Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens

Ninguém tem culpa


Do "abrupto"

Subia a Rua do Carmo com um amigo meu. Procurávamos um local para comer qualquer coisa rápida. "Aqui?" - pergunta-me. "Sim, porque não?" - respondo, meia distraída, parando à frente da enorme loja com ar sofisticado ainda que, como ele  próprio apontou, pouco cosy. "Reparei no outro dia e fiquei curioso; é uma daquelas padarias francesas".

Sorri, não me ocorrendo sobre uma padaria francesa em Portugal, que não fosse coisas prosaicas como "é muito desplante dos franceses quererem vender pão e bolos a quem os tem muito melhor que eles" e "o que estamos nós à espera para ir fazer mais e melhor em Paris?".

Senti que me olhava surpreendido enquanto caminhávamos para a entrada (eu mereço estes olhares, porque às vezes parece que habito outro planeta). " É da cadeia Eric Keiser". E eu, continuando-me a sentir a última parva do universo: "Hum, não sabia...".

De repente, estaquei. A bem sucedida cadeia francesa de pão variado que parece de plástico, e de bolos caros, com coberturas coloridas e envernizadas, resolveu instalar-se, como por essa altura já toda a gente saberia, menos eu, na loja que era da antiga Livraria Portugal. Ali mesmo.

Da Livraria Portugal só ficou a escada para o primeiro andar, lavada e esfregada de toda a sua história, e um espaço que parecia antes tão pequeno para livros quanto agora parece incomensurável para pães e bolos.

Lembrei-me do texto de Pacheco Pereira, e revi-me ali, nos anos 80/90, à procura de livros por algumas vezes (que aliás nem foram tantas assim). Dei comigo a fixar a escada, agora quase asséptica, com um-olhar-longo-que-pode-ter-parecido-quase-triste, enquanto uma das empregadas ajeitava os bolos reluzentes nos tabuleiros, e uma outra limpava o chão nem se percebia já de quê numa loja tão absurdamente impoluta.

Ninguém tem culpa. Mas como eu gostava que tivesse! Se, de boa mente, a pudesse imputar a alguém, este post não terminaria aqui.

Conta-me como foi em Lisboa


Após cem anos de congelamento das rendas, que começou em 1910 e se instalou definitivamente com a política habitação de O. Salazar, e num momento em que a nova lei das rendas abala os alicerces do mercado de arrendamento em Portugal - na expectativa de que não pretenda reparar injustiças passadas com iniquidades futuras - um curioso "conta-me como foi" em Lisboa, versão propaganda...



Da essência mediterrânica do Jardim Gulbenkian

A minha querida Io desafiou-me. Vamos lá, deve ser giro. Percebo pouco de plantas, apesar de pai agrónomo e, hoje em dia, desconforta-me desconhecer praticamente tudo do mundo da botânica (entendamo-nos, da história que envolve esta ciência, que não nasci com alma de cientista).

O folheto que nos entregaram à entrada revelava, desde logo, o que desconhecia: António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Teles inspiraram o seu projecto do Jardim Gulbenkian (na foto) na mitológica Ilha dos Amores do Canto IX dos Lusíadas (tenho a exacta noção de que não deveria expor assim a minha ignorância, mas não vale batota, aprendi mesmo ali).

Para além de plantas portuguesas e intercontinentais, apostaram em árvores e arbustos, trepadeiras e herbáceas mediterrânicas, plantas estas que hoje nos foram revelados nas suas múltiplas histórias e lendas mitológicas.

Ouvia o biólogo -Pedro Lérias - que nos guiava e só pensava na desprezada importância de uma boa história para nos despertar os sentidos e alcandorar ao conhecimento. Não se gosta do que não se conhece e uma história bem contada é, por natureza, uma boa alavanca.

Das tílias (cordata e tomentosa, esta de folha mais larga e prateada) sabia apenas que as suas folhas têm propriedades calmantes, pelo que se utilizam em infusões; isto, para além daquilo que recentemente lera sobre uma, de folhas enormes, existente em Sintra, no blogue Sintra, Acerca de.

