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Deitar conversa fora
Os brasileiros usam a expressão deliciosa "deitar conversa fora" que, só de ouvir, dá logo vontade de correr buscar umas caipirinhas e umas espreguiçadeiras confortáveis.
Esses senhores do outro lado do atlântico são muito mais criativos que nós, no que respeita a imagens para expressão de conceitos que usem o tempo. Este em concreto, aproximando-se dos nossos "falar só por falar" ou "as palavras são como as cerejas", tem uma conotação medida pela disponibilidade para uma conversa preguiçadinha, sem ordem de trabalhos ou prazo marcado, própria dos serões na província.
É uma conversa destinada a acabar, ou suavemente num soninho que embale, ou servindo de amuse bouche a um jantar delicado por onde acabe por se esgueirar acelerando o seu ritmo e crescendo em entusiasmo, ou até apenas numa vontade indefinida de a repetir.
"Deitar conversa fora" é como escrever ao correr da pena, com a vantagem de haver um interlocutor. O que nos lembra agora e o que nos esqueceu de contar noutras alturas. É uma interactividade saborosa, um jogo praticamante sem regras que não sejam a vontade de estar com quem estamos, de ouvir e dizer o que nos ocorre, divagando ou discorrendo sobre o que nos apetece.
Numa conversa assim, qualquer brisa está autorizada a mudar o seu rumo, ou a trazer o mesmo assunto de volta cinco minutos ou duas horas depois. Ou até mesmo nunca mais.
Até me tinha esquecido
O T. parecia mordido pela mosca tsé-tsé. Dormira grande parte da tarde, e mal acabara o jantar desaparecera para se deitar. Enfim, idade da "aborrecência", como ouvi descrita com graça no outro dia.
A minha amiga e eu iniciáramos uma qualquer conversa risonha na cozinha, enquanto o marido dela fora lá para fora fumar. Alentejo interior, meados de Junho, sábado à noite. Por entre as gargalhadas dos filhos deles, na sala, ouvimos um - Ei, apaguem as luzes todas e venham cá fora.
Saímos e nem queríamos acreditar. Corri a acordar o T.. Queria lá saber da mosca tsé-tsé, ainda que todos gritassem, deixa-o lá, coitado, está cansado. Barafustou, surpreendido, mas foi.
Não sei se daqui, agora, não estarei a multiplicar ao infinito o número de estrelas que se viam por entre os sobreiros, ao som das exclamações dos meus amigos que descortinavam, com os filhos, algumas constelações, no assombroso emaranhado de pontos de luz. Mas, decididamente, não me lembro de nada semelhante àquela vertigem de me sentir numa redoma de estrelas de dimensões variadas, e quase variáveis, em que cada uma por si só, ou pela sua luz cintilante, e em conivência com todas as outras, se esforçava por não deixar nenhum pedacinho de céu negro.
Por fim, com a frescura da noite já bem para lá da flor da pele, ainda deslumbrados e abraçados, devolvi o T. à cama, enquanto comentava, didacticamente - Impressionante, filhote, não é? Na cidade, em Lisboa, com todas aquela luzes, não se vê isto. É uma estrela aqui, outra ali...
Praticamente já dormia, mas ainda murmurou :- Lá só se vê as mais luminosas, não é? Até me tinha esquecido que no céu havia tantas estrelas.
Apaguei a luz, fechei a porta de mansinho e pensei, também eu.
25 de abril - há sempre alguém que semeia canções no vento que passa
Adriano Correia de Oliveira (poema de Manuel Alegre)
"A morte a mim não me mata..."
Procurava "A Lira" de Adriano Correia de Oliveira, que esta semana teria feito 70 anos, com quem aprendi literalmente a adorar esta canção, ainda antes do 25 de Abril. O LP, dos meus pais, tinha na capa a fotografia "setentona" de um menino na praia, e tenho de me lembrar de o desencantar onde quer que esteja.
Entretanto, perdi-me por aqui. Mario Iglesia que,"googlei", parece ser um dos novos nomes do cinema digital independente espanhol (as coisas que eu não sei!) e Úxia - galega também ela.
