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Deflação? Medo, muito medo


Economistas alertam para o risco de deflação em Portugal
Por Sérgio Aníbal
In Público, 17.12.2012

Pela primeira vez desde pelo menos 1978, o deflator do PIB caiu em Portugal para valores negativos. Se o fenómeno se prolongar, o país pode arriscar-se a cair na armadilha da deflação

  • Para o Governo e para a troika, é apenas uma redução não permanente dos custos que irá ajudar o país a reconquistar a competitividade perdida, mas são vários os economistas que vêem a recente descida da variação dos preços na economia para valores negativos como mais um sinal de que Portugal se arrisca a cair na perigosa armadilha de uma deflação prolongada.

    No segundo e no terceiro trimestre deste ano, pela primeira vez desde pelo menos 1978 (o primeiro ano das séries longas do Banco de Portugal), o deflator do PIB - que mede a variação dos preços no total da economia, não apenas no consumidor - registou valores negativos.

    Este resultado inédito deverá conduzir, segundo as últimas previsões da OCDE, a que, no total de 2012, se venha também a registar, pela primeira vez em décadas, um deflator do PIB negativo.

    A taxa de inflação no consumidor está também a descer, tendo ficado abaixo da barreira dos 2% em Novembro, mas sendo ainda sustentada por subidas homólogas de preços significativas em bens como os combustíveis e pela subida do IVA operada recentemente.

    Para Luís Campos e Cunha, professor na Faculdade de Economia da Universidade Nova, há nestes números um sinal de alerta que é necessário levar em conta. "Infelizmente, vejo essa evolução como sinal de uma "recessão com deflação". É uma combinação muito perigosa porque não temos política monetária nacional e a política orçamental só pode agravar a situação, em consequência da quase bancarrota de 2011", explica.

    O ex-ministro das Finanças e ex-vice-governador do Banco de Portugal considera ainda que "a deflação possivelmente não é mais aparente e não se mostra nos preços do consumidor, porque há efeitos do IVA". "Só o tempo poderá confirmar ou não os meus receios", afirma.

    À primeira vista, uma descida de preços na economia poderia parecer uma boa notícia, uma ajuda para que os portugueses enfrentassem melhor a descida de rendimentos que já sofreram e que se irá intensificar no próximo ano. No entanto, por trás dessa vantagem aparente, a deflação esconde perigos bem mais graves, que já foram comprovados no passado durante a Grande Depressão dos anos 30 do século passado ou na crise japonesa iniciada nos anos 90.

    Uma deflação prolongada coloca os países numa situação em que, devido a uma expectativa permanente de descida de preços, o consumo das famílias e o investimento das empresas não arrancam, deixando a economia num estado de autêntica depressão.

    Será isto que está a acontecer a Portugal? João Rodrigues, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, acha que sim. "O espectro da deflação é a melhor indicação de que podemos, graças à política de austeridade permanente que comprime a procura, estar a sair da recessão para entrar na depressão", afirma.

    No programa de ajustamento acordado entre as autoridades portuguesas e a troika, a história é contada de outra forma e aponta para um final diferente. Aí, a contracção de custos na economia é apenas vista com um passo necessário para que a economia portuguesa reconquiste a competitividade perdida. A fuga a uma espiral depressiva aconteceria neste caso graças ao sector exportador.

    Luís Campos e Cunha reconhece o desempenho positivo das exportações, mas teme que isso não chegue por si só para travar a ameaça da deflação. "Como sempre defendi, a competitividade da economia portuguesa para exportar não era um problema e a prova disso tem sido o excelente desempenho do sector", afirma.

    João Rodrigues não vê qualquer sinal positivo nas contas externas. "Os últimos dados do INE apontam para uma forte desaceleração do crescimento das exportações, em grande parte devido à replicação das políticas de austeridade nos principais mercados europeus de destino das nossas exportações. A correcção do desequilíbrio externo é feita cada vez mais à custa do colapso do mercado interno", afirma.

    Um dos maiores problemas que a deflação traz a um país fortemente endividado como Portugal é que torna ainda mais difícil a amortização da dívida. No seu último relatório, a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) alerta para este perigo. Um deflator negativo do PIB, contra as previsões do Governo, significa que o PIB nominal vai cair ainda mais do que o projectado, o que faz com que o peso da dívida pública na economia seja ainda maior e, por isso, mais difícil de pagar.

    "Se se vier a confirmar tal situação, de facto, ficará mais complicada a tarefa de estabilização das finanças públicas", reconhece Campos e Cunha.

    João Rodrigues lembra uma frase do economista norte-americano Irving Fisher, sobre a forma como interagem a deflação e a dívida: "Quanto mais os devedores pagam, mais os devedores devem".

