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Como uma meada de lã


Um adolescente pode ser como uma meada de lã. Começamos por a olhar sem lhe encontrar a ponta. Depois, descobrimo-la e puxa-mo-la. Pensamos que fomos espertos. Não era fácil, mas ali está a meada a desenrolar-se em direção ao novelo. De repente, ficamos com um fio solto na mão. Ah, estava cortado. Muito bem, recomecemos. Mas onde estará a nova ponta? Cá está. Desta vez, está tudo controlado. Ooops... são afinal uns míseros centímetros de fio. Ora, vamos lá. Agora é que é. Não? Como não? De novo. Mais uma vez. Quinta vez. Décima, vigésima segunda, quinquagésima nona vez. Vezes, vezes, vezes sem conta. Só quando os patinhos, feios e desengonçados, passam a jovens e belos cisnes é que percebemos que valeu a pena passar uma adolescência inteira a desenrolar fios partidos de uma meada, que chegámos a pensar que não teria fim.

O que não estiver nos livros da escola, não sabe


Conversa ao jantar de um dia destes, entre mãe curiosa do que pensam cabecinhas adolescentes, e filho de 14 anos que se presta a estas conversas, não porque seja nerd, mas por desfastio, porque não há televisão na cozinha.
- Quem é o melhor aluno da tua turma?
- Não sei o A., o J., o R...quer dizer, o R. é muito bom, estuda muito mas, faz impressão, parece que lhe falta... cultura geral.
- Cultura geral? Como assim? - ri-me, pensando na cultura geral que acho sempre que o meu próprio querido adolescente não tem.
- Não sabe coisas que ...é estranho, o que não estiver nos livros da escola, não sabe....
- Se calhar, não tem pais e avós, como tu tens, que lhe respondam a todas as perguntas e mais uma que se lembre de fazer, ou que saibam pelo menos onde ir procurar as respostas.
O miúdo olhou-me, atónito, por entre duas garfadas finais.
- É, pode ser. Nunca tinha pensado nisso. Isso é importante, não é?
Encolhi os ombros.
- Se for por isso que o R. é assim, é mesmo mais importante do que é justo para ele. Pode chegar exactamente onde vocês chegarem, mas com muito mais esforço. É, aliás, uma vantagem que tu desperdiças vezes demais, já reparaste?
- Hum, hum...posso levantar-me da mesa e ir jogar?
Suspirei. Mãe que é chata para pregar sabatinas à mínima, é obviamente mãe que é chata para assentir, bandeira branca ao vento, mas dizer de imediato: "- Desde que levantes a mesa!".

"Cândido" e " A vidente de Sevenwaters"


Estas férias, lembrei-me de um artigo delicioso que li recentemente, publicado em "Porquê ler os clássicos?", de Italo Calvino (Teorema), a propósito de "Candide" de Voltaire, intitulado "Candide ou a velocidade".

Diz-se ali: «No Candide hoje não é o conto filosófico que mais nos encanta, não é a sátira, não é o tomar a forma de uma moral e de uma visão do mundo: é o ritmo. Com velocidade e leveza, uma sucessão de desgraças, suplícios e massacres corre pela página, faz ricochete de capítulo em capítulo, ramifica-se e multiplica-se sem provocar na emotividade do leitor outro efeito que não seja uma vitalidade hilariante e primordial". E prossegue, explicando como é possível em três páginas ser relatado como Conegundes viu esquartejados pai e mãe pelos invasores, foi violada, esventrada, comprada, reduzida à condição de lavadeira, objecto de comércio na Holanda e Portugal, partilhada em dias alternados por dois protectores de fé diferentes e mais, e mais e mais.... quem já leu reconhecerá com um sorriso o quanto esta caracterização é absolutamente verdadeira.

Comiam-se bolas de berlim na praia, e o T. - na idade em que qualquer livro de 100 páginas é um tédio do tamanho de dois universos - lia "A vidente de Sevenwaters", de Juliete Marillier (Planeta), de 400 páginas.

