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Brincando com o/s interesse/s
Há pessoas interessadas. Há pessoas interessantes. Há pessoas que não são interessadas, nem interessantes. Há os que parecem interessantes, mas não têm interesse nenhum. Há aqueles de quem se fala sem percebermos o interesse. Há os que já não nos interessam e os que ainda não nos interessam. Há os que simplesmente não interessam para nada, nem a ninguém. Há os que se interessam por tudo e os que não se interessam por nada. Há os que se interessam por causas, e os que interessam às causas. Há aqueles por quem nem as causas se interessam. Há causas com interesse e causas sem interesse nenhum. Há causas com interesses por trás, e sem interesses por trás. Há quem perceba os interesses em causa, e quem só olhe aos interesses em causa. Há conjugações de interesses e divergências de interesses. Há a tolerância aos interesses e o interesse na tolerância aos interesses. Há quem se rebele contra os interesses. Há os interesses instalados e os interesses visados. Há os interesses sempre considerados, e os eternamente esquecidos. Há interesses velados, e os finalmente revelados. Há os grandes interesses e os pequenos interesses. Há interesses simulados. Há o poder dos interesses, e a força dos interesses. E por aí em diante. Agora, adeus, que há coisas que têm interesse, e outras que não têm interesse nenhum.
Portugal: outra vez o truque de Deu-la-deu?
| Deu-la-deu Martins - Estátua em Monção |
No Séc. XIV, depois de um longo cerco dos castelhanos às muralhas de Monção, a população morria de fome na fortaleza sitiada. Presumindo isso mesmo, os sitiantes esperavam pacientemente a rendição dos portugueses. Com notável sentido de oportunidade, D. Vasco Rodrigues de Abreu, o alcaide-mor de Monção, encontrava-se ausente noutras guerras, pelo que a sua mulher terá pegado nos últimos pães e, atirando-os do alto das muralhas aos inimigos, gritado: "Deus lo deu, Deus lo há dado".
Deu-la-deu Martins teve assim os seus quinze minutos de fama, que valeram a Monção livrar-se dos nossos então arqui-inimigos, convencidos estes de que existia fartura de mantimentos na cidade.
Ouve-se Vítor Gaspar e Passos Coelho, a propósito da não extensão a Portugal das vantagens concedidas à Grécia (mecanismo que, aliás, nem se percebe porquê que não foi negociado em Junho como automático, e não "a pedido") alegadamente em benefício de uma aliás, moralmente indecente, descolagem da Grécia, e pasma-se: mas pensarão eles, conduzidos por sábios conselhos alemães, que estamos no Séc. XIV, em que o fluxo de informação era absolutamente inexistente?
Como é que podemos pretender usar o truque da Deu-la-deu Martins para ludibriar os hiper-informados mercados do Sec. XXI, que sabem com a máxima exactidão a que distância estamos da Grécia? Acresce que, como se sabe, até a história da Deu-la-deu não passa de uma lenda...
De volta à barca do inferno
Costumo dizer que o T. tem um problema com a mãe que lhe saiu na rifa porquanto, gostando de ensinar, lhe coarto às vezes a possibilidade de estudar sozinho. Eu, egoísta, me confesso: não são todas as matérias que me interessam, mas em disciplinas como Português, História ou Inglês, se percebo que a matéria foi apreendida com insuficiente conexão de factos, ideias e conceitos, diverte-me tentar dar a volta à dificuldade, e esclarecê-la pelo lado que mais o possa surpreender, a ele e, se possível, também a mim.
O estudo para o último teste de Português foi uma diversão nesse aspecto: se não tive outro remédio que explorar com ele o lado moralista do "Auto da Barca do Inferno", o aporte de elementos de um curso de Direito com mais de vinte anos provocaram, pela primeira vez desde que no liceu estudei Gil Vicente, uma nova e animada comunicação entre o meu neuroniozinho literário e o jurídico (induzida pela libertação de alguma espécie de "serotonina intelectual", imagino).
Ele é o crime de usura praticado pelo Onzeneiro (que cobrava 11% de juros sobre os empréstimos) e o crime de especulação do Sapateiro que, por ser o único a exercer a profissão, cobrava preços exorbitantes. Ele é o crime de lenocídio da Alcoviteira, a qual se recusava embarcar na barca do inferno, defendendo que "criava as meninas pera os cónegos da Sé", um dos quais acabou também embarcado na mesma nave, todos para gaudio do diabo, perante a indiferença e desprezo da "boa alma" que era o anjo e, certamente, a gargalhada geral da assistência. Por fim, os crimes de corrupção e peculato do Corregedor.
Curiosamente, alguns daqueles costumes que Gil Vicente tão magistralmente resume, terão passado de apenas moralmente censuráveis nos séculos XV e XVI a óbvios crimes actualmente; outros nunca foram além da segredada intolerância judaico-cristã (como a infidelidade do Fidalgo). Outros passaram a ser criminalmente, mas também politicamente, rejeitados, como a tirania dos mais fortes pelo mais fracos de que, ainda que, fugazmente, foi acusado o mesmo fidalgo.