A sua relação com o carvalho - árvore sagrada dos romanos dada a sua cor dourada que sempre me encantou - que se poderia dizer sufocante pela densa sombra que provoca, nunca me passara pela cabeça. Uma vez instalada uma tília, não há carvalho que lhe sobreviva.

É por isso que na Europa central as florestas e bosques são de tílias (que, tal como as faias, não se fixaram confortavelmente no nosso país após as glaciações) e em Portugal, de carvalhos. Tivemos a oportunidade de observar exemplares de carvalho nacional ou carvalho alvarinho (quercus robur) que, em conjunto, constituem a essência da minha ideia de um bosque romântico, sobretudo no final do Verão, princípio do Outono.

A oliveira tem uma longevidade que pode atingir os dois mil anos (o que já agora ao que, entretanto, apurei na Wikipédia, constitui cerca do dobro ou até dois terços da esperança de vida de um carvalho-alvarinho) e é o símbolo de Atenas: a deusa da sabedoria, Atena, terá oferecido à cidade aquela árvore, que fornecia alimento, óleo e madeira, na disputa por um padroado em que Posídon era um candidato perdedor à partida (oferecendo uma fonte de água salobra). Era dos seus ramos que se faziam as coroas dos jogos olímpicos.

Da romanzeira (punica granatum) ignorava que tem inúmeros nomes populares, inclusive o de granado, utilizado a norte do país. As terríveis granadas de guerra inspiraram o nome no seu fruto: quando explodem produzem o mesmo efeito «mil bagas». O seu cálice, em coroa, estará na origem do desenho das coroas dos reis europeus...enfim, se non è vero, è ben trovato. São, de facto, observados de perto, muito similares. A ela está associado um mito grego que justificaria o ritual anual das colheita, envolvendo Hades e Perséfone. Esta, por ter comido uma baga de romã, ter-se-ia visto na contingência de viver no sub-mundo de Hades metade do ano e a outra metade com os seus pais, ao cimo da terra.

Das amoreiras que o Marquês de Pombal mandou plantar precisamente na Zona das Amoreiras, em Lisboa, é-nos revelado que é da família das figueiras. E mais uma lenda mitológica desponta: Píramo e Tisbe, com uma história de amor similar à de Romeu e Julieta, viram o seu destino ligado à amoreira, depois de ele, pensando que ela morrera do ataque de uma fera enquanto esperava por si debaixo da tília, se ter suicidado sangrando abundantemente - seguido por ela, como é bem de ver. Aparentemente a amoreira que seria branca e amarga teria, com o sangue dele, passado a vermelha e doce.

A história das amoreiras não se resume, afinal, à das nossas infâncias, em parte dedicadas a descobri-las nos quintais de vizinhos fúrios para alimentar bichos da seda desgraçadamente enfiados em caixas de cartão com buracos.

Deixo só uma margenzinha para falar do querido plátano (platanus orientalis acerifolia), com o odor da minha infância, quando passeava com o carrinho das bonecas pelo jardim de Entrecampos. Hipócrates tem o seu nome ligado a esta espécie em virtude de aí ter ensinado os seus alunos. O plátano de Hipócrates, localizado na ilha de Cós, na Grécia, é historicamente considerada a árvore mais antiga da Europa.

Fica esta pequena colecção das minhas árvores e/ou histórias preferidas de uma visita de duas horas. Mas há quem possa ter preferido a da hera (símbolo da castidade), da alfarrobeira (e a polémica que ainda hoje levanta saber se S. João Baptista, no deserto, comeria os seus frutos ou gafanhotos) ou do loureiro (árvore luminosa esta em que terá sido transformada, por seu pai, a ninfa Dafne, a seu pedido, desesperada com a perseguição que lhe fazia Apolo, no intuito de a beijar) ou até do nenúfar (ou flor de lótus).

A visita às árvores mediterrânicas já não se repetirá . Uma última sessão está reservada para a semana, sábado pelas 11.00 h sobre as plantas intercontinentais. Possa eu, que não perderei.

Porquê que não encomendamos polícias britânicos?