Banhos de mar, e corrida para a toalha para dez páginas. De manhã cedo, caminhava estremunhado para a sala, olhava-me de esguelha e lá iam mais umas tantas. Antes do almoço, bom pretexto para se escusar a pôr a mesa, e depois, bem aproveitada a minha perplexidade para levantar apenas o seu prato, isolava-se para ler duas boas horas. À noite, nada o demovia da leitura, preteridos jogos, conversas e televisão. Quatro dias e meio, 400 páginas! O filho da minha amiga que lho emprestara ria por lhe ter acontecido o mesmo.

Stop. Stop. Como não devem estar à espera que leia um livro com personagens videntes que não me atrai para perceber o que se passa, alguém me explica o que tem este? Ambos, em uníssono: ritmo, ritmo, é sempre a andar, não tem engonhices, estão sempre a acontecer coisas, queremos sempre saber o que vem a seguir, porque vêm sempre mais e mais coisas.

Velocidade. Vertigem. Nada se inventa, claro. É só seguir os clássicos. Mas duvido que a senhora Marillier tenha feito melhor que Voltaire, pelo que um dia destes terei de apresentar ao T. o "Cândido".

34 anos de diferença...


- O livro tem o teu nome e um número de telefone!
- Quando eu tinha a tua idade andava sempre com os livros atrás...como tinha medo de os perder, punha-lhes o número de telefone.
- Do telemóvel?
- Não, o de casa. Não havia ainda telemóveis.
- Devia valer de muito...nunca estavas em casa.
- Enfim, se telefonassem eu saberia porque...
- Como é que vocês faziam isso? Andavam com o fixo no bolso?

Não há melhor educadora do que a mãe?


1. Não me preocupa particularmente o que diz o Cardeal Manuel Monteiro de Castro, que não é da minha Igreja (aliás, nem tenho Igreja, nem partido, o que me tem poupado alguns dissabores).
2. Em minha opinião, eu teria educado bastante bem o meu filho, se tivesse optado por ficar em casa a educá-lo, é um facto. Grata pelo voto de confiança.
3. O Senhor Cardeal não pode, contudo, dizer que isso teria sido o melhor para o meu filho - e consequentemente para a sociedade - porque não me conhece: posso ser uma pessoa sem princípios ou valores, o que faria de mim uma péssima educadora.
4. Acresce que não pode ter a certeza que eu preferisse ter ficado em casa mesmo que me fosse pago um salário, porque trabalhar, por sorte, é para mim também uma opção de vida que, não tenho dúvidas, muito valoriza a minha contribuição para a sua educação.
5. Também não percebo por que razão há-de desconsiderar o pai do meu filho. Por acaso, até tenho  ideia de que o poderia ter criado bastante bem, se tivesse sido essa a sua escolha.
6. Do mesmo passo, não vejo como saberá que o meu filho teria preferido ser educado apenas por mim, e não por um número diversificado de pessoas, como sejam, para além de mim, o pai - porque os pais agora também se empenham, Senhor Cardeal - avós e escolas/colégios. Acabei, aliás, de lhe colocar a questão: "- Claro que preferia ter sido educado por todos, como fui!".

O sol é que nos faz

Cada nova iorquino tem (ou pelo menos tinha) um psiquiatra e exibia-o comicamente como uma medalha própria de intelectuais, leia-se, dos que pensam. Woody Allen passou por um período em que parodiava magistralmente essa mania exagerada, mas apesar de ser um realizador mais amado na Europa que nos EUA, não conseguiu, pelo menos em Portugal, vulgarizar a ideia da ida ao "shrink" - ou se calhar até contribuiu, em certas camadas sociais, para a ridicularizar ainda mais - da mesma maneira que se vai a um ortopedista porque se tem os pés tortos.