Uma gostosa, inesperada e reveladora segunda espreitadela à análise caustica de costumes, de Gil Vicente, foi o que ganhei com aquele teste de Português do meu adolescente preferido.
Das nossas âncoras particulares
Amanhã, a Senhor Merkel aterra em Portugal, para uma estadia de breves horas. O país divide-se, quanto à forma como receber a chanceler alemã, e se ela é ou não culpada do aprofundamento da crise europeia em geral, e portuguesa em particular.
Francamente, atingi um ponto em que já não me apetece procurar culpados, nem admitir ou recusar responsabilidades, nem tão pouco esperar que alguém seja capaz de resolver a situação. Dei comigo a pensar, ao invés, o que é que nos impede, aos portugueses, mas também aos restantes europeus, de virarem a mesa, e começarem do zero? De repente, percebi: Londres e Paris.
Numa passagem de um dos livros do Quarteto de Alexandria, "Mountolive" de L. Durrell (Ulisseia), uma das personagens, Clea, num momento que antecedia a 2ª Guerra Mundial, questionava-se, a certa altura, sobre a possibilidade de efectivamente existirem bombardeiros que destruíssem capitais inteiras. Comentando que sempre julgara que as invenções do homem reflectiam os seus secretos desejos e que, no fundo, todos desejavam o fim "desta civilização", acabava por concluir: "Sim, mas será doloroso perder Londres e Paris. Que acha?"
O que nos faz recear começar do zero, percebi só então o óbvio, é mesmo isso: cada um de nós, portugueses, mas também europeus, rejeita a ideia de perder as suas Londres e Paris particulares. É o pânico de que deixem de existir, pelo menos como as conhecemos, que nos mantém ancorados a uma União Europeia tão absurdamente vacilante nas suas convicções.
Resta saber se estas âncoras nos impedirão de sermos arrastados pela tempestade, ou se nos levarão a afundar à sua passagem.
Da vertigem de um ajustamento precipitado
É um estado de emergência total, próximo do de guerra, aquele em que vivemos? É, por isso, condição que temos de achar normal, a de que alguns tantos caiam hoje no campo de batalha da crise, para que outros sobrevivam no futuro? É por isso que, se nos preocuparmos com a mole imensa de desempregados de longa duração, no desespero do "desamparo aprendido", somos vistos como tendo falta de visão de futuro?
É neste sentido também que devemos encarar a refundação do entendimento com a troika? Um estado de urgência tal que, se for preciso, até a Constituição se altera? Nada tenho de princípio contra alterar a Constituição. Em minha opinião podia já ter sido feito. Mas é justo e avisado fazê-lo num momento em que pode ser o único escudo dos mais vulneráveis contra a devastação das suas vidas?
Fazê-lo agora, a quente, num momento de crise profunda, não será precisamente desistir de lhes dar, aos mais fragilizados, ou àqueles que, num futuro muito próximo, darão por si absolutamente impreparados para enfrentar este terramoto de Estado, o acesso a condições de vida minimamente dignas, à esperança de sequer viverem razoavelmente com muito pouco?
Suspeito intensamente da proposta de novos entendimentos que, por bem intencionados que sejam, tenham por único fim atingir as metas do déficite para 2014. As metas, sabe o governo como todos nós, são absolutamente inalcançáveis, pelo que me permito desconfiar que a "refundação", de que fala Passos Coelho, possa contribuir em mais do que uma gota de água para a redução do déficite. Antevejo, em contrapartida, um mar de desespero para uma grande parte da classe média, média-baixa e baixa, que passará a assumir para sempre a sua condição de desempregada, ou, caso mantenha ou consiga emprego, fugirá a todos os impostos que possa, porque se sente legitimada a não os pagar face aos, então, exíguos e medíocres serviços públicos à sua disposição.
A Islândia orgulha-se de ter recuperado de uma crise monumental sem ter prescindido do estado social. Mas para os portugueses, o estado social é coisa de nórdicos ricos e patéticos. Nós somos do sul, país pobre e periférico. Em Portugal, quando qualquer crise aperta, o povo, a primeira coisa que exige é a reinvenção de um Salazar, a imposição de um regime autoritário de qualquer cor ideológica, e os políticos, por seu turno, equacionam logo o desmantelamento do estado social, sem pensarem em propiciar aos mais desprotegidos, ou que nisso se transformem pela acção quixotesca de um governo, a possibilidade de viverem condignamente com as funções sociais do Estado em regime de serviços mínimos.
Preparamo-nos, portanto, para morder a mão que poderia dar aos mais carenciados algum consolo e alento para enfrentar os tempos difíceis que aí vêm. Num esforço enxangue, em lugar de negociarmos os juros usurários que nos cobram os nossos credores, insistimos em voltar ao salazarento "pobrezinhos mas honradinhos", de que falava João Galamba na discussão do Orçamento do Estado (deputado desse PS que, tal como o PSD, geriram anteriormente o país com a irresponsabilidade de um pobre de espírito a quem saiu o euromilhões com a cumplicidade dos restantes partidos), e que Vitor Gaspar repudiou, ofendido, apenas porque, aparentemente, sofre de uma ignorância lexical tão extensa, quanto são reconhecidamente grandes os seus conhecimentos de modelos económico-financeiros, confundindo "salazarento" com "salazarismo".