Portugal: outra vez o truque de Deu-la-deu?


Deu-la-deu Martins -
Estátua em Monção
 
No Séc. XIV, depois de um longo cerco dos castelhanos às muralhas de Monção, a população morria de fome na fortaleza sitiada. Presumindo isso mesmo, os sitiantes esperavam pacientemente a rendição dos portugueses. Com notável sentido de oportunidade, D. Vasco Rodrigues de Abreu, o alcaide-mor de Monção, encontrava-se ausente noutras guerras, pelo que a sua mulher terá pegado nos últimos pães e, atirando-os do alto das muralhas aos inimigos, gritado:  "Deus lo deu, Deus lo há dado".
 
Deu-la-deu Martins teve assim os seus quinze minutos de fama, que valeram a Monção livrar-se dos nossos então arqui-inimigos, convencidos estes de que existia fartura de mantimentos na cidade.
 
Ouve-se Vítor Gaspar e Passos Coelho, a propósito da não extensão a Portugal das vantagens concedidas à Grécia (mecanismo que, aliás, nem se percebe porquê que não foi negociado em Junho como automático, e não "a pedido") alegadamente em benefício de uma aliás, moralmente indecente, descolagem da Grécia, e pasma-se: mas pensarão eles, conduzidos por sábios conselhos alemães, que estamos no Séc. XIV, em que o fluxo de informação era absolutamente inexistente?
 
Como é que podemos pretender usar o truque da Deu-la-deu Martins para ludibriar os hiper-informados mercados do Sec. XXI, que sabem com a máxima exactidão a que distância estamos da Grécia? Acresce que, como se sabe, até a história da Deu-la-deu não passa de uma lenda...

Bagão Félix: ética em tempos de crise

 
 
Bagão Félix
 Foto © Paulo Spranger/Global Imagens
 
Bagão Félix.  Aqui.
In Portal Ver, entrevista de Helena Oliveira, publicada no Jornal de Negócios on line, em 30.11.2012.

Da excelência ética. Da septicemia moral. Da sociedade de "pedra pomes". Dos (falsos) dilemas éticos. Do excesso de utilitarismo ético.  Das elites verdadeiras e das elites perversas. Da ética da exactidão. Do espelho ético: da ética da primeira pessoa e da ética da terceira pessoa. Da moral e do moralismo. Da ética kantiana: do dever ético passivo e do dever ético activo. Dos cargos e das pessoas. De Miguel Torga. Das crianças, dos salões e das celas. Do útil, do fútil e do inútil. Da austeridade. Do urgente e do importante. Do mundo virtual. Do desemprego. Da auto-estima. Da responsabilidade social. Do investimento nas coisas boas. Da parametrização econométrica da vida das pessoas. Da régua e esquadro. Da medida moral da economia. Do dogma de fé na economia e na política. Da redistribuição das sabedorias. Do triângulo "knowledge, skills e wisdom". De Sócrates, o grego. Da sabedoria dos velhos. Da sustentabilidade do Estado Social. Dos que não têm poder, não têm voz, não fazem greves. Do Estado possibilitador. Da aritmética e da sensibilidade. Do choque dos sistemas de saúde. Do rendimento social de inserção. Dos seus abusos. De outros abusos.

Explicar? Mas explicar o quê?


Ontem à noite, deixei-me ficar a ouvir Ângelo Correia a perorar sobre a inépcia do Governo em explicar aos portugueses o que está a fazer no âmbito da austeridade, porquê e com que objectivo, pelo que o Executivo teria, na sua opinião, doravante, de cumprir melhor esse papel.

Ficou-me uma dúvida: Ângelo Correia, e outros comentadores que já ouvi na mesma linha, querem que Passos Coelho e Vítor Gaspar expliquem concretamente ainda o quê?

Se o Governo não explica, é porque já explicou o que havia para explicar sobre as razões das medidas de austeridade, com-power-points-e-tudo, e nós-já-percebemos-muito-obrigado: elas tendem a arrecadar o máximo de impostos (com quase ausência de política fiscal, atropelo da economia e asfixia dos serviços públicos), por período indeterminado e indeterminável, com vista ao pagamento de uma dívida colossal e à redução de um déficite assombroso. O que é que, deste quadro de empobrecimento generalizado do país, Ângelo Correia pensa necessitar de esclarecimentos adicionais?

Tendo Portugal atingido, em outubro, 15,8% de taxa de desemprego ( o horrendo significado dos números do desemprego aqui), em vertiginosa tendência de subida, para quê entreter a consciência, pedindo inglórias explicações?

Das nossas âncoras particulares


Amanhã, a Senhor Merkel aterra em Portugal, para uma estadia de breves horas. O país divide-se, quanto à forma como receber a chanceler alemã, e