A rejeição liminar de uma visita de uma criança ou adolescente a um psiquiatra ou psicólogo é própria de muitos pais portugueses, e a desconfiança tacanha relativamente àqueles que levam lá os seus, só encontra paralelo no apreço pela iliteracia, ou quase iliteracia, salazarista, de que é paradigma a deliciosa letra da canção dos «Rio Grande»: " (...) o pai diz que o sol é que nos faz, a mãe manda-me ler a lição".

Para esse tipo de português, levar uma criança a um psicólogo ou psiquiatra é sinal de fraqueza, já que qualquer problema infantil ou de adolescente, ou se resolve naturalmente - tal como a forma de ganhar a vida na canção - isto é "com uma fisga no bolso de trás", ou com uns sopapos bem ferrados a miúdos que saem da norma e/ou alegam "sofrimentos psicológicos" que obviamente só estão na sua cabeça, e portanto são de menorizar.

Tenho mesmo ouvido pais dizerem que levar um filho a uma consulta de psiquiatria ou psicólogo corresponde a demitirem-se do seu papel de pais. Eles é que sabem o que é o melhor para os seus filhos e consideram-se aptos, apenas pela sua condição de pais, a resolverem sofrimentos psíquicos mais ou menos crónicos ou desvios comportamentais evidentes.

Curiosamente, já vi vezes demais até, muitos pais de jovens adultos a arrependerem-se mil vezes de não terem levado os filhos a especialistas na altura certa - isto é, quando algumas simples palavras ou indicações de quem sabe do seu ofício teriam resolvido, porque antecipado, problemas que mais tarde se revelam difíceis ou até impossíveis de debelar. Não me lembro, todavia, de ter ouvido nenhum pai revelar qualquer remorso de lá ter levado um filho, e ter saído da consulta com um diagnóstico de "é normal, é uma fase, a explicação para isso é simples e é a seguinte...", ou "sim, há um problema, vamos tentar resolver".

Porém, como dizia o rei ao seu conselheiro, por favor dê-me soluções viáveis, não me diga para mudar mentalidades.

Ainda bem que eu não sou mãe

- Hoje, podias aspirar parte da casa, enquanto eu faço o resto das coisas?
Respirou fundo, mas nem má-vontade se poderia chamar ao esgar.
- Sim, claro.
Pega no aspirador. Explico como deve fazer e fiscalizo pelo canto do olho com pequenas indicações. O quarto dele, o meu, o hall, tudo a eito e com algum método. Quando chegou a vez da cozinha, o enfado e o cansaço haviam-se definitivamente instalado.
-Já está. Posso ir?
-Podes. Está feito. Obrigada.
Corre para o quarto e já de skate alinhado transversalmente à anca, abrindo a porta da rua:
-Seca de trabalho! Ainda bem que eu não sou mãe.

Como eles nos vêem

- A mãe foi à praia? - Fui. - E foi ao banho? - Nahhh... - (Gargalhada)... Pois, claro, só mergulhou nos pensamentos de um livro, não foi?

Um jogo de atropelar pessoas

No início, eram os contos de tradição oral. Ninguém os escrevia. Por natureza, passavam de boca em boca, de pais para filhos de avós para netos. Depois Esopo (séc. VI a.c.) terá escrito as suas fábulas morais e, muito depois, La Fontaine terá reescrito umas tantas e inventado outras mais (acho). Os valores da religião judaico-cristã - apesar de todos os defeitos que reconheço à própria religião - iam fazendo o resto, senão mesmo o principal.

Intuía-se a evidência de que a ética, sobretudo a ética das relações sociais não é inata, ensina-se. Podia ou não ser apreendida, mas não era deixada ao acaso pelos ascendentes, porque a sociedade sabia que essa atitude acabaria por destruir os seus alicerces.