" A morte a mim não me mata, quem mata a morte sou eu".
Fim-de-semana em Madrid
Passei um maravilhoso fim-de-semana em Madrid.
A carteira foi-me roubada no fim-de-semana em Madrid.
Se não tivesse ido a Madrid, não me teriam roubado a carteira em Madrid.
Todavia não teria ido a Madrid.
Dos confins dum tempo com tempo
Quando era criança e adolescente (anos'70), no Carnaval estalavam fulminantes e estalinhos, voavam ovos pelos corredores do liceu e as bombinhas de mau cheiro rebentavam em plena aula, em prejuízo da matéria, do professor e nosso, tudo por entre as maiores gargalhadas. Ouvia-se o Hotel Califórnia dos Eagles. Os mais novos brincavam ao mata, aos índios e aos cowboys - as meninas eram sempre os índios porque eram os bonzinhos, e os rapazes os cowboys porque eram os mauzões - ao stop, às escondidas, às lutas, ao berlinde, ao futebol, aos carrinhos de rolamentos, tudo na rua, tudo horas a fio e sem que nos maçassem.
No mesmo dia, havia dois testes, quando não eram três e "bico calado". Os pais não nos ligavam nenhuma, nem aos nossos estudos, nem se fazíamos os trabalhos de casa ou não, e só discretamente vigiavam as nossas companhias. Limitavam-se a dar-nos educação feita de pimenta na língua a cada palavrão e puxões de orelhas por má nota, advertências para que não aceitássemos chocolates de ninguém e, mais tarde, longas sabatinas sobre os malefícios da droga. Ao reforço positivo chamavam "envaidecer as crianças" e nenhuma lhes ouvia um elogio. Os professores davam o seu melhor a tentar instruir-nos à moda antiga e não a educar-nos, sem complexos de culpa. A nós, competía-nos tentar fugir dos não muito imaginativos castigos, dos estalos certeiros e das notas "injustas".
As férias eram uma fartura de enjoar. Líamos toneladas de patinhas e tintins e vaillants e gasparzinhos, o fantasminha e cebolinhas e luluzinhas e super-homens e capitães américa e mafaldinhas e hulks e corto maltês e homens-aranha tudo por esta ordem sem ordem, desde que viesse empacotado em quadradinhos; gozávamos uns com os outros nem sempre politicamente muito correctos e trocávamos segredos de nada, por tudo e por nada e contávamos histórias mirambolantes que não podiam ser confirmadas, o que dava muito jeito.
Na praia, jogávamos ao prego, apanhávamos perigosos escaldões ao sol do meio-dia, mas ninguém nos deixava era tomar banhos de mar até duas horas após a ingestão do almoço, fosse ele uma feijoada ou uma sanduíche. Contabilizadas essas duas horas ao minuto, e escaldados do sol, podíamos cair de chapão na água gélida. Se acontecia alguma coisa tinha sido uma azar, porque se desvalorizavam completamente os choques térmicos. Íamos ao médico quando estávamos doentes e era preciso estarmos mesmo muito doentes, que as dores de ouvidos eram curadas com óleo a ferver, e as pieiras com Vick Vaporub no peito.
Bebíamos Caprisone e instântaneos de ananás da Royal. O Jolly Jelly, que era "morango, chocolate e baunilha, Jolly Jelly!" foi um sucesso ainda que fugaz - para quem não se lembra, era uma espécie de perna-de pau coberto de pepitas de açúcar coloridas - e as batatas fritas Pála-Pála eram comprovadamente "uma tara de sabor". As Doro "que eu adoro" apresentaram-se à concorrência por essa altura.
Por esses dias, a Olá não era o produto meio sofisticado, meio enfadado que é hoje, mas assumidamente lúdico, que fazia parte das nossas brincadeiras, com gelados rafeiros de " frut'ó chocolate" que lambíamos com gosto, e dávamos a lamber aos amigos, dávamos sim, por entre trocas de cromos do Vickie, o pequeno viking, que nos fora televisivamente apresentado em alemão (aqui) com legendas, pois claro, e a quem surgiam ideias esfregando o minúsculo nariz. O cromo nº 25 era muito difícil de arranjar, e aquele com que normalmente se terminavam as colecções, depois de muito se penar a comprar e trocar cromos repetidos. As tartes da Dancake começaram, então, uma democrática carreira promissora.
