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Deitar conversa fora


Os brasileiros usam a expressão deliciosa "deitar conversa fora" que, só de ouvir, dá logo vontade de correr buscar umas caipirinhas e umas espreguiçadeiras confortáveis.

Esses senhores do outro lado do atlântico são muito mais criativos que nós, no que respeita a imagens para expressão de conceitos que usem o tempo.  Este em concreto, aproximando-se dos nossos "falar só por falar" ou "as palavras são como as cerejas", tem uma conotação medida pela disponibilidade para uma conversa preguiçadinha, sem ordem de trabalhos ou prazo marcado, própria dos serões na província.

É uma conversa destinada a acabar, ou suavemente num soninho que embale, ou servindo de amuse bouche a um jantar delicado por onde acabe por se esgueirar acelerando o seu ritmo e crescendo em entusiasmo, ou até apenas numa vontade indefinida de a repetir.

"Deitar conversa fora" é como escrever ao correr da pena, com a vantagem de haver um interlocutor. O que nos lembra agora e o que nos esqueceu de contar noutras alturas. É uma interactividade saborosa, um jogo praticamante sem regras que não sejam a vontade de estar com quem estamos, de ouvir e dizer o que nos ocorre, divagando ou discorrendo sobre o que nos apetece.

Numa conversa assim, qualquer brisa está autorizada a mudar o seu rumo, ou a trazer o mesmo assunto de volta cinco minutos ou duas horas depois. Ou até mesmo nunca mais.

Querido diário vírgula troicas e baldroicas


Hoje, a mãe chegou a casa muito chateada porque ouviu dizer que, para além de cortarem os subsídios das pessoas que trabalham para a causa pública, e que ela achava que certamente não trabalhavam lá muito porque senão não lhes tinham cortado os subsídios, a troica dissera que era preciso baixar os salários das pessoas que trabalham para a causa privada, que ela sabe, por ela, que trabalham muito, mas que, pelos vistos, a troica acha que também trabalham pouco, e que a mãe gostava mesmo de saber era quem era a troica para dizer isso dela, mas o que ela achava mesmo é que baixar os salários era ilegal, que afinal havia leis e as leis eram para cumprir, mesmo que não fossem sempre muito cumpridas, mas o meu irmão Cajó meteu-se na conversa resmungada da mãe e, rindo-se muito, disse que isso das leis era uma coisa muito vaga, que, agora, quando se previa que alguma decisão podia ser ilegal, em lugar de se mudar de decisão mudava-se logo a lei, para podermos ficar pobrezinhos mas legaizinhos, e que a troica pode impor o que muito bem entender porque, afinal, nos empresta o dinheiro que nós já gastámos nas estradas por onde não passam carros e nos programas da CEE que deram muito dinheiro a ganhar a empresas de formação de dinheiro para elas próprias, e em outras coisas que nós só vamos sabendo aos poucos, e que os governos que seguem a troica fingem que as decisões más são da troica, porque acham que assim estão protegidos pelo escudo da troica, mas que estão muito enganadinhos, que o escudo não dá para todos, coisa que eu não percebi, porque eu pensava que a moeda agora era o euro e já não o escudo, mas adiante que eu não sei, a bem de ver, qual é a moeda da troica e, como sabes, querido diário, não posso perguntar muitas coisas por causa dos ranquinges das meninas de sete anos das escolas públicas, e a mãe, que nem ouviu o Cajó, disse que também não percebia porquê que os patrões, em lugar de estarem contentes com essa ideia de pagarem menos aos empregados,  preferiam manter-se a pagar-lhes o que a troica diz que é muito, mesmo que ela, mãe, saiba que não dá nem para comer quanto mais, e que isto até parecia que era um regime capitalista de pernas para o ar, só que o Cajó disse logo que a mãe não percebia nada, que era claro que os patrões gostariam de pagar menos aos seus empregados, que não iam prescindir assim dos seus charutos grandes, o que não queriam era deixar de serem patrões dos seus empregados por já ninguém poder comprar o que os empregados produziam, que eles são capitalistas porque não são parvos, coisa que o Cajó até desconfiava que os senhores da troica podiam ser à vontade - o Cajó às vezes diz estas coisas menos bonitas, mas acho que é por estar muito zangado por já não ir receber a PS3 no Natal - porque, mesmo quando os senhores da troica mandam bitaites errados não perdem eleições, nem negócios, nem sequer os seus salários, porque é assim com todos os tecnocratas, esta palavra deu-me muito trabalho a escrever, querido Diário, e eu  fiquei muito cansada, mas o Cajó disse logo é que é mas é por ser portuguesa, que os portugueses ficam muito cansados com pouco, pelo menos é o que pensam os senhores da troica e que, por isso, é que vamos todos ganhar menos do que ganhávamos, mas eu acho que é antes porque o mundo era muito mais simples há muito, muito tempo quando eu só tinha seis anos e, agora que já tenho sete, parece que está a ficar complicado de propósito só para eu não perceber nada, hoje, a mãe nem precisa de me mandar para a cama, que eu mesmo vou sem ela, quer dizer, a mãe mandar, adeus!