Sigo, com pressa, na Avª Gago Coutinho, em Lisboa. Coloco-me numa fila do lado esquerdo, a meio da avenida, para fazer inversão de marcha. À minha frente, um automóvel da Brigada de Trânsito, com três viaturas à sua frente. Preparo-me para esperar, mas a certa altura a espera é longa demais. Começo a tentar perceber o que se passa. O segundo carro da frente faz pisca à direita para retomar a direcção inicial, o terceiro também. O primeiro automóvel, uma carrinha branca, tinha tido uma pane e obstruía totalmente e sem apelo, a passagem de quem pretendia inverter a marcha. Os dois outros carros já tinham saído da fila. Preparo-me para sair também e, incrédula, vejo o carro da polícia - sem que nenhum dos dois homens procurasse saber se se passaria alguma coisa, se seria necessária ajuda -acender também o pisca direito, e retomar, à minha frente, a via direita da Gago Coutinho. Sem mais!

Cansa-me, Lisboa

Não voto em Lisboa, porque não moro em Lisboa. Mas, trabalhando lá, obviamente usufruo mais de Lisboa do que quem aí resida e trabalhe em Santa Maria da Azóia, por exemplo. É um facto que não precisa de demonstração.

Isto tem uma efeito inevitável nas opiniões que me posso dar ao luxo de emitir sobre o que desejo para Lisboa. É que elas não têm de ser consequentes em relação ao meu voto, já que ele não vai existir.

Posso, portanto, do alto da minha absoluta irresponsabilidade cívica e política, dizer claramente: não quero saber do défice da Câmara - estou farta de déficites e quem para lá vá que trate dele -, não quero saber o que vão fazer com o espaço do Parque Mayer (só lá fui uma vez por curiosidade e não lhe vejo qualquer potencialidade que não seja de construção pura e dura, pelo que não me interessa), é-me indiferente o espaço da antiga Feira Popular, que obviamente vai parar às mãos de uma qualquer construtora que fará o mesmo que qualquer outra faria no seu lugar, isto é, o máximo de especulação imobiliária (estejam na Câmara , um ou dez Zés e outras tantas Rosetas). Até a discussão sobre o aeroporto em Lisboa, ou fora dela, me é relativamente indiferente (lembrem-se que estou a desfrutar no luxo da irresponsabilidade- «ai que bom não cumprir um dever»....).

Só me preocupa uma coisa: a imensa falta de qualidade de vida de quem vive ou trabalha em Lisboa. E isso, perdoe-se o desencanto, é qualquer coisa com que os Lisboetas vivem há séculos e com a qual vão ter de continuar a viver. Parece uma fatalidade. Pode melhorar-se qualquer coisa aqui ou ali (a área das Docas de Alcântara é um feliz exemplo, idem para os parques de estacionamento que foram sendo criados apesar de tudo), mas alguém é capaz de me explicar por que não é exequível um plano empenhado de transportes públicos que viabilize a redução a metade, a um quarto, mesmo, o número de viaturas que entra na capital diariamente? Que induza naturalmente - e não de forma forçada -cada cidadão a ponderar seriamente deixar o automóvel em casa? Que livre Lisboa do amontoado de carros que, actualmente, é?

Em suma, há algum fundamento válido para que a rede de transportes públicos não seja desenhada de tal modo que: a) esses transportes a passem de três em três, ou de cinco em cinco minutos? b) um único cartão nos permita, em cada momento, escolher aquele meio de transporte que com maior poupança de esforço e tempo, nos conduza ao nosso destino? c) esses mesmos transportes colectivos cheguem a cada recanto da cidade? d) os interfaces sejam amigáveis e não a complicação que são hoje em dia, como sempre foram? ...

Como é que é possível que isto nunca, mas nunca, seja a prioridade de nenhum candidato e se, acaso tiver sido ou vier a ser, acabe sempre por não ser concretizável?

Só há uma resposta: a nossa incapacidade crónica e abúlica de gerir, coordenar e liderar. Incrivelmente, é mais fácil reunir meios financinanceiros (balúrdios) para fazer túneis para passarem os automóveis de que gostaríamos, precisamente, de nos livrar, do que - com eventualmente bem menos dinheiro (ou até um pouco mais, que importa atento o investimento ambiental e na qualidade de vida que representaria)- engendrar uma solução de fundo para este problema.

Cansa-me, Lisboa. Cansa-nos, Lisboa.