Sim, há que mudar de paradigma. Recusá-lo seria alimentar um "optimismo irrealista" que teria efeitos perversos. Mas a necessidade de mudança tem ser intuída pelas pessoas, para o que é imprescindível tempo, pelo menos algum tempo. Não se muda as agulhas do raciocínio colectivo como se fossem as das linhas do comboio, e "a prioridade a um ajustamento rápido" de que falava ontem o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, é uma leitura fria e desapiedada da realidade, que ele pode institucionalmente defender, mas que eu devo, eticamente, rejeitar.
Vivo a realidade dos meus dias, e essa diz-me que há já demasiados corpos no campo de batalha e que muitos mais se lhe juntarão. Sei que um dia esses corpos serão "retirados do quadro" - há uma cena notável no filme "Linhas de Wellington", em que o general Wellington insiste que o quadro da batalha tem demasiados corpos e sangue, e pouca glória, mandando refazê-lo. Hoje, todavia, enquanto escrevo isto, não tenho de ter contemplações para visões de generais aos quais, ainda por cima, não reconheço as capacidades de Wellington. Serei, portanto, o pintor que insiste em recriar o que vê, e não apenas o que outros querem mostrar.
Mudar paradigmas com ajustamentos rápidos é algo de obviamente ilusório e precipitado e, se o desmantelando de grande parte do estado social acabar por fazer, como fará certamente, parte desse reajustamento, é garantido que se vai, com a água do banho, a cultura, a educação, a saúde, bem como os benefícios sociais a um nível ética e socialmente aceitável, só porque é mais fácil, e sobretudo mais rápido, do que cirurgicamente eliminar ineficácias e, lentamente, deixar então que o crescimento e desenvolvimento económico permita que os privados tomem conta de parte possível das funções do Estado.
No fim, queiram os deuses que me engane porque muito gostaria poder, daqui a poucos meses, rir-me deste post, os credores continuarão descontentes connosco, exigirão ainda mais sacrifícios do que já cedemos de barato, e nem sequer nos poderemos orgulhar de um estado social eficaz, porque nessa altura estará tão anémico quanto os seus utentes.
Um enorme e estúpido desperdício
Emprestei o meu exemplar de um dos livros que integra com bastante destaque a galeria dos livros da minha vida, "Os meus sentimentos", de Dulce Maria Cardoso (Editora ASA), a uma amiga minha. Ela acabou por me pedir autorização para o emprestar por sua vez a uma amiga dela.
Quando mo devolveu, o volume vinha mais usado, suponho, porque em boa verdade nem me lembro em que condições lho emprestei. Pediu-me desculpa e quase nem reparei, mais interessava em saber se o teriam apreciado tanto quanto eu.
Agora, arrumando-o, depois de reler a admirável descriçao dos efeitos provocados nas amigas e parceiras de canasta de Alice, pela sua partida e morte no ultramar, que por diversas vezes me ocorreu no últimos tempos, por instantes tive vontade de tentar perceber quantos livros podia ter na minha estante que já tivessem assim maravilhado pelo menos três pessoas.
Que enorme e estúpido desperdício.
Notas de um dia findo
1. Acordei há pouco meia engripada e estremunhada no sofá da sala. Olhei para o ecrã da televisão. Lá estava mais uma daquelas enjoativas séries de polícia científica, "Mentes criminosas", confirmei, que lhes confundo os nomes, na vaga ideia de que contam histórias de polícias brilhantíssimos, que deduzem coisas muito para lá de Sherlock Holmes, mas que partilham com ele a astuciosa arte de humilharem a minha inteligência. Prestes a tocar no botão desligante, na direcção da cama...pára! Olhei segunda vez. O que é era aquilo?
Fiz um esforço de ligar o meu próprio botão acordante. Pesquisavam qualquer coisa sobre um povo perdido não sei de que país...em livros. Exactamente, numa pilha de livros com imagens, e não num relógio que tridimensionalmente lhes facultasse num segundo toda a informação necessária. Acendeu-se a minha luz refrescante.
2. Uma vez um psicólogo disse-me que em boa verdade precisamos apenas de dormir quatro horas por dia, que o resto é só necessário para descansar o corpo. O que importava seria saber exactamente quais elas fossem. 20 anos depois descobri que nasci para ermita. Ninguém tem amigos, nem família ou vida social de jeito se as suas quatro horas de sono começarem às 21 horas e terminarem à uma da manhã.