Nos Santos, saltávamos fogueiras que tinham pelo menos uma vez e meia nosso tamanho, que aproveitávamos também para assar chouriços, mas pedir para o Santo António começava a parecer mal; comíamos, às escondidas, leite condensado às colheradas, e punhamos açúcar amarelo, branco ou de que cor fosse no pão com manteiga com o assentimento familiar; bebíamos água fresca com xarope de groselha e leite com Tody de morango, se lá em casa houvesse alguma folga financeira. Os chocolates era exclusivamente da Regina e os caramelos espanhóis, para quem tivesse a sorte de ter algumas vez passado a fronteira.
Tomávamos banho uma vez por semana, a menos que fôssemos à praia; nos outros dias era "rabinho, pézinhos, carinha e mãozinhas, dentinhos, xi-xi e cama".
Não foi um tempo nem bom nem mau. Foi apenas o meu tempo. Um tempo com tempo.
[E em tempo: eu sei que não fui nada original, que outros blogues estão cheio de tretas destas, mas apeteceu-me].
O Pai Natal e a lanterna mágica
[Retirado da descrição do pequeno filme publicado pelo BFI National Archive]
"Made in 1898, G.A. Smith's 'Santa Claus' is a film of considerable technical ambition and accomplishment for its period. It uses pioneering visual effects in its depiction of a visit from St. Nicholas.
A former magic lanternist ( lanterna mágica aqui ) and hypnotist, Smith was one of the first British film-makers to make extensive use of special effects to create fantastical scenes.(...)."
De uma canção perdida
Coisas que acontecem
"A chuva ainda não parou. Há um mês
o mercado abre as sua portas
sob o negro das casas. Posso voltar as vezes
que quiser e ver sem nenhuma alegria
a queda impercepítivel à nossa volta.
A sombra entre jardins. Esta profusão
de jardins, muros de terra.
A luz se viesse daria uma segunda cidade e
uma forma de vida. Marítimos não sabendo uma
palavra de português ou árabe é
para o porto é para os barcos que querem ir.
Este refúgio entra gloriosamente na chuva.
A cidade não tem nenhuma farol por isso os
navios vêm até à última vaga.
Do outro lado da praça fica o café.
É um refúgio de negros. Os gritos do porto
chegam até ao rapaz que me trouxe. Estende-
-me um cigarro, conta-me os reclames do
extenso muro, os seus amores.
Sem fim. Sem caminho. Eu gosto da preguiça
desta praça. Sob este céu e chuva
lembro-me mais daquilo que não fui."
in "Poemas escolhidos", Assírio e Alvim.
[Para a minha querida Io que, num verão de tardes sem fim e serões sem rumo, no V.F., me ensinou a gostar de João Miguel Fernandes Jorge .]
"A chuva ainda não parou. Há um mês
o mercado abre as sua portas
sob o negro das casas. Posso voltar as vezes
que quiser e ver sem nenhuma alegria
a queda impercepítivel à nossa volta.
A sombra entre jardins. Esta profusão
de jardins, muros de terra.
A luz se viesse daria uma segunda cidade e
uma forma de vida. Marítimos não sabendo uma
palavra de português ou árabe é
para o porto é para os barcos que querem ir.
Este refúgio entra gloriosamente na chuva.
A cidade não tem nenhuma farol por isso os
navios vêm até à última vaga.
Do outro lado da praça fica o café.
É um refúgio de negros. Os gritos do porto
chegam até ao rapaz que me trouxe. Estende-
-me um cigarro, conta-me os reclames do
extenso muro, os seus amores.
Sem fim. Sem caminho. Eu gosto da preguiça
desta praça. Sob este céu e chuva
lembro-me mais daquilo que não fui."
in "Poemas escolhidos", Assírio e Alvim.
