos eu, na loja que era da antiga Livraria Portugal. Ali mesmo.

Da Livraria Portugal só ficou a escada para o primeiro andar, lavada e esfregada de toda a sua história, e um espaço que parecia antes tão pequeno para livros quanto agora parece incomensurável para pães e bolos.

Lembrei-me do texto de Pacheco Pereira, e revi-me ali, nos anos 80/90, à procura de livros por algumas vezes (que aliás nem foram tantas assim). Dei comigo a fixar a escada, agora quase asséptica, com um-olhar-longo-que-pode-ter-parecido-quase-triste, enquanto uma das empregadas ajeitava os bolos reluzentes nos tabuleiros, e uma outra limpava o chão nem se percebia já de quê numa loja tão absurdamente impoluta.

Ninguém tem culpa. Mas como eu gostava que tivesse! Se, de boa mente, a pudesse imputar a alguém, este post não terminaria aqui.

Notas de um dia findo


1. Acordei há pouco meia engripada e estremunhada no sofá da sala. Olhei para o ecrã da televisão. Lá estava mais uma daquelas enjoativas séries de polícia científica, "Mentes criminosas", confirmei, que lhes confundo os nomes, na vaga ideia de que contam histórias de polícias brilhantíssimos, que deduzem coisas muito para lá de Sherlock Holmes, mas que partilham com ele a astuciosa arte de humilharem a minha inteligência.  Prestes a tocar no botão desligante, na direcção da cama...pára! Olhei segunda vez. O que é era aquilo?

Fiz um esforço de ligar o meu próprio botão acordante. Pesquisavam qualquer coisa sobre um povo perdido não sei de que país...em livros. Exactamente, numa pilha de livros com imagens, e não num relógio que tridimensionalmente lhes facultasse num segundo toda a informação necessária. Acendeu-se a minha luz refrescante.

2. Uma vez um psicólogo disse-me que em boa verdade precisamos apenas de dormir quatro horas por dia, que o resto é só necessário para descansar o corpo. O que importava seria saber exactamente quais elas fossem. 20 anos depois descobri que nasci para ermita. Ninguém tem amigos, nem família ou vida social de jeito se as suas quatro horas de sono começarem às 21 horas e terminarem à uma da manhã.

3. Distraída, desligava o computador no emprego, quando cai a notícia no meu quase arqueológico igoogle (a Google ameaça furiosamente retirá-lo de cena algures no final de 2013). Plim! Vítor Gaspar falará amanhã. Momento "Gasparzinho brincando de cowboy", imagina-se. Brinco: se Samaras disse hoje que ser primeiro ministro da Grécia é o cargo mais difícil que alguém pode exercer hoje em dia, o segundo lugar deste ranking vai certamente amanhã para o Ministro das finanças português (tudo isto porque mantemos da Europa a noção aristotélica do lugar que a terra ocupava no universo, bem entendido).

De que tanto falam vocês?


De que tanto falam vocês? Conversas de amigas. Que é lá isso, "conversas de amigas"? São conversas em que duas amigas falam. Mas falam de quê, posso ouvir? Sim, claro!

Mas não pode. Quer dizer, poder ficar ali a ouvir o que dizem duas amigas uma à outra, pode, mas não logrará nunca saber o que é uma "conversa de amigas". Nem mesmo se, em seu lugar, deixasse discretamente um gravador.

Sejam as amigas urbanas e letradas, ou vizinhas analfabetas sentadas à soleira da porta a fazer renda, os conteúdos podem ser diversos, mas o ADN das conversas é igualmente indescodificável: ligam-se por fios visíveis e invisíveis, por cumplicidades, léxicos, silêncios, olhares e risos próprios.

"De que tanto falam vocês" revela um ciúme dos homens que não é tolo. Mas é vão.

Toda a gente sabe que os homens...


"Os maridos das outras" é a canção que Portugal trauteia este verão. A letra, de Miguel Araújo, muito bem esgalhada aliás, tem sido sujeita a tratos de polé interpretativos e, "silly season" para que te quero, também dei comigo a pensar onde vai ela buscar o seu lado cómico.

Já ouvi classificá-la como uma canção irónica. Dou de barato que seja a figura de estilo que marca a ideia da letra, mas não me parece que ao longo dos versos se diga, no essencial, o contrário do que se quer dar a entender (Houaiss da Língua portuguesa).