3. Distraída, desligava o computador no emprego, quando cai a notícia no meu quase arqueológico igoogle (a Google ameaça furiosamente retirá-lo de cena algures no final de 2013). Plim! Vítor Gaspar falará amanhã. Momento "Gasparzinho brincando de cowboy", imagina-se. Brinco: se Samaras disse hoje que ser primeiro ministro da Grécia é o cargo mais difícil que alguém pode exercer hoje em dia, o segundo lugar deste ranking vai certamente amanhã para o Ministro das finanças português (tudo isto porque mantemos da Europa a noção aristotélica do lugar que a terra ocupava no universo, bem entendido).
A saída da Grécia do euro seria sempre uma catástrofe
Para quem já descarta levianamente a Grécia da zona euro, talvez seja melhor (também) nas costas dos outros começar a ler as suas.
Por Ricardo Reis, Professor de Economia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, hoje mesmo no Dinheiro vivo.
http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO057428.html
Já estamos a chegar?
O T. , na aborrecência dos 14 anos, vinha ontem no carro a queixar-se: duas hora de viagem para fim de férias na aldeia. Optáramos pela A14, seguida da A17, o que significa que a viagem seria um pulinho em autoestradas praticamente desertas, construídas com três faixas, prevenindo um crescimento económico improbabilíssimo.
Os meus pais e eu só nos ríamos. De que te queixas tu, miúdo? Tu sabes lá o que era viajar "lá para cima" quando eu e o tio éramos pequenos? E enumerei: as curvas de Alenquer - de que o presépio gigante era o único atractivo, e ainda assim porque nos contentávamos com bem pouco; as curvas de Rio Maior atrás dos camiões que o pai insistia em ultrapassar, creio que para se entreter, para desespero da mãe. O frango na púcara em Alcobaça se a coisa corria bem, mas chegávamos mesmo a ter de almoçar no Carregado ainda.
E depois era viajar, viajar, viajar parecia que até à eternidade. Chegávamos ao destino quase à noite, por estradas esburacadas e, por vezes, até por trancos e barrancos já que a alguns troços faltava mesmo alcatrão. E os miúdos que éramos nós, lá atrás, sem cinto de segurança, aos gritos e desafios constantes entrecortados pela desesperante cantilena "já estamos a chegar?".
O meu pai riu-se e comentou: e vocês ainda tiveram sorte. Aqueles primeiros 25 km de autoestrada a partir de Lisboa fizeram grande diferença. Sabem lá o que era antes disso.
O T. engasgou... e eu também. É verdade, confirmei agora na Wikipedia: os primeiros 25 km de autoestrada Lisboa-Porto foram inaugurados apenas em 1961, alguns anos, poucos, antes de eu nascer, portanto. Só em 1977, três anos após o 25 de abril e nove anos antes da nossa entrada para a então Comunidade Económica Europeia, foi concluído o troço Vila Franca de Xira-Carregado, de apenas 6 Km.
Só em 1991, a A1, que liga as duas maiores cidades do país, ficou integralmente concluída com a entrada em serviço do troço Torres Novas-Condeixa. É certo que podemos dizer que andámos de cabeça perdida durante muitos anos, mas lembrar-me do suplício infantil daquelas viagens de um dia inteiro, relembra-me que partimos de um nível muito (demasiado) baixo.
Deitar conversa fora
Os brasileiros usam a expressão deliciosa "deitar conversa fora" que, só de ouvir, dá logo vontade de correr buscar umas caipirinhas e umas espreguiçadeiras confortáveis.
Esses senhores do outro lado do atlântico são muito mais criativos que nós, no que respeita a imagens para expressão de conceitos que usem o tempo. Este em concreto, aproximando-se dos nossos "falar só por falar" ou "as palavras são como as cerejas", tem uma conotação medida pela disponibilidade para uma conversa preguiçadinha, sem ordem de trabalhos ou prazo marcado, própria dos serões na província.
É uma conversa destinada a acabar, ou suavemente num soninho que embale, ou servindo de amuse bouche a um jantar delicado por onde acabe por se esgueirar acelerando o seu ritmo e crescendo em entusiasmo, ou até apenas numa vontade indefinida de a repetir.
"Deitar conversa fora" é como escrever ao correr da pena, com a vantagem de haver um interlocutor. O que nos lembra agora e o que nos esqueceu de contar noutras alturas. É uma interactividade saborosa, um jogo praticamante sem regras que não sejam a vontade de estar com quem estamos, de ouvir e dizer o que nos ocorre, divagando ou discorrendo sobre o que nos apetece.
Numa conversa assim, qualquer brisa está autorizada a mudar o seu rumo, ou a trazer o mesmo assunto de volta cinco minutos ou duas horas depois. Ou até mesmo nunca mais.
"Cândido" e " A vidente de Sevenwaters"
Estas férias, lembrei-me de um artigo delicioso que li recentemente, publicado em "Porquê ler os clássicos?", de Italo Calvino (Teorema), a propósito de "Candide" de Voltaire, intitulado "Candide ou a velocidade".