[Para a minha querida Io que, num verão de tardes sem fim e serões sem rumo, no V.F., me ensinou a gostar de João Miguel Fernandes Jorge .]
Imperdível, em Roma
A imaginada Roma. A filmada Roma. A lida Roma. A falada Roma. A estudada Roma. A ansiada Roma. A retratada Roma. A curiosa Roma. A amada Roma. A belíssima Roma. A denegrida Roma. A sentida Roma. A amorável Roma. A descuidada Roma. A ruidosa Roma. A divertida Roma. A saborosa Roma. A encantadora Roma. A desvirtuada Roma. A inspirada Roma. A inspiradora Roma. A estonteante Roma. A maliciosa Roma. A intensa Roma. A inventada Roma. A inventariada Roma. A prestigiada Roma. A intrigante Roma. A secreta Roma. A distraída Roma. A engenhosa Roma. A surpreendente Roma. A mitificada Roma. A desmistificada Roma. A espiritual Roma. A misteriosa Roma. A pagã Roma. A catolicizada Roma. A imperial Roma. A quentíssima Roma. A influente Roma. A amantíssima Roma. A odiada Roma. A invejada Roma. A arrogante Roma. A impositiva Roma. A afável Roma. A descontrolada Roma. A incontornável Roma. A perturbante Roma. A arrebatadora Roma. A politizada Roma. A poderosa Roma. A polémica Roma. A normatizada Roma. A crítica Roma. A populista Roma. A ignorante Roma. A cultíssima Roma. A malina Roma. A intriguista Roma. A generosa Roma. A cruel Roma. A artística Roma. A monumental Roma. A monumentalizada Roma. A competitiva Roma. A megalómana Roma. A recatada Roma. A despudorada Roma. A pecadora Roma. A virtuosa Roma. A preguiçosa Roma. A petrificada Roma. A dinâmica Roma. A verdejante Roma. A ocre Roma. A movimentada Roma. A calorosa Roma. A estimulante Roma. A incomparável Roma.
Ainda bem que eu não sou mãe
- Hoje, podias aspirar parte da casa, enquanto eu faço o resto das coisas?
Respirou fundo, mas nem má-vontade se poderia chamar ao esgar.
- Sim, claro.
Pega no aspirador. Explico como deve fazer e fiscalizo pelo canto do olho com pequenas indicações. O quarto dele, o meu, o hall, tudo a eito e com algum método. Quando chegou a vez da cozinha, o enfado e o cansaço haviam-se definitivamente instalado.
-Já está. Posso ir?
-Podes. Está feito. Obrigada.
Corre para o quarto e já de skate alinhado transversalmente à anca, abrindo a porta da rua:
-Seca de trabalho! Ainda bem que eu não sou mãe.
Respirou fundo, mas nem má-vontade se poderia chamar ao esgar.
- Sim, claro.
Pega no aspirador. Explico como deve fazer e fiscalizo pelo canto do olho com pequenas indicações. O quarto dele, o meu, o hall, tudo a eito e com algum método. Quando chegou a vez da cozinha, o enfado e o cansaço haviam-se definitivamente instalado.
-Já está. Posso ir?
-Podes. Está feito. Obrigada.
Corre para o quarto e já de skate alinhado transversalmente à anca, abrindo a porta da rua:
-Seca de trabalho! Ainda bem que eu não sou mãe.
Nem todas as cartas de amor são ridículas...
Caríssimo Senhor Fernando Pessoa:
Poesia é poesia e eu, que o admiro, não seria pessoa para o contradizer, não fossem as evidências.
Permita-me, portanto, que o desafie: leia, por quem é, esta carta e depois esta.
Não altere o seu poema. Está muito bem como está, seria assim como alterar um texto da Bíblia, ou seja um «sacrilégio». Mas, em consciência, diga-me se depois disto mantém que «as cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas».
(em jeito desajeitado de homenagem ao amor de dois doces amigos que escrevem cartas de amor que não são ridículas e que as partilham connosco...).
Poesia é poesia e eu, que o admiro, não seria pessoa para o contradizer, não fossem as evidências.
