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Os amigos


Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça. In "De igual para igual". Assírio e Alvim.

Nguyen Chi Thien


"In prison he was allowed no pen, paper or books.
He therefore memorised in the night quiet each one of his hundreds of poems,
carefully revised it for several days, and mentally filed it away."

Uma tocante história de coragem e amor à poesia. A vida de Nguyen Chi Thien, o Prémio Internacional da Poesia de 1985, contada pela revista "The Economist", de 13 de Outubro de 2012.


Nguyen Chi Thien por Jean Libby

"Vendo só por onde entrar e não por onde sair"



 
 
    "Um leão vendo-se enfermo
Passa o aviso a seus vassalos
De que à vida vai pôr termo.
      E que intenta aconselhá-los
Sobre a regência futura,
Dar-lhes beija-mão, e honrá-los
      Dos leões à fé lhes jura
Que trata bem qualquer fera
Que o visita e procura:
      Porém na furna as espera,
E quando alguma entrar ousa,
Logo a mata e dilacera.
      Eis uma esperta raposa
      pára e diz, sem que entre lá:
«"Chau" que observo uma coisa!
      Pegadas mil aqui há;
Mas para lá todas vão,
E nenhuma para cá;
     Saúde, Senhor Leão!
Quero-me à glória eximir
De beijar-lhe a régia mão,
      Porque jurei jamais ir
A qualquer casa ou lugar,
Vendo só por onde entrar,
E não por onde sair.»
Foi reflexão mui subida
Esta que fez a raposa;
Que é loucura desmedida
Entrarmos em qualquer coisa
Sem vermos se temos saída."
 
"O leão doente". In "La Fontaine -Fábulas". Temas&Debates.Trad. Curvo Semedo.

É na terra não é na lua





É um trailer muito, muito bonito. Mas insuficientemente revelador do quão humano, poético, cativante, divertídíssimo, intenso, real, comovente, delicado, surpreendente, melancólico e profundamente inteligente é "É na Terra não é na Lua", de Gonçalo Tocha. Há planos e momentos deste documentário que espero nunca perder de memória.

25 de abril - há sempre alguém que semeia canções no vento que passa




Adriano Correia de Oliveira (poema de Manuel Alegre)

tens um pingo de água na face


tens um pingo de água
na face, lembrando
os verões da nossa infância,
ternas baías de abrigo
para os pés,andarilhos, da memória.

no mar, a mãe disse, um dia,
não vás tão longe, meu amor

foi quando percebi que há colos onde vivemos
a vida inteira. 
  
«Avulsos, por causa». Renata Correia Botelho. Língua Morta.

Sophia e Carrapatoso




Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem
[Sophia de Mello Breyner Andresen (6.xi.1919 - 2.vii.2004)]
 (transcrição  de comentário no YouTube)

Ask me



Do não visível

"Pressentimentos, como toda a gente sabe, são
conhecimentos sem conteúdo,
definição sem palavras
de um conceito. E quando os pressentimentos actuam

interferem violentamente no corpo, devolvendo
o que o homem perdeu, sentado,
nas carteiras da escola. Ninguém
é verdadeiramente erudito se desconhecer as datas
históricas do não visível, desses pressentimentos
que se revelaram eficazes".

Gonçalo M. Tavares, in "Uma viagem à Índia", Caminho

De uma canção perdida

Coisas que acontecem

"A chuva ainda não parou. Há um mês
o mercado abre as sua portas
sob o negro das casas. Posso voltar as vezes
que quiser e ver sem nenhuma alegria
a queda impercepítivel à nossa volta.

A sombra entre jardins. Esta profusão
de jardins, muros de terra.
A luz se viesse daria uma segunda cidade e
uma forma de vida. Marítimos não sabendo uma
palavra de português ou árabe é
para o porto é para os barcos que querem ir.

Este refúgio entra gloriosamente na chuva.
A cidade não tem nenhuma farol por isso os
navios vêm até à última vaga.

Do outro lado da praça fica o café.
É um refúgio de negros. Os gritos do porto
chegam até ao rapaz que me trouxe. Estende-
-me um cigarro, conta-me os reclames do
extenso muro, os seus amores.

Sem fim. Sem caminho. Eu gosto da preguiça
desta praça. Sob este céu e chuva
lembro-me mais daquilo que não fui."

in "Poemas escolhidos", Assírio e Alvim.

[Para a minha querida Io que, num verão de tardes sem fim e serões sem rumo, no V.F., me ensinou a gostar de João Miguel Fernandes Jorge .]

A dúvida perpétua

Ninharias

Não há verdadeira grandeza nos que têm fé
Em Deus, Matéria, na vida interior e exterior.
Só a dúvida perpétua é realmente grande
E, da dúvida perpétua, a sua dor.

Alexander Search, in Poesia, Assírio e Alvim

Dentro dos livros

Dentro dos livros
marcas de quando os lemos.
Bilhetes de cinema,
autocarro, apontamentos
com demasiadas
abreviaturas, folhas
que dizem «não esquecer»
e foram esquecidas.

Nesta tarde li este verso.
O romance na pág. 89.
Agrupar os eventos
por contiguidade, remissão,
a data muito precisa
destes acasos
mais importantes
que a biografia.

Pedro Mexia in "Menos por menos" - D. Quixote

Um supremíssimo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Cansaço - Álvaro de Campos, in "Poemas"