Diz-se ali: «No Candide hoje não é o conto filosófico que mais nos encanta, não é a sátira, não é o tomar a forma de uma moral e de uma visão do mundo: é o ritmo. Com velocidade e leveza, uma sucessão de desgraças, suplícios e massacres corre pela página, faz ricochete de capítulo em capítulo, ramifica-se e multiplica-se sem provocar na emotividade do leitor outro efeito que não seja uma vitalidade hilariante e primordial". E prossegue, explicando como é possível em três páginas ser relatado como Conegundes viu esquartejados pai e mãe pelos invasores, foi violada, esventrada, comprada, reduzida à condição de lavadeira, objecto de comércio na Holanda e Portugal, partilhada em dias alternados por dois protectores de fé diferentes e mais, e mais e mais.... quem já leu reconhecerá com um sorriso o quanto esta caracterização é absolutamente verdadeira.
Comiam-se bolas de berlim na praia, e o T. - na idade em que qualquer livro de 100 páginas é um tédio do tamanho de dois universos - lia "A vidente de Sevenwaters", de Juliete Marillier (Planeta), de 400 páginas.
Banhos de mar, e corrida para a toalha para dez páginas. De manhã cedo, caminhava estremunhado para a sala, olhava-me de esguelha e lá iam mais umas tantas. Antes do almoço, bom pretexto para se escusar a pôr a mesa, e depois, bem aproveitada a minha perplexidade para levantar apenas o seu prato, isolava-se para ler duas boas horas. À noite, nada o demovia da leitura, preteridos jogos, conversas e televisão. Quatro dias e meio, 400 páginas! O filho da minha amiga que lho emprestara ria por lhe ter acontecido o mesmo.
Stop. Stop. Como não devem estar à espera que leia um livro com personagens videntes que não me atrai para perceber o que se passa, alguém me explica o que tem este? Ambos, em uníssono: ritmo, ritmo, é sempre a andar, não tem engonhices, estão sempre a acontecer coisas, queremos sempre saber o que vem a seguir, porque vêm sempre mais e mais coisas.
Velocidade. Vertigem. Nada se inventa, claro. É só seguir os clássicos. Mas duvido que a senhora Marillier tenha feito melhor que Voltaire, pelo que um dia destes terei de apresentar ao T. o "Cândido".
Telhados de vidro
Se houve cançoneta que sempre me buliu com o sistema nervoso foi a "Casa portuguesa" **(passo qualquer comentário sobre a definição de casa portuguesa de Raúl Lino, que não me lembro de lhe ler notas sobre S. Josés de azulejo ou duas raquíticas rosas no jardim).
A pobreza simultaneamente envergonhada e honradinha, tranvestida de grandiosa generosidade, expressa no verso " a alegria da pobreza está nessa grande riqueza de dar e ficar contente" é de uma tamanha indigência espiritual que, se a justiça fosse justiça, nem por um buraco do tamanho do Oceano Atlântico haveria de entrar no reino de qualquer céu (dar, não nos deixa felizes, sejamos ricos ou pobres?).
O apelo à pequenez portuguesa, pequenez essa que Maria Filomena Mónica tem por fatalidade nacional na crónica de ontem do "Expresso", "Educação e Desenvolvimento Económico" - por muito que a senhora me caia no gôto, e cai, até eu tenho de admitir que por vezes exagera, como neste caso, quando diz desabridamente que Portugal nem com muita instrução lá vai, não se questionando se a instrução apenas não foi no sentido certo, nos últimos 30 anos - começa a ser bandeira deste governo.
Mau é ser apanhado na espiral do empobrecimento. Pior, é ouvir de quem nos governa, que isso não só é inevitável, como é até desejável, sem que se explique exactamente porquê, uma vez que nunca vamos ser tão pobres como os chineses e, portanto, nunca tão competitivos como eles.
E desculpe-me o mundo, mas a renovação do ideal do pobrezinho mas honradinho não é sequer uma tradução mesmo que livre de teses neoliberais: trata-se simplesmente de uma decadente teoria salazarista, a cheirar a naftalina, a que o governo recorre por default, à míngua de ideais e mecanismos imaginativos e profícuos, que melhor respondam às exigências da troika.