Permita-me, portanto, que o desafie: leia, por quem é, esta carta e depois esta.
Não altere o seu poema. Está muito bem como está, seria assim como alterar um texto da Bíblia, ou seja um «sacrilégio». Mas, em consciência, diga-me se depois disto mantém que «as cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas».
(em jeito desajeitado de homenagem ao amor de dois doces amigos que escrevem cartas de amor que não são ridículas e que as partilham connosco...).
London, London II
Do roteiro Londrino «me and my kid», para as interrogações que nos ficaram:
a) O que é que os londrinos fazem aos automóveis? Em cima dos passeios não estavam.
b) Porquê que eles informam tanto - mind the gap, mind the gap, é uma instituição nacional, a par dos autocarros de dois andares e dos táxis, sendo certo, aliás, que os «gap» no metro são cada vez menos e aquele estribilho nunca cessa - e os portugueses não informam nada? (género, Câmaras Municipais de Portugal inteiro: "caiu-no-buraco?-não-tinha-olhos-para-ver-que-estava-lá?", a que dá logo vontade responder com um "vi-mas-queria-conhecer-o-fundo-do-buraco-daquela-estrada").
c) Sempre que pedimos desculpa a um inglês, mesmo que lhe pisemos um calo com toda a força, ele responde invariavelmente com um sorridente «never mind»; em Portugal, se fazemos o mesmo a quem tocámos ao de leve num braço, a melhor reacção que podemos esperar é a de não haver reacção nenhuma. A razão da diferença é fácil de descortinar: alguém se lembra de ouvir uma mãe, pai ou professor portugês a ensinar a uma criança a dizer, «não tem importância", se lhe pedem desculpa? Por favor, sim, obrigado, sim, desculpe, sim...mas, «não tem importância» e o respectivo sorriso de absolvição, não! A questão é portanto, porquê que isso não é ensinado às nossas crianças?
a) O que é que os londrinos fazem aos automóveis? Em cima dos passeios não estavam.
b) Porquê que eles informam tanto - mind the gap, mind the gap, é uma instituição nacional, a par dos autocarros de dois andares e dos táxis, sendo certo, aliás, que os «gap» no metro são cada vez menos e aquele estribilho nunca cessa - e os portugueses não informam nada? (género, Câmaras Municipais de Portugal inteiro: "caiu-no-buraco?-não-tinha-olhos-para-ver-que-estava-lá?", a que dá logo vontade responder com um "vi-mas-queria-conhecer-o-fundo-do-buraco-daquela-estrada").
c) Sempre que pedimos desculpa a um inglês, mesmo que lhe pisemos um calo com toda a força, ele responde invariavelmente com um sorridente «never mind»; em Portugal, se fazemos o mesmo a quem tocámos ao de leve num braço, a melhor reacção que podemos esperar é a de não haver reacção nenhuma. A razão da diferença é fácil de descortinar: alguém se lembra de ouvir uma mãe, pai ou professor portugês a ensinar a uma criança a dizer, «não tem importância", se lhe pedem desculpa? Por favor, sim, obrigado, sim, desculpe, sim...mas, «não tem importância» e o respectivo sorriso de absolvição, não! A questão é portanto, porquê que isso não é ensinado às nossas crianças?
London, London I
Fui, no final do mês passado, mostrar um pouquinho de Londres ao querido Têzinho. Uma visita turística, absolutamente sem pretensões que não fosse (quase, quase) a de o levar lá, divertirmo-nos e que ele ganhasse um bocadinho, por pequeno que fosse, de mundo.
Tudo o que um miúdo de doze anos - e se calhar qualquer pessoa - tem direito, na sua primeira vez na cidade, pelo que os registos são poucos e não muito interessantes: Big Ben, Roda do Milénio, pequena viagem de barco no Tamisa, «bus» para turista, um musical (Billy Elliot, enfim, médio) e até o Madame Tussauds. ..
Museu da Ciência (assombroso), Museu de História Natural (colossal, dispensa bem os meus cumprimentos) e os imperdíveis Gabinetes de Guerra, onde Churchill se refugiava para co-estabelecer, com os restantes aliados, a estratégia de combate aos alemães.