Então, como e porquê que a letra nos diverte, toda ela e não apenas a sua ideia? Creio que o efeito cómico é provocado, sobretudo, pela forma como Miguel Araújo tira proveito, não de uma, mas de duas falácias (erros de argumentação) conjugadas, próprias de algum tipo de raciocino feminino sobretudo urbano (português?), intuído na expressão "toda a gente sabe que...".

A primeira falácia é a de que os homens são "brutos", "feios", "lixo" e "animais", se forem os nossos maridos. E é uma falácia porquê ? Porque se alguns o serão, outros não o são. Logo a informação está incompleta, e portanto trata-se de uma generalização abusiva destinada, no caso, a fazer rir.

A segunda falácia é a de que "os maridos das outras" são em absoluto o oposto, o que estatisticamente também nunca poderia ser verdade.  As expressões exageradas como o "arquétipo da perfeição", "pináculo da criação" e "amáveis criaturas" acentuam a extensão do equívoco, aumentado portanto a comicidade da ideia.

Tudo isto é envolto de facto - chegámos lá -  num manto bem pouco diáfano de ironia: quando se diz que os nossos maridos têm carradas de defeitos, que os maridos das outras não têm, e "que servem para fazer felizes as amigas da mulher", obviamente que se quer dizer o inverso, isto é, "vocês são tontas ou quê"?

No género canção de verão, é uma letra mesmo muito bem achada, e revela uma olhar fino, inteligente e risonho sobre alguns vícios de raciocínio femininos.

A good moan


Um bom queixume
Por Miguel Esteves Cardoso (Público, 16.12.2011)

Os ingleses elogiam o valor terapêutico de um good moan. É quando se desabafa e deita abaixo tudo aquilo que nos irrita e complica a vida, com o exagero e a delonga que se quiser, diante uma pessoa que é empática e boa ouvinte, compreendendo e concordando com a mais breve das expressões, sem jamais interromper.
Num exemplo desse queixume que, quando finalmente chega ao fim, alivia quem se queixou, uma colunista inglesa acusava o sexo masculino de ser incapaz de desempenhar o papel de ouvir e achar horrível o que ouve. Enquanto as mulheres encorajam a exposição do problema e não saem dali enquanto ele não for exausto, os homens, numa aflição histérica e maldosamente atribuída às mulheres que temem, atropelam-se para interrompê-las, oferecendo soluções práticas para o que nem sequer finge não ser de natureza metafísica.
Aquele bom queixume é um problema. Mas o que torna o queixume bom é não ter solução. Um good moan não é um pedido de ajuda (os homens sofrem, com delícia, da ilusão que podem ajudar não só os outros homens como as mulheres): é uma invocação de solidariedade, com base na certeza existencial e irrefutável que diz: "Tanto poderias ser tu, como agora sou eu."
Os ingleses e as mulheres têm razão. Das mulheres inglesas, então (como a minha Mãe) nem se fala. Ouve-se apenas. E aprende-se. Tanto aprendemos a sabermos ficar calados quando se queixam, como aprendemos a queixar-mo-nos - haja ou não haja solução. Ou ouvintes.

Do direito à (oportuna) crise da meia idade


Todas as pessoas deveriam ter direito à sua crise da meia idade no momento certo. Aliás, isso devia ser um direito constitucionalmente consagrado, mesmo que, como acontece agora como muitos outros direitos, de vez em quando fosse suspenso sem declaração prévia de estado de emergência.

Alguém já ouviu falar de um casal em que ambos tivessem simultaneamente a crise dos trinta, dos quarenta, dos cinquenta ou dos sessenta? Por regra, apenas um a tem. Ora, não é estranho? O segundo está sempre predestinado a não a ter na mesma década? Não. Poderia tê-la, mas enquanto anda a gerir a do outro, não pode ter a sua própria, claro.

Trata-se de um abuso de direito, em minha opinião, obrigar um pobre terceiro a esperar pelo menos mais uma década por uma crise que podia ter logo naquela.

Insolência versus inteligência


Às vezes pasmo com a facilidade com que certos pais confundem insolência com inteligência nos filhos.

Talvez uma consulta ao dicionário lhes fizesse perceber que não têm de render os seus respeitos a uma criança, adolescente ou jovem, apenas porque impertinentemente aproveita uma  situação que lhe é desfavorável para, descontextualizando-a, a arremessar contra quem a repreende ou simplesmente lhe faz uma observação que lhe desagrade.