No "Público" de hoje, a insuspeita, porque europeísta, jornalista Teresa de Sousa, depois de reconhecer que o Executivo de Passos Coelho está a ganhar na imagem externa do país, aponta, certeira, e retribuindo mesmo em dobro, o facto de internamente o governo atirar à cara dos elos sempre mais fracos da sociedade portuguesa, as virtudes de uma "vida modesta":
"(...) O segundo [discurso do governo] é corporizado por alguns ministros da parte "popular" da coligação mas também por alguns sectores ditos "liberais" do PSD. É, simultaneamente, o elogio e o castigo da pobreza como ideologia nacional. O elogio do empobrecimento de uma classe média que se habituou a ter carro e férias lá fora, que se sentiu com esse direito, mas que afinal não o tinha. O regresso à vida "modesta" parece ser a única ideia que têm para equilibrar as contas públicas e aumentar a competitividade. No fundo, é o único argumento que podem apresentar para justificar o peso brutal dos impostos sobre a classe média e a deflação salarial a que passou a estar sujeita, mais a redução de algumas garantias sociais que servem para cortar as despesas do Estado, o que está certo, mas que são apresentadas como combate às mordomias e aos excessos. É aqui que entra o castigo da pobreza. Esta ideologia redentora das virtualidades do empobrecimento é a mesma que faz dela um pecado individual que é necessário punir. A sua expressão mais revoltante é, por exemplo, o vezo com que se quer castigar os detentores do RSI - obrigados a trabalhar "voluntariamente", não porque o trabalho seja a forma de saírem da dependência mas porque é o castigo que merecem. E nem sequer me vou dar ao trabalho de fazer a ressalva de bom-tom: que há sempre abusos e que é preciso combatê-los. Abusos? Que abusos quando o país fica a saber que o Ministério Público está a investigar suspeitas de práticas de inside trading nas duas grandes privatizações que foram o emblema do Governo? Esta perseguição aos mais pobres e esta "responsabilização" dos excessos da classe média (desde que não seja eu...) tem também a sua versão "liberal" na caça às facturas dos cabeleireiros e dos electricistas, apresentados como gente que não perde uma ocasião para defraudar o Estado, mas cuja maior diferença é não terem acesso a um poderoso escritório de advogados para lhes permitir contornar da melhor forma (absolutamente legal) os impostos. Demagogia? Seria, se não estivéssemos perante uma realidade em que o rigor e a moralização dos costumes apenas se aplicam a uma parte, por sinal a mais fraca.
Falta a terceira componente desta mistura perigosa: justamente o discurso liberal de Pedro Passos Coelho. Também ele se evaporou contra uma realidade que é mais complexa do que a ideologia, contra as coisas que estão a correr mal e contra a incapacidade de alguns dos seus ministros mais liberais vindos das melhores escolas anglo-saxónicas. Perdeu o rumo ou a compostura, como se quiser, quando reagiu a quente à decisão do TC sobre os subsídios da função pública, não hesitando em lançar a pior das ameaças: se não querem perder os subsídios, então vamos cortar na saúde e na educação. E por que não nas PPP ou nas rendas vergonhosas de alguns sectores da economia? (...)».
** Há uma versão com, apesar de tudo, bastantes mais charme de Amália; mas como vivo de mal com a canção, quem quiser terá de a pesquisar no youtube.
Do paradigma de viver bem com pouco
KAL's cartoon - The Economist - 26.05.2012 |
Os alemães, os holandeses, os finlandeses vivem bem com pouco? Os franceses, os portugueses, os gregos, os espanhóis, os italianos só vivem bem com muito? A resposta do cartoonista é óbvia nas expressões dos bonecos, e fará sorrir os países do sul: vive-se bem com pouco, sim, mas não se é lá muito feliz.
Austera, comendo apenas uma salsicha e sem mordomias, A. Merkel ostenta um ar mais mal-disposto que F. Hollande. Este, apesar de comprometido sob o olhar acusador da chanceler alemã, parece faustosamente de bem melhor com a vida.
Cartoon à parte, dei comigo a pensar se, no afã da poupança, os eficazes povos do norte não serão de facto felizes apesar de viverem com pouco. E posso com facilidade admitir que sim, porque se trata de um esforço bem sucedido feito de bons hábitos de trabalho e organização, empenho, tradição, religião, espírito de austero sacrifício, seja o que for.
E a partir daqui foi um saltinho: mas se são felizes, não será porque, apesar de tudo, vivem com "o pouco" à alemã/sueca/dinamarquesa? Viveriam igualmente bem com "o pouco" à portuguesa ou à grega?
É que, paradoxalmente, por muito que se simpatize com o paradigma, há que reconhecer que é um ideal de países ricos: ao absurdo, "viver bem com pouco" na Alemanha, na Holanda ou na Suécia será sempre viver muito melhor do que seria viver com bastante mais até, por exemplo, no Bangladesh.
Em Portugal, pode ser um exercício redentor para famílias que, apesar de tudo, conseguem manter a cabeça à tona de água; não é, porém, aplicável às de menores recursos, supremamente afectadas pelas crises que assolam as nações periféricas da Europa.
Em países falhos de sólidas instituições de welfare state, serviços comunitários bem organizados e eficientes transportes públicos, como é o caso de Portugal ou da Grécia, para os menos favorecidos "viver com pouco" dificilmente será sinónimo de "viver bem". Será provavelmente, e ao invés, o regresso a níveis impensáveis de mera sobrevivência.
E isto pelo menos até que, daqui a muito tempo e à custa do sacrifício, quem sabe, se de muitas vidas até, as economias desses países ganhem músculo que finalmente permita àqueles menos favorecidos viverem bem mesmo que com pouco.
E isto pelo menos até que, daqui a muito tempo e à custa do sacrifício, quem sabe, se de muitas vidas até, as economias desses países ganhem músculo que finalmente permita àqueles menos favorecidos viverem bem mesmo que com pouco.