Um «bunker», então, ao que se sabe, muito fedorento e irrespirável, tanto mais que ninguém prescindia ali do vício do tabaco e o Senhor Primeiro-Ministro, como bem sabemos, não seria um bom exemplo, nessa matéria. «Bunker», que de bunker em matéria de segurança contra ataques, só teria o facto de ser secreto. Supostamente, encontra-se hoje como no dia em que acabou a guerra (mais arrumadinho, imagino).
Corremos dois pisos da Tate Modern à velocidade «cem-metros-sem-barreiras» (uma das duas únicas concessões - a outra foi a visita à Abadia de Westminster de que, aliás, só o tecto da capela de Henrique VII me deixará uma recordação perene - que negociei para aquela viagem, já que ela era sobretudo para ele, e só porque ainda não existia da última vez que lá estivera, séculos atrás, e morria de curiosidade). Enviesarei, portanto, qualquer resposta que implique pronunciar-me sobre o quanto gostei, ou não, da Galeria ou, sequer, de qualquer quadro.
E por aqui ficam os registos do roteiro londrino com o filhote. Sem muitas histórias, mas que espero que conte na história da sua vida, para o bem e para o mal, que com as más experiências, tal como com as boas, também se aprende.
***
Antes de me ir embora:
1. Inacreditavelmente mau, o Madame Tussauds, ainda que não tanto quanto a excitação das centenas de pessoas que por lá pululavam. Fugimos em «no time» - não sem antes tirarmos duas fotos, ele com o Mourinho, eu com o Wilde, obviamente e apenas, para obtermos as nossas credenciais para a maledicência. Não me lembro quem me terá dito que, para o miúdo, seria giro, pelo que concluo que sonhei.
2. Que se passa com os belos, sempre-verdes e celebrados jardins londrinos que eu, nos tais séculos atrás conheci? Os outros não sei, mas St James Park e e Hyde Park pareciam searas alentejanas em pleno Verão.
Tudo o que um miúdo de doze anos - e se calhar qualquer pessoa - tem direito, na sua primeira vez na cidade, pelo que os registos são poucos e não muito interessantes: Big Ben, Roda do Milénio, pequena viagem de barco no Tamisa, «bus» para turista, um musical (Billy Elliot, enfim, médio) e até o Madame Tussauds. ..
Museu da Ciência (assombroso), Museu de História Natural (colossal, dispensa bem os meus cumprimentos) e os imperdíveis Gabinetes de Guerra, onde Churchill se refugiava para co-estabelecer, com os restantes aliados, a estratégia de combate aos alemães.
Um «bunker», então, ao que se sabe, muito fedorento e irrespirável, tanto mais que ninguém prescindia ali do vício do tabaco e o Senhor Primeiro-Ministro, como bem sabemos, não seria um bom exemplo, nessa matéria. «Bunker», que de bunker em matéria de segurança contra ataques, só teria o facto de ser secreto. Supostamente, encontra-se hoje como no dia em que acabou a guerra (mais arrumadinho, imagino).
Corremos dois pisos da Tate Modern à velocidade «cem-metros-sem-barreiras» (uma das duas únicas concessões - a outra foi a visita à Abadia de Westminster de que, aliás, só o tecto da capela de Henrique VII me deixará uma recordação perene - que negociei para aquela viagem, já que ela era sobretudo para ele, e só porque ainda não existia da última vez que lá estivera, séculos atrás, e morria de curiosidade). Enviesarei, portanto, qualquer resposta que implique pronunciar-me sobre o quanto gostei, ou não, da Galeria ou, sequer, de qualquer quadro.
E por aqui ficam os registos do roteiro londrino com o filhote. Sem muitas histórias, mas que espero que conte na história da sua vida, para o bem e para o mal, que com as más experiências, tal como com as boas, também se aprende.