Tratar a impertinência como um mero despropósito, gracinha inconsequente ou, mais grave, como demonstração de inteligência  ( isto é, " capacidade de apreender e organizar os dados de uma situação, em situações para as quais de nada servem o instinto, a aprendizagem e o habito" ou mais simplesmente " a faculdade de conhecer compreender e aprender") é não perceber que a inteligência e a insolência só têm uma coisa em comum: a capacidade de "tirar partido das circunstâncias".

No caso da inteligência, saber tirar partido das circunstâncias é bom. Na insolência, é um perigoso sinal de má-educação, desrespeito, desdém, atrevimento e inconveniência. E não se argumente que dizer isto é rejeitar a rebeldia como parte do processo de crescimento: rebeldia e insolência são dois comportamentos distintos, e não se deve permitir que a condescendência e às vezes até cumplicidade que reservamos em geral para com alguma saudável rebeldia se estenda à inaceitável insolência.

[Agradecimentos ao Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, hoje redobrados em virtude de ter sido objecto de uma petição pública para ser retirado do mercado brasileiro, por assinalar como significado expressamente pejorativo  de cigano o de "aquele que trapaceia; velhaco, burlador” e “aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina"...e o Ministério Público foi na onda (tudo aqui)....haja paciência!]

Querido Diário vírgula


Tem andado a chover muito por cá e hoje até já começou a fazer frio, apesar de ainda antes de ontem ter estado um calor medonho, eu não gosto nada do frio mas a mãe está muito contente porque diz que não havia nada mais aborrecido do que as meias estações em que uma pessoa nunca sabia o que havia de vestir, mas eu acho que a mãe queria dizer é que nesta época de osteridade ou austeridade, ou lá que é, é bom só haver uma estação quente e outra fria, para não ter de comprar roupa que não é quente nem fria, para mim e para o meu irmão, quando a mãe disse isso, o meu irmão, que está naquela idade parvinha, desatou a rir e disse que achava que devia ter sido encomenda do primeiro-ministro, ou presidente ou isso, porque se se está a acabar com as estações e com os comboios, é bom que se acabe também com os apeadeiros, eu não achei graça à graça porque não sei lá muito bem o que é um apeadeiro, mas quando perguntei ao Cajó, que é o meu irmão que tem borbulhas gigantes na testa, ele disse que nem valia a pena eu aprender, que quando crescesse não haveria em Portugal sequer estações quanto mais apeadeiros, que isso ia ser tudo História e que depois eu ia ver que a História é uma ganda seca, mas eu também não percebi o que é que as estações do ano tinham a ver com os comboios e com a História e continuei a fazer a cópia sobre as estações do ano, e ele então começou a rir-se muito alto e disse-me que não me esquecesse que agora as estações do ano, aquelas que ainda existem e as que estão a desaparecer, escrevem-se todas com letra pequena, e depois começou a dizer que era por causa do simplex,  para a gente não ter de pensar muito a carregar no queps loque, mas eu também já tenho sete anos e disse-lhe que achava que ele estava enganado, que não era por causa desse simplex que eu, por acaso, também não sei bem o que é, mas por causa de um acordo que os de cá tinham feito com os brasileiros das telenovelas, e com os senhores dos outros países que também só quase-quase falam português, mas que querem todos escrever exactamente na mesma língua, embora depois se vá a ver e não seja bem assim, porque eles podem escrever baptismo com pê e nós temos de escrever sem pê, o que afinal não tem sequer muita importância porque, na minha família, a mãe já disse e está dito, não vai haver mais batismos nem com pês nem sem pês, porque parece que a osteriadade também não deixa fazer festas de batismo porque são muito caras, a osteridade parece que é filha da troica que eu nunca vi, mas também nunca conheci a tal osteridade, só que isso a mãe diz que é natural porque eu só tenho sete anos, e a última vez que ela esteve em Portugal já foi há muitos anos, quando não havia férias no Brasil, nem nas Maldivas e os miúdos iam todos para as escolas públicas e os pais diziam que eram muito boas porque eles também lá tinham andado, embora agora toda a gente veja que elas não deviam ser assim lá grande coisa, porque os políticos que mandam no país desde há muitos anos e aqueles que gostavam de ter mandado e os que hão-de vir ainda a mandar, parece que andaram lá todos, e as coisas não estão lá muito bem no país, até se diria que eles andaram todos foi na escola pública grega e que, portanto, não perceberam nada do que lá lhes ensinaram, se até os gregos, que percebem a língua, pelos vistos não aprenderam nada, como é que os portugueses podiam aprender, não é, deve ser por isso que alguns deles se sentam naquele lugar que parece que se chama assembleia, assim todos voltados para os professores com ar de quem vai aprender muito, e depois vai-se a ver e nunca aprendem nada, mas o Cajó diz que até estaríamos bem se isso fosse só em Portugal, que é um país que, por enquanto, ainda se escreve com letra grande, mas não se sabe por quanto tempo, já que se está mesmo a ver que a osteridade, ou o simplex, ou aquele acordo dos senhores brasileiros da telenovelas, já nem sei, também nos vai tirar a letra grande de Portugal, olha querido diário, vou dormir que eu não queria mas a mãe está ali a dizer que não é mas, nem meio mas, é já para a cama e mais nada, até amanhã!