"Peço desculpa"
Fiz há pouco um exercício divertido: googlei a frase "pede desculpa" e obtive milhares de resultados.
Este fenómeno global das sociedades democráticas (abjectos regimes autoritários nem para este comentário contam, bem entendido) de se dizer, fazer, mandar fazer, perceber que se fez contra as nossas ordens, ou ao sabor do nosso desleixo ou distracção, graves dislates que seria bem melhor que não tivessem sido ditos ou feitos, - de que são exemplos, Bush e os abusos cometidos por soldados americanos sobre detidos iraquianos, o rei de Espanha e a matança dos elefantes, Christine Lagarde e as crianças gregas, Relvas e o Público (mas há tantos mais!) - e logo a seguir apenas pedir desculpas públicas, não será um exercício perfeitamente pueril se levado a cabo por pessoas com responsabilidades nacionais ou mundiais?
Antigamente, ficava para a História quem pedisse desculpa na firme intenção de assumir as consequências do pedido. Se Egas Moniz não se tivesse apresentado a D. Afonso VII de Leão e Castela, com a família, todos com uma corda ao pescoço, e apenas tivesse pedido desculpas pelos actos de rebelião de D. Afonso Henriques - ou se pelo menos a lenda não fosse essa - alguém recordaria o episódio? Foram os baraços que lavaram a honra de Egas Moniz, não o pedido de desculpas.
Hoje em dia, como a honra do seu titular parece beneficiar da condição inatacavelmente imaculada do cargo público que ocupa, e não o inverso, e na frenética tentativa de não se entrar para a História pelas piores razões, começa por se pedir desculpas publicamente, e depois acende-se uma vela para que alguém faça uma asneira ainda maior num período inferior a dois dias - o que é uma consabida probabilidade no mundo mediatizado em que vivemos.
Por fim, o que foi dito ficou dito, o que foi feito ficou feito, mas como já não se fala do assunto pervalece a consoladora convicção, pelo menos por algum tempo, de um redentor rewind. E todos aos seus postos.
Sai a matéria toda!
Ontem, o T. chegou a casa irritado. Afinal, ao contrário do que o professor de História dissera, não saíra a "matéria toda" no teste.
Eu, como o miúdo, nada teríamos a opor a que, de facto, saísse a matéria toda, se fosse esse o critério do professor. Todavia, se o teste contemplava apenas as últimas oito páginas do livro, não seria mais lógico que tivesse indicado uma parte do programa da disciplina, e daí escolhesse os temas do teste no âmbito da sua legítima discricionaridade?
O "sai a matéria toda" faz parte do ciclo do desperdício improdutivo de energia intelectual em que nos deixamos cair, traduzido em tempo gasto pelos alunos a circunscrever, por dedução, o que sai num teste, e na ansiedade gerada pela incerteza quanto à restante matéria.
É uma tradição parola e obscurantista, que nada rompe: cria nos professores a falsa e patética convicção de competência, porque escondem dos alunos informação relevante para desenvolverem os seus estudos, e faz de cada aluno um cábula que só estuda o que presume que saia (nomeadamente porque pergunta aos colegas de turmas que já fizeram teste), com o correspondente sentimento de culpa de não ter estudado o bastante.
Há algum resquício de salazarismo nesta falta de transparência: se eu, professor, indico a matéria que efectivamente pode sair, todos os alunos têm 100%. Como se isto fosse verdade, em Portugal, ou em qualquer parte do mundo!
Com o conhecimento prévio do programa - não vejo razão para que o primeiro dia de aulas não seja entregue a cada aluno uma cópia detalhada do programa de cada disciplina - os alunos têm acesso à informação dos conhecimentos a adquirir até ao final do ano. Não têm, só por isso, conhecimento automático dos assuntos leccionados, o que só logra quem assiste às aulas daquele professor - porque nenhum ensina do mesmo modo - e estuda em casa. Mais, não haver dúvidas quanto aos temas a abordar no teste incentiva naturalmente o aprofundamento do seu estudo.
Pode dizer-se que a informação prévia e pormenorizada dos programas por parte alunos induz melhores notas em geral? Obviamente, porque permite uma melhor sistematização do que nos propomos estudar e portanto uma melhor aquisição e consolidação de conhecimentos. Todavia, não é esse o objectivo do ensino? Repito: mas não é esse precisamente o objectivo do ensino, sobretudo ao nível do básico e do secundário?
Igualde entre os sexos: só a indiferença é sinónimo de deferência
| REUTERS/Pascal Rossignol |
Jean-Marc Ayrault, em França, conseguiu a paridade no governo recentemente formado, tal como prometido eleitoralmente por François Hollande. Como fez? Contou 17 homens para um lado, 17 mulheres para outro e chamou-lhe um governo paritário.
Como sou mulher, defendo a igualdade entre sexos e sou absolutamente contra a discriminação feminina, estou à vontade para dizer que acho que Hollande e Ayrault sabem fazer contas, são politicamente correctos, mas assumiram uma inaceitável atitude paternalista e portanto perversa no que concerne à igualdade no respeito por homens e mulheres.