Querido diário vírgula no dia em que o rei faz anos

Eu não sabia quem era o Senhor Alberto  João Jardim, mas o meu irmão Cajó da  borbulhas gigantes e que hoje está em dia de muita paciência, obrigada mano, explicou-me que foi o senhor que ontem deu uma tarde de férias, a partir das 14 horas, aos trabalhadores da função pública das ilhas da Madeira e do Porto Santo, se eu andasse num colégio particular daqueles que estão sempre nos primeiro lugares dos ranquingues das escolas todas, escreveria concerteza arquipélago, mas assim como só tenho sete anos e frequento o 2º ano da escola pública portuguesa ainda só posso dizer as duas ilhas que elas são, mas adiante, porque parece que é costume lá na Madeira dar-se assim a tarde quando é das tomadas de posse dos governos do Senhor Alberto João Jardim, quer dizer, disse o meu irmão Cajó a rir-se muito, pode ser que a dessem também para as tomadas de posse dos governos que não fossem daquele senhor, mas nós não podemos saber porque há trinta anos que são todos tomados apenas por aquele senhor, pelo que os outros mesmo que quisessem também dar aquela tarde, a bem de ver nunca poderiam dar, a mãe, que nunca liga nada ao que diz o Cajó, mesmo quando ele diz coisas assim acertadas, bufou enquanto colocava o ferro de passar a ferro, cá está se eu andasse num colégio privado já teria escrito ferro de engomar, assim, não posso, mas dizia eu que a minha mãe enquanto punha o ferro em cima da minha saia disse que também isto era agora uma embirração que os continentais arranjaram com aquele senhor, que era tudo mas era inveja, porque ele era muito eficiente e muito giro, porque nunca ninguém reparara que isto acontecia há trinta anos e agora é que se punham com notícias destas que não interessavam nada, mas o Cajó riu-se muito, não percebi se da mãe se do Senhor Alberto João, e disse que nunca ninguém reparou porque, como é bom de ver, em Portugal, só quando somos pobres é que contamos tostões porque aquele dia de férias tínhamos sido todos nós a pagar, outra coisa que eu não percebi porque a mãe disse que não nos podia dar mesada por causa da tal osteridade, e agora ele ali a dizer que nós pagávamos uma coisa que eu não posso pagar e que mesmo que pudesse eu não pagava porque eu sabia muito bem que destino dar a essa mesada que a mãe não me dá, a mãe então disse que só havia uma coisa que ela não percebia bem, era porquê que, se a tomada de posse era às 17 horas, as pessoas podiam faltar ao trabalho logo a partir das duas da tarde, e que a menos que o despacho dissesse que era obrigatório fato a rigor, barba feita pela segunda vez, ou cabelo alisado  no caso das senhoras, para se assistir àquela cerimónia pela televisão das casas de cada um, três horas de antecedência, numa ilha com aquela acessibilidades todas, lhe parecia um claro exagero, e um desvio de fundos públicos para causas privadas de muitos dos funcionários públicos que deveriam ter aproveitado a tarde mas era para ir às compras de Natal, e o Cajó que está sempre a rir mesmo quando eu não diga que está, riu-se outra vez e disse que devia ser mesmo isso que eles tinham feito, mas que estava certo que o Senhor depois da posse que estava  a tomar naquele momento, o que eu também não percebi porque ele não tinha nenhuma chávena  de chá na mão para tomar nada, mas não perguntei porque eu já começo a ter este complexo de escola pública e não quero aparecer nos ranquingues das meninas de sete anos que sabem menos que todas as outras só por causa da falta de chá, iria concerteza abrir processos de inquérito para apurar quem seriam os engraçadinhos que dormitaram no momento da sua tomada de posse ou que aproveitaram para antecipar as suas muitas compras de Natal, porque afinal era preciso respeito, e também dar trabalho àqueles funcionários públicos que eram pagos para instruir esses processos e que, portanto, aquela medida era mas era para proteger os empregos dos funcionários públicos que faziam os  processos disciplinares que assim não iam para a rua, nem íam também os que não tinham assistido à tomada de posse por terem ido às compras, ou o que fosse, porque em Portugal toda a gente sabe que esses processos nunca dão em nada e todos podiam continuar a ganhar dinheiro para gastar nos presentes de Natal, em benefício do relançamento da economia nacional, e para o engraçadinho que esteja a detectar que eu aqui usei uma expressão que uma menina de sete anos da escola pública nunca usaria pois fique a saber que pedi ao Cajó para ma ditar com muito cuidadinho, que eu ando na escola pública mas tenho muito brio, e depois o Cajó que está sempre a ler as notícias do jornal para poder rir assim como ri,  assobiou alto e disse que a Madeira estava como Oeiras, muito à frente, porque no despacho do senhor Alberto João Jardim que estava ali copiado para o jornal (lá está, não posso dizer transcrito), a palavra designada "acto" em português arcaico, ele disse-me que esta palavra eu podia escrever que só queria dizer velho e o que é velho não interessa para nada,  mas dizia ele então que que estava escrito "ato" e que isso provava o muito avanço e produtividade dos madeirenses, muito maior que a dos os cubanos do continente, eu não sei porquê que ele nos chamou cubanos que eu achava que esses eram as pessoas viviam num país chamado Cuba mas, lá está, não quero andar a parecer uma miúda do 2º ano da escola pública e portanto também não perguntei, e ele a dar-lhe que, só por isso, os serviços públicos da madeira mereciam aquela tarde de feriado, já deves ter percebido querido diário que eu não percebi muito da conversa do serão de hoje, mas também agora não tenho tempo para pedir ao Cajó para explicar melhor, porque a mãe já lá está outra vez com o seu nem mas, nem meio mas, vai mas é para a cama que amanhã é dia de pica boi, até amanhã!