Da alergia ao sorriso

É uma experiência quase laboratorial interessante, de repente usarmos o nosso mais largo sorriso e desatarmos a dizer - por ser verdade - que nos sentimos óptimos, que nunca estivemos tão bem. Somos muitas vezes retribuídos pelos amigos e conhecidos, na sua vontade de estarem connosco, de nos falarem até dos seus problemas porque nos sentem fortes, e com ânimo aos molhos para lhes oferecer. E isso faz-nos ficar com mais vontade de estar para eles e para a família, de brindar o mundo com palavras que digam que vai correr bem, porque há dias assim, em que logo pela manhã até a promessa de vermelho dos plátanos nos faz sorrir. A esses chega-lhes intacta a nossa boa energia, aquela que é capaz de mover pedras milenares, tal como queremos que lhes seja transmitida, toda, inteirinha, em fio contínuo.

Para os outros, um belo e sonoro bom dia, estou muito bem-disposto, espero que o seu dia lhe corra bem, causa urticária, porque só pode significar:
a) uma afronta: não te choras? Alardeias assim a tua alegria? Pudera, tu podes, não tens os meus problemas.
b) falta de solidariedade pessoal, num futuro mais ou menos próximo: hum, esse sorriso tem um ar muito pouco absorvente, se eu acaso estivesse infeliz (que não estou, mas podia estar, nunca se sabe), seguramente não secaria as minha lágrimas.
c) falta contínua de sentido de justiça social: como é que se pode andar com um sorriso desses com a troika a entrar pelo país adentro? Foste uma das excepções ao corte dos subsídios, hem?
d) uma clara violação do artigo 13º da Constituição da República Portuguesa: porquê que o teu sorriso é maior do que o meu?
e) a prova de que se é o único responsável pelas alterações climáticas: aposto que vieste trabalhar de carro e eu tive de vir de transportes públicos.
f) um mau agoiro: é por andarem pessoas como tu no mundo, com ar de quem não o carrega, que ele vai desabar mesmo!

Pois bem, aqui fica um enorme sorriso (com as melhores desculpas aos sempre mal-humorados, eternamente de mal com a vida e aos simplesmente alérgicos a sorrisos).

Eufemismos

Todas as profissões têm os seus eufemismos próprios. A dos merceeiros é simples, mas há que conhecê-la:
- Os melões são bons?
- As pessoas não se têm queixado.
À confiança, levará um pepino para casa.

Relevâncias irrelevantes

O novíssimo "timeline" é, segundo o Senhor Mark Zuckerberg, «a história de tua vida, a nova maneira de mostrares quem és no Facebook».

Parece que ideia é os amigos do Facebook abrirem o nosso «livro pessoal», onde incluiríamos «toda a nossa vida» devidamente ilustrada com fotos e ficarem a saber tudo o que há de relevante sobre nós, desde o dia que nascemos se possível.

Como nenhuma fracção da minha vida me parece ter tanta relevância que me levasse a querer partilhá-las assim sistematicamente, quanto mais toda ela, e tendo os meus amigos em melhor conta do que interessarem-se pela minha vidinha desde que nasci, fico bem feliz de ter cancelado a conta há algumas semanas atrás, quando o senhor Zuckerberg resolveu fazer-me de cobaia de algumas das suas brilhantes inovações.

Ligar o taxista

Gosto de ouvir os taxistas. Nunca se aprende muito com eles, mas aprende-se muito sobre a forma como eles pensam. E eu gosto tanto de saber o que uma pessoa, grupo/tipo de pessoas pensam, quanto os raciocínios que elaboram para dizerem o que dizem.