***
Antes de me ir embora:
1. Inacreditavelmente mau, o Madame Tussauds, ainda que não tanto quanto a excitação das centenas de pessoas que por lá pululavam. Fugimos em «no time» - não sem antes tirarmos duas fotos, ele com o Mourinho, eu com o Wilde, obviamente e apenas, para obtermos as nossas credenciais para a maledicência. Não me lembro quem me terá dito que, para o miúdo, seria giro, pelo que concluo que sonhei.
2. Que se passa com os belos, sempre-verdes e celebrados jardins londrinos que eu, nos tais séculos atrás conheci? Os outros não sei, mas St James Park e e Hyde Park pareciam searas alentejanas em pleno Verão.
Pinóquio e Gepeto
Há pessoas que, nas grandes, como nas pequenas coisas são geniais.
Para os reconhecer nas grandes, outros farão melhor que eu, com prémios e coisas dessas que muito orgulham os amigos.
Aqui, faço questão de celebrar os pequenos e divertidos incidentes sem importância, não só porque a mais me não «ajuda o talento e a arte», como ainda porque, como bem sabemos, é deles que são feitos os nossos dias mais felizes.
Cruzávamos mails, a três, esta tarde. Pequenas e rápidas frases. Ironizo e chamo à minha querida amiga e interlocutora, mentirosa. Resposta risonha: Pinóquio, Pinóquio, eu?!!!
E o nosso interlocutor, seu belo Perseu: :^)
E eu, distraída ou obtusa: Que é isso?
E ele: Um pinóquio, claro! (comentado em francês para o «francamente» ser mais incontornável).
E eu: Boa! E um Gepeto, como seria?
Pensei, por alguns momentos, que não estaria para me aturar, o que era legítimo. Falamos de um artista, mesmo.Preparava-me para minimizar o mail e esquecer o assunto, quando cai a resposta: :3)
Para os reconhecer nas grandes, outros farão melhor que eu, com prémios e coisas dessas que muito orgulham os amigos.
Aqui, faço questão de celebrar os pequenos e divertidos incidentes sem importância, não só porque a mais me não «ajuda o talento e a arte», como ainda porque, como bem sabemos, é deles que são feitos os nossos dias mais felizes.
Cruzávamos mails, a três, esta tarde. Pequenas e rápidas frases. Ironizo e chamo à minha querida amiga e interlocutora, mentirosa. Resposta risonha: Pinóquio, Pinóquio, eu?!!!
E o nosso interlocutor, seu belo Perseu: :^)
E eu, distraída ou obtusa: Que é isso?
E ele: Um pinóquio, claro! (comentado em francês para o «francamente» ser mais incontornável).
E eu: Boa! E um Gepeto, como seria?
Pensei, por alguns momentos, que não estaria para me aturar, o que era legítimo. Falamos de um artista, mesmo.Preparava-me para minimizar o mail e esquecer o assunto, quando cai a resposta: :3)
Estranhos açorianos
-Mãe, os açorianos falam de uma forma estranha...
Tinha ido buscá-lo ao ATL, onde passara já alguns dias com outros miúdos de Angra enquanto eu trabalhava, pelo fiquei vagamente perplexa com a observação
- É, têm uma pronúncia um pouco diferente da nossa. Só reparaste agora?
-Eu sei, não é isso...dizem «montes»...
- Montes?! Montes de quê? Montes de coisas? Enfim, não é muito correcto, mas eu por exemplo digo-o muitas vezes, tu sabes.
-Não é isso, mãe...dizem «montes de fixe»...
- «Montes de fixe»? Ah, estou a ver. E como é que se deve dizer?
- «Bué da fixe», claro!
Tinha ido buscá-lo ao ATL, onde passara já alguns dias com outros miúdos de Angra enquanto eu trabalhava, pelo fiquei vagamente perplexa com a observação
- É, têm uma pronúncia um pouco diferente da nossa. Só reparaste agora?
-Eu sei, não é isso...dizem «montes»...
- Montes?! Montes de quê? Montes de coisas? Enfim, não é muito correcto, mas eu por exemplo digo-o muitas vezes, tu sabes.
-Não é isso, mãe...dizem «montes de fixe»...
- «Montes de fixe»? Ah, estou a ver. E como é que se deve dizer?
- «Bué da fixe», claro!
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