Depois, a mesma sociedade urbanizou-se, sub-urbanizou, stressou-se e, não contente, ainda se subalternizou às altas tecnologias. Sem tempo, disponibilidade ou paciência, os pais começaram a deixar os filhos serem educados exclusivamente pela escola, permitindo por outro lado que o seu entretenimento, não apenas se complementasse, mas que se circunscrevesse mesmo, e apenas, à televisão, aos jogos e aos amigos com iguais interesses. Os avós, a quem era, até então, deixada quantas vezes grande parte dessa tarefa, e o faziam de acordo com os canônes tradicionais tidos por valores seguros, foram relegados para o lugar «daqueles que não percebem nada disto» porque estão «desactualizados»...

As leituras, próprias dos meios urbano-burgueses, os contos tradicionais morais transmitidos pelos avós da ruralidade portuguesa, aos miúdos com «a fisga no bolso detrás», enquanto os pais trabalhavam nos campos, desvaneceram-se, assim ,nas curvas do tempo - em, aliás, uma ou duas gerações, não mais - e agora já ninguém sabe onde está nada.

Há conceitos que, para os miúdos, já não fazem sentido. Honra, lealdade, brio, respeito, boa-educação, controlo do mau-génio, honestidade, dignidade humana, bondade e compaixão pelos outros são virtudes esquecidas, penhoradas a um passado que, tantas vezes, se despreza. Os próprios pais, criados ainda nesses valores, parecem hesitar perante um «ó mãe, o que é que isso interessa, não percebes nada disto, eu fiquei com o boneco e isso é que importa», ou qualquer coisa do género.

E não vale a pena ter ilusões de que há coisas que só acontecem aos outros. No outro dia, o meu petiz-adolescente jogava um jogo de consola inacreditável: ganhavam-se pontos a atropelar pessoas com os carros. Sou atenta, mas confesso que o facto de o jogo ter sido trazido por um amigo dele que tenho em boa conta, me fez aliviar a vigilância. Quando me apercebi, já o amigo se tinha ido embora e haviam passado a tarde naquilo. Respirei fundo, a culpa também era um pouco minha, havia que ter calma:

- Um jogo de atropelar pessoas? Mas estás louco?
- Que mal é que faz?
- As pessoas têm dignidade própria. Nem em jogos se matam gratuitamente.
- Ó mãe!! O que é que isso interessa? Acha que eu vou para o meio da rua matar pessoas? Acha que eu não sei que não se matam pessoas? Toda a gente joga isto. Isto é só um jogo.

Insisti, expliquei e acabei por desistir de o fazer entender, usando pura e simplesmente, o argumento final: estás proibido de o jogar!

Ele não lê, ou lê muito pouco, ele não vai à missa - onde, para o bem e para o mal, sempre seria desbravado algum caminho na distinção, com alguma clareza, do bem e o mal segundo os valores judaico-cristãos -a escola, apesar de mediamente vigilante, é necessariamente difusa na transmissão destes valores, os conteúdos televisivos que eles apreciam são o desastre que se lhes reconhece, os jogos de que eles gostam não têm qualquer densidade ética, muito pelo contrário, pelo que aos pais cabe em primeira linha aquela que, não nego, é a nossa principal missão - educar os nossos filhos.

O problema todavia não é fazê-lo: é fazê-lo com a firmeza necessária para contrariar a avalanche de valores negativos que, sob forma apelativa, os garotos recebem diariamente de uma sociedade submersa em consumismo e paralisada pela inércia, hesitações e, mesmo, omissões éticas repugnantes.

Mas há que não desistir, os pais não podem sucumbir ao laxismo facilitista, pondo em causa os valores sólidos que lhes foram transmitidos pelos seus próprios pais, sob pena de a humanidade acabar mesmo antes de se extinguir.

Flinstonemania

-O que é a pré-história?
- Não sei...
- É a História antes de...
- Dos computadores?..