Entenda-se. Não é que o que as pessoas digam não me interesse. Muito pelo contrário, há pessoas de quem, literalmente, bebo as palavras. O que acontece é que, mesmo que não me interesse muito, por ser banal ou até disparatado, o meu ar atento não é fingido: entretenho-me sobremaneira a perceber em que medida, na cabeça de cada um de nós, qualquer conclusão ou o seu contrário pode ser gerada pelos in puts pessoais mais surpreendentes.

É por isso que muitas vezes se, por um acaso, como ontem, calha andar de táxi, «ligo o taxista» mal ele liga o taxímetro e pergunto: «Então, isto com a crise, vai mal?».

Um jogo de atropelar pessoas

No início, eram os contos de tradição oral. Ninguém os escrevia. Por natureza, passavam de boca em boca, de pais para filhos de avós para netos. Depois Esopo (séc. VI a.c.) terá escrito as suas fábulas morais e, muito depois, La Fontaine terá reescrito umas tantas e inventado outras mais (acho). Os valores da religião judaico-cristã - apesar de todos os defeitos que reconheço à própria religião - iam fazendo o resto, senão mesmo o principal.

Intuía-se a evidência de que a ética, sobretudo a ética das relações sociais não é inata, ensina-se. Podia ou não ser apreendida, mas não era deixada ao acaso pelos ascendentes, porque a sociedade sabia que essa atitude acabaria por destruir os seus alicerces.

Depois, a mesma sociedade urbanizou-se, sub-urbanizou, stressou-se e, não contente, ainda se subalternizou às altas tecnologias. Sem tempo, disponibilidade ou paciência, os pais começaram a deixar os filhos serem educados exclusivamente pela escola, permitindo por outro lado que o seu entretenimento, não apenas se complementasse, mas que se circunscrevesse mesmo, e apenas, à televisão, aos jogos e aos amigos com iguais interesses. Os avós, a quem era, até então, deixada quantas vezes grande parte dessa tarefa, e o faziam de acordo com os canônes tradicionais tidos por valores seguros, foram relegados para o lugar «daqueles que não percebem nada disto» porque estão «desactualizados»...

As leituras, próprias dos meios urbano-burgueses, os contos tradicionais morais transmitidos pelos avós da ruralidade portuguesa, aos miúdos com «a fisga no bolso detrás», enquanto os pais trabalhavam nos campos, desvaneceram-se, assim ,nas curvas do tempo - em, aliás, uma ou duas gerações, não mais - e agora já ninguém sabe onde está nada.

Há conceitos que, para os miúdos, já não fazem sentido. Honra, lealdade, brio, respeito, boa-educação, controlo do mau-génio, honestidade, dignidade humana, bondade e compaixão pelos outros são virtudes esquecidas, penhoradas a um passado que, tantas vezes, se despreza. Os próprios pais, criados ainda nesses valores, parecem hesitar perante um «ó mãe, o que é que isso interessa, não percebes nada disto, eu fiquei com o boneco e isso é que importa», ou qualquer coisa do género.

E não vale a pena ter ilusões de que há coisas que só acontecem aos outros. No outro dia, o meu petiz-adolescente jogava um jogo de consola inacreditável: ganhavam-se pontos a atropelar pessoas com os carros. Sou atenta, mas confesso que o facto de o jogo ter sido trazido por um amigo dele que tenho em boa conta, me fez aliviar a vigilância. Quando me apercebi, já o amigo se tinha ido embora e haviam passado a tarde naquilo. Respirei fundo, a culpa também era um pouco minha, havia que ter calma:

- Um jogo de atropelar pessoas? Mas estás louco?
- Que mal é que faz?
- As pessoas têm dignidade própria. Nem em jogos se matam gratuitamente.
- Ó mãe!! O que é que isso interessa? Acha que eu vou para o meio da rua matar pessoas? Acha que eu não sei que não se matam pessoas? Toda a gente joga isto. Isto é só um jogo.

Insisti, expliquei e acabei por desistir de o fazer entender, usando pura e simplesmente, o argumento final: estás proibido de o jogar!

Ele não lê, ou lê muito pouco, ele não vai à missa - onde, para o bem e para o mal, sempre seria desbravado algum caminho na distinção, com alguma clareza, do bem e o mal segundo os valores judaico-cristãos -a escola, apesar de mediamente vigilante, é necessariamente difusa na transmissão destes valores, os conteúdos televisivos que eles apreciam são o desastre que se lhes reconhece, os jogos de que eles gostam não têm qualquer densidade ética, muito pelo contrário, pelo que aos pais cabe em primeira linha aquela que, não nego, é a nossa principal missão - educar os nossos filhos.