Querido Diário vírgula


Tem andado a chover muito por cá e hoje até já começou a fazer frio, apesar de ainda antes de ontem ter estado um calor medonho, eu não gosto nada do frio mas a mãe está muito contente porque diz que não havia nada mais aborrecido do que as meias estações em que uma pessoa nunca sabia o que havia de vestir, mas eu acho que a mãe queria dizer é que nesta época de osteridade ou austeridade, ou lá que é, é bom só haver uma estação quente e outra fria, para não ter de comprar roupa que não é quente nem fria, para mim e para o meu irmão, quando a mãe disse isso, o meu irmão, que está naquela idade parvinha, desatou a rir e disse que achava que devia ter sido encomenda do primeiro-ministro, ou presidente ou isso, porque se se está a acabar com as estações e com os comboios, é bom que se acabe também com os apeadeiros, eu não achei graça à graça porque não sei lá muito bem o que é um apeadeiro, mas quando perguntei ao Cajó, que é o meu irmão que tem borbulhas gigantes na testa, ele disse que nem valia a pena eu aprender, que quando crescesse não haveria em Portugal sequer estações quanto mais apeadeiros, que isso ia ser tudo História e que depois eu ia ver que a História é uma ganda seca, mas eu também não percebi o que é que as estações do ano tinham a ver com os comboios e com a História e continuei a fazer a cópia sobre as estações do ano, e ele então começou a rir-se muito alto e disse-me que não me esquecesse que agora as estações do ano, aquelas que ainda existem e as que estão a desaparecer, escrevem-se todas com letra pequena, e depois começou a dizer que era por causa do simplex,  para a gente não ter de pensar muito a carregar no queps loque, mas eu também já tenho sete anos e disse-lhe que achava que ele estava enganado, que não era por causa desse simplex que eu, por acaso, também não sei bem o que é, mas por causa de um acordo que os de cá tinham feito com os brasileiros das telenovelas, e com os senhores dos outros países que também só quase-quase falam português, mas que querem todos escrever exactamente na mesma língua, embora depois se vá a ver e não seja bem assim, porque eles podem escrever baptismo com pê e nós temos de escrever sem pê, o que afinal não tem sequer muita importância porque, na minha família, a mãe já disse e está dito, não vai haver mais batismos nem com pês nem sem pês, porque parece que a osteriadade também não deixa fazer festas de batismo porque são muito caras, a osteridade parece que é filha da troica que eu nunca vi, mas também nunca conheci a tal osteridade, só que isso a mãe diz que é natural porque eu só tenho sete anos, e a última vez que ela esteve em Portugal já foi há muitos anos, quando não havia férias no Brasil, nem nas Maldivas e os miúdos iam todos para as escolas públicas e os pais diziam que eram muito boas porque eles também lá tinham andado, embora agora toda a gente veja que elas não deviam ser assim lá grande coisa, porque os políticos que mandam no país desde há muitos anos e aqueles que gostavam de ter mandado e os que hão-de vir ainda a mandar, parece que andaram lá todos, e as coisas não estão lá muito bem no país, até se diria que eles andaram todos foi na escola pública grega e que, portanto, não perceberam nada do que lá lhes ensinaram, se até os gregos, que percebem a língua, pelos vistos não aprenderam nada, como é que os portugueses podiam aprender, não é, deve ser por isso que alguns deles se sentam naquele lugar que parece que se chama assembleia, assim todos voltados para os professores com ar de quem vai aprender muito, e depois vai-se a ver e nunca aprendem nada, mas o Cajó diz que até estaríamos bem se isso fosse só em Portugal, que é um país que, por enquanto, ainda se escreve com letra grande, mas não se sabe por quanto tempo, já que se está mesmo a ver que a osteridade, ou o simplex, ou aquele acordo dos senhores brasileiros da telenovelas, já nem sei, também nos vai tirar a letra grande de Portugal, olha querido diário, vou dormir que eu não queria mas a mãe está ali a dizer que não é mas, nem meio mas, é já para a cama e mais nada, até amanhã!