T. (Calvin versão pré-adolescente)

Estranhos açorianos

-Mãe, os açorianos falam de uma forma estranha...
Tinha ido buscá-lo ao ATL, onde passara já alguns dias com outros miúdos de Angra enquanto eu trabalhava, pelo fiquei vagamente perplexa com a observação
- É, têm uma pronúncia um pouco diferente da nossa. Só reparaste agora?
-Eu sei, não é isso...dizem «montes»...
- Montes?! Montes de quê? Montes de coisas? Enfim, não é muito correcto, mas eu por exemplo digo-o muitas vezes, tu sabes.
-Não é isso, mãe...dizem «montes de fixe»...
- «Montes de fixe»? Ah, estou a ver. E como é que se deve dizer?
- «Bué da fixe», claro!

Mãe entre folhas

- Mãe, mãe, mãe...mãeeeeeee?!
À terceira ou quarta(creio) ouvi, mas não me apeteceu responder, na expectativa de mais um minuto para acabar o parágrafo do livro. Tocou-me no ombro.
-A mãe não me estava a ouvir?
Espreguicei-me na cama e sorri, desistindo da leitura do parágrafo da forma suave que algum velho deus do Olimpo ainda tem a suprema caridade de conceder às mães.
- Estava dentro do livro, não me apetecia sair... - piquei.
Por uma fracção de segundo, fixou o livro, surpreso de «aquilo» ter essa capacidade.
Acto contínuo, tira-me das mãos o livro cor-de-laranja e sacode as páginas, na vertical, com força, não fosse lá ter ficado algum bocado de mãe.
Desmanchámo-nos a rir.

Anita leva o filho pré-adolescente à feira do livro

daqui
- E este, não queres experimentar levar este? E este também não? Leio-te o resumo deste...hem, que tal, parece interessante, não?...
A cabeça do adolescente-problema-para-a-leitura abanava teimosa e incessantemente.
- Não quero, mãe. Não quero. Eu disse que vinha porque mãe me queria trazer, e só por isso, não foi? Tenho tantos livros em casa que nunca li...
-Sim, por isso mesmo, é preciso encontrares um de que gostes.
Uma senhora pacientemente sentada a uma mesa, no stand de literatura Infantil da LEYA, que não reconheci, desligou o telemóvel e olhou-me com o ar de porquê-que-não-levas-os-que-ele- quer?...
-Está indeciso entre quais?
Desesperei.
-Tomara a mim...levá-los-ia a todos. Não quer é nenhum. Não gosta de ler.
Vi nos olhos dela que passei de mãe-megera-que-não-quer-que-o- filho-leve-livros, a mãe-idiota-que-não-sabe-levar-a-criança-a-gostar-de-ler..
-Talvez banda desenhada...os que não gostam de ler, às vezes gostam de banda desenhada...
- Nem isso...lê, às vezes, mas não muito e com pouco entusiasmo...
De vergonha, suponho, pelo rumo da conversa, o adolescente-problema-para-a-leitura lá
aceitou levar «Uma Aventura nos Açores», contra a sugestão da própria Ana Maria Magalhães - na minha fúria, nem me ocorreu que podia ser com quem estava a ter aquele diálogo surrealista - sob pretexto de que ele, em pouco tempo, iria aos Açores. Concordou que, então, era o livro ideal e despachou-nos com um autógrafo em que desejava boa viagem ao T.
Interroguei-me, à saída, porquê que não lhe desejara, ao invés, uma boa leitura. Ficar-lhe-ia tão mais grata!
Todavia, admito, fez o seu melhor...como eu.

Julgados pelos seus iguais

«(...) É difícil ser-se adolescente hoje, muito mais difícil que há trinta anos. Antes, era-se menos julgado pelos seus iguais, temia-se sobretudo o moralismo dos adultos. Hoje, para ir à discoteca, é preciso estar-se impecável: magro, ginasticado, vestido à última moda, espirituoso, envolvente, sedutor. Para se ter sucesso na escola é preciso ser-se agressivo, competitivo, possivelmente carismático, actuante. A força persuasiva que leva rapazes e raparigas à uniformização nos modos de ser e estilos de vida revela-se cada vez mais brutal e eficaz: para existires deves aderir àquele modelo mediático, a uma mediocridade partilhada, mesmo a custo de te esqueceres de uma parte do teu aspecto exterior.
Num debate em Como, uma senhora contou-me que naquela cidade muitas raparigas, quando completavam dezoito anos, pediam e obtinham dos pais como presente uma operação estética (...)».