O que aquela contabilidade me diz é que Hollande/Ayrault não procuraram um governo competente na mais respeitosa indiferença pelo sexo dos ministros, mas um governo apenas paritário. E isso não é necessariamente uma boa opção por muitos aplausos que suscite. Nem má, aceite-se, mas é suspeita: quem é que me garante que não se preferiu em alguns casos prejudicar a competência de um ou outro ministério, em benefício da paridade formal do governo? Não haveria dois homens mais aptos para os cargos que foram ocupados por duas mulheres, ou duas mulheres que fizessem um melhor lugar que dois dos homens escolhidos?
É claro que sei que isto faz parte de uma estratégia dos países democráticos para darem o exemplo de promoção das mulheres na sociedade. Mas será que esta paridade extremada não é tão plástica e ridícula como seria ter escolhido 17 ministros adeptos do Paris Saint-Germain e 17 do Monpellier Hérault?
Um governo não é propriamente um corpo de dança de tango ou valsa. Não precisa de parelhas.Os ministros de qualquer dos sexos distinguem-se pela personalidade, capacidade de trabalho, inteligência e aptidão para aos cargos que vão exercer. Ter evitado este exagero na procura da igualdade formal (sobretudo quando a material está prejudicada, porque as pastas mais importantes foram entregues a homens) seria obstar a que fosse sub-liminarmente lançado sobre as mulheres membros do governo - ou pelo menos sobre algumas delas - o opróbrio de exercerem um cargo para que um qualquer homem seria mais apto.
A indiferença pela absoluta paridade teria revelado bem mais deferência pela inteligência feminina e pelo seu actual estatuto nas sociedades ocidentais que esta paridade manifestamente esforçada.
Não me digas mal dele
Não me digas nada dele que eu não queira saber. Que pense mal quem quiser, mas não eu, que nada saberei. Não me peças para acrescentar defeitos contados aos que sempre lhe conheci.
As fraquezas de quem gostamos têm medida ínfima e vaga, esfoladela pontilhada num joelho de criança. Esse é o seu justo e rigoroso limite.
Não quero saber o que fez. Se fez, fê-lo certamente por bem. Se foi por maldade, não lhe serei imune. É um risco? Ah, bem sei.
Dia das mentiras
Acordo em Portugal, no dia 1 de abril de 2012, e até se diria mentira. Mais uma vez, como em tantas outras da nossa História, estamos paralizados, manietados e manipulados por uma receita que tem levado o Estado português a sucessivos enganos e desenganos: fazer mal aquilo que se convence que faz por bem.
Amanhã, 2 de abril, já não será dia das mentiras.
Ortográficos sentimentos
No local onde trabalho, creio que não houve despacho superior, imposição ou sequer alerta, para a obrigatoriedade do uso da nova ortografia da língua portuguesa. Ou se houve, o que relevou foi a ditadura informática. Instalou-se um programa novo que indica, a ondulados encarnados, que está incorrecta a palavra que sempre escrevemos daquela forma. Percebemos a mensagem.
Como já passou algum tempo sobre a instalação do programa, posso afirmar com propriedade e sem paixão linguística (que seria erroneamente indiciadora de uma erudição que não tenho): para mim, é inestético escrever as palavras "óptimo" e "excepcional" sem p, porque lhes retira grandiosidade, tal como descaracteriza as palavras "actual", "correcção" ou "acepção", escrevê-las sem c.
Em relação à palavra "acto", acho mesmo amesquinhante tornar homógrafa do substantivo de um verbo nobre como é o "agir"- porque se segue conceptualmente ao verbo "pensar"- a palavra correspondente à primeira pessoa do presente do indicativo do verbo atar (ato). .
Mas se há alguma lógica nisto tudo, e até sei que há, e se tem de ser, pois que seja, que em pouco tempo, acredito, me vai parecer tão arcaico escrever "acção" com c, como farmácia com ph (a par do papel azul de 25 linhas, dos telefones de disco ou do restaurador Olex).
Dito isto, duas ressalvas. A primeira, para a palavra "pára", imposta sem acento.Por mim, bem pode o onduladinho barafustar e a linguística justificar, porque se alguma vez escrever "pára!" há-de ser com acento. Não escreverei "para!", ou qualquer frase semelhante a "ela para para ver a banda passar", nunca. Haja bom senso.
Segunda ressalva. As estações do ano, mas sobretudo os meses ganharam com o facto de passarem a ser escritos com letra minúscula. Já o adoptei mesmo neste blogue. Não só porque escrever março com minúscula faz de março uma palavra mais acolhedora e menos distante, como também porque não vejo qualquer razão para descriminar os dias da semana em relação aos meses, escrevendo sábado com minúscula e setembro com maiúscula.
Excertos literários da minha vida (14)
Antonio Tabbuchi
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Mulher de Porto Pim, Antonio Tabucchi, Difel, Tradução de Maria Emília Marques Mano
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