O problema todavia não é fazê-lo: é fazê-lo com a firmeza necessária para contrariar a avalanche de valores negativos que, sob forma apelativa, os garotos recebem diariamente de uma sociedade submersa em consumismo e paralisada pela inércia, hesitações e, mesmo, omissões éticas repugnantes.

Mas há que não desistir, os pais não podem sucumbir ao laxismo facilitista, pondo em causa os valores sólidos que lhes foram transmitidos pelos seus próprios pais, sob pena de a humanidade acabar mesmo antes de se extinguir.

A terceira pessoa

«(...) somos mata-borrões impregnados pelo outro, deixamos de ser quem somos e passamos a ser nós e o outro; por isso é que, nas separações, o mais difícil não é separar-se do outro, é a separação da terceira pessoa que ambos criaram (...)».


Relato das palavras (depois não aproveitadas) que terão sido ditas por Saramago numa das muitas entrevistas a Miguel Gonçalves Mendes, para recolha de material para o documentário «José e Pilar». In Ípsilon, Público de 14.11.2010.

Se alguém lhe oferecer flores...isso pode não ser impulse

»(...) Digo-o muitas vezes: a receita é simples. Uma mulher quer servir nas coisas grandes e ser servida nas pequenas. Sacrifícios e dedicação é com elas, mas querem atenções e flores, cumprimentos, rapapés, e isso é que a maioria dos sujeitos não compreende» (extraído daqui ).

Não serão palavras do autor do texto (Rentes de Carvalho) que as atribui a um amigo «mulherengo» e convicto opositor da instituição matrimónio, que comentaria assim um estudo que indicava que 30% dos homens, seis meses após o casamento, já estaria a pensar em divorciar-se.

Coisas da idade

Uma amiga minha queixava-se há uns dias que a filha, ainda criança, já estava com atitudes de adolescente. Nada que eu e a maioria dos pais de hoje em dia não tenhamos já sentido.

Ontem, todavia, dei comigo a questionar-me se o facto de as crianças actualmente anteciparem assim a adolescência, significará que vão antecipar também a juventude, a idade adulta e a terceira idade, na qual permanecerão longamente «até que a morte lhes advenha»?

Ou, cenário ainda mais arrepiante, será que estarão, logo aos sete anos, a adiantar-se na chamada «crise dos quarenta» (aquela em que achamos que somos e seremos eternamente jovens), crise essa que só pretendam abandonar aí por volta dos oitenta?

Do estado da alma

Ainda bem que não vivo no Reino Unido, onde a constante instabilidade meteorológica conduz a proverbiais conversas sobre o actual e previsível estado do tempo. É que, sinceramente, não me apeteceria nada andar a falar e ouvir falar, desde Outubro, do estado do tempo.
A propósito, já sabem? Esta manhã previa-se que a chuva em Portugal se prolongue por mais três semanas.

Dá tanto trabalho, ser preguiçoso

Cansam-me sempre mais as coisas que tenho para fazer do que aquelas que já fiz.
Faz! Não me apetece. Não fizeste, não fizeste, devias ter feito. Faz, faz! Não!
Um preguiçoso, acreditem, tem uma forma peculiar, ainda que inconsciente, de pensar: por muito que se faça, há-de crescer sempre trabalho. Melhor mesmo será, portanto, não substituir o que já está feito por aquilo que estará logo a seguir na fila de espera.
Quando dá por ele, o preguiçoso tem uma infindável lista de coisas não feitas.
Normalmente, opta, então e só então, por fazer tudo de uma assentada. Tudo, quer dizer, tudo o que está atrasado e não necessariamente por qualquer ordem lógica, isto é, de urgência, atraso, interesse ou seja qual for, mas apenas aquela que lhe apetece e de, preferência, a que dê menos trabalho.
Como alguém já disse, os preguiçosos têm sempre vontade de fazer qualquer coisa...mas, digo eu, nunca aquela que devia ser feita.

Psssssst...shiuuu...

Psssssst...shiuuu...
Prestamos-lhes mais atenção do que a um amável "por favor" ou a um impositivo "está calado!", respectivamente, porque ancestralmente estamos programados para pressentir e nos defendermos das cobras (Mário Carneiro in «O gande livro do adolescente»).
Tssss!!!