Paolo Crepet in «Não somos capazes de os ouvir» - Ed. Ambar

Um tédio que vem de dentro

«Fúria de viver» de Nicholas Ray

«(...) O tédio é um perigo na vida de um adolescente. O tédio é o sentimento que gerou tantos pequenos e grandes infortúnios em todas as gerações de jovens, é pré-condição das mais diversas formas de mal-estar psicológico. O tédio verdadeiro vem de dentro, não de fora: os mais irreparavelmente entediados são geralmente jovens privilegiados, que já têm tudo, incluindo o tempo que parece não ter fim e que não sabem como empregar. Uma criança deixada a vagabundear numa loja de brinquedos, depois do encantamento e do frenesi do primeiro impacto, deixa de saber o que fazer: o excesso de estímulos inibe a criatividade, torna a criança apática e passiva (....)»

«(...) Se é possível tornar-se entediado, deve também ser possível ensinar às crianças a não se entediarem em adolescentes e adultos. O único antídoto contra o tédio é constituído pela inteligência criativa. Não é decerto fácil adquiri-la, mas tentemos perguntar a um pai quantas vezes levou o filho ou a filha a um museu ou ficou com ele/ela durante meia hora (e não dois minutos) a ver o pôr-do-sol. Poucos deles crêem pensável fazer algo mais do que inscrevê-los na piscina ou no clube desportivo (...)»

Paolo Crepet in «Não somos capazes de os ouvir»
- Ed. Ambar

Coisas da idade

Uma amiga minha queixava-se há uns dias que a filha, ainda criança, já estava com atitudes de adolescente. Nada que eu e a maioria dos pais de hoje em dia não tenhamos já sentido.

Ontem, todavia, dei comigo a questionar-me se o facto de as crianças actualmente anteciparem assim a adolescência, significará que vão antecipar também a juventude, a idade adulta e a terceira idade, na qual permanecerão longamente «até que a morte lhes advenha»?

Ou, cenário ainda mais arrepiante, será que estarão, logo aos sete anos, a adiantar-se na chamada «crise dos quarenta» (aquela em que achamos que somos e seremos eternamente jovens), crise essa que só pretendam abandonar aí por volta dos oitenta?

Um «soap» versão portuguesa

-O que é isto? A mochila nova toda riscada?
As letras e desenhos a tinta correctora, pintados na mochila preta com cerca de um mês e garantia de 30 anos, disparavam flashes nas minha direcção. Realisticamente, eu perspectivara não mais que dois a três anos de uso contínuo. Mas,um mês?!
Li de imediato a percepção da extensão da asneira nos olhos do puto. Valia a pena gritar, como tinha vontade? Ou dar-lhe dois sopapos à moda antiga? Ou usar algum dos poucos castigos eficazes ainda disponíveis?
- Muito bem. Nem vou dizer nada. Tens aqui detergente e uma escova. Vai para a casa de banho e quero essa tinta toda tirada. Senão, pagas uma mochila igual com o teu dinheiro.
Com Soflan, sabão de seda e, por fim, Omo - que eu lhe ía fornecendo de má cara, virando-lhe as costas de seguida - o puto esfregava, esfregava, esfregava. Encolerizado e a fazer contas ao dinheiro que teria de desembolsar, acabou por se despir e meter na banheira com a mochila e de escova em punho, enquanto guinchava: «isto não sai, isto não sai!». Quase 20 minutos naquilo (nem quero imaginar a sua contribuição de hoje para a pegada ecológica da família).
Por fim, lá me decidi a perguntar-lhe como estava a correr. Afastei o plástico da banheira lentamente. Num mar de espuma, vermelho do esforço e desespero e com um pequeno esgar pela dor que sentia na mão que esfregava ainda...sorriu, de bem.
-Ao menos aprendo de uma vez por todas. Eu pensava que este tipo de coisas só aconteciam nas séries da televisão.

Uma seca de favor

Hoje, fim da tarde. Tento meter na cabeça do petiz de onze anos mais preguiçoso entre os preguiçosos, os múltiplos pronomes e determinantes que deveria ter estudado há já muito tempo, com vista a fazer um teste de Língua Portuguesa minimamente seguro. Ansioso por ver o jogo Sporting-Benfica, o puto suspira:
-Se eu fizer estes dois exercícios bem, podemos acabar com esta seca?
-Seca?!! Seca para mim, que gostaria muito mais de estar a ler um livro ou o jornal em lugar de estar aqui, a ensinar-te o que tu já devias ter estudado há muito tempo. Estou é a fazer-te um favor!
- Se eu fizer estes dois exercícios bem, a mãe pode deixar de me fazer o favor?

A síndrome do "mundo mau"

«O discurso de muitos adultos de referência (pais,professores e políticos), veiculado e ampliado pelos meios de comunicação social (especialmente a televisão), descreve o mundo como um local onde só acontecem desgraças, um mundo povoado por pessoas mesquinhas e perversas (a que os americanos, por exemplo, já chamam o "mean world syndrome" - o síndrome do mundo mau).
Estando os nossos filhos sujeitos à mesma forma de pressão, não vamos estar à espera que pensem de outra maneira, a não ser que relativizemos as coisas, e que lhes mostremos os lado bom e altruístas das pessoas e da vida, e que o que está a entrar pela "caixinha das surpresas" na sala de estar, não se está a passar ali, mas algures. E que, muitas vezes, são casos isolados, mas que de tão repetidos, parecem multiplicar-se indefinidamente. Já repararam "quantas Maddies" desapareceram? Foi apenas uma mas, na nossa cabeça, todos os dias havia várias. (...).
Tentemos, por exemplo, ao jantar ou ao serão, conversar sobre outros assuntos que não seja exclusivamente as desgraças que aconteceram num mundo povoado por seis biliões de pessoas, seja o facto de o tempo estar mau, seja o de terem assassinado mais uma pessoa num local distante, impronunciável (...).
Até porque, queiramos ou não, temos que continuar a fazer a nossa vida do dia-a-dia. E mais vale fazê-lo com uma certa candura do que com o medo permanente no coração. Para um adolescente que encara a vida com algum temor, que se sente mudar e crescer, que é "empurrado pelo Bilhete de Identidade» para a adúlticia, pensar que se vai transformar num malandro ou num vítima de malandros não será, provavelmente, muito apetecível».
Mário Cordeiro in »O grande livro do adolescente».

Dei-me ao trabalho de transcrever tudo isto porque, sinceramente, há muito que me custa ver tantos filhos penalizados na sua autonomia - que foi das coisas que mais prezei na minha adolescência - por pais que se deixam literalmente paralisar de medo por esta «síndrome do mundo mau». Vigiar é uma coisa, fazer das crianças crescidas, adolescente e jovens, eternos pintos atrás das galinhas, é outra bem diferente.

Deixemos os nossos filhos respirar!

Da grande preocupação com a gripe A

-Sabes que a tua DT (Directora de Turma) mandou um mail a dar conta de que na Escola começa a haver alguns casos de gripe A, tens de ter cuidado...
- Hum....eu queria saber é quando é que mandam fechar a escola - do outro lado do fio, o meu puto de onze anos.
- Fechar a escola?! Como assim? E para quê? Ficarias em casa a aborreceres-te, que durante a semana não há televisão, nem jogos, nem computador, como sabes.
- Ah, pois...não me lembrava disso...
- Além do mais, sem aulas, irias às explicações de matemática todos os dias.
- Pronto, está bem... já percebi que me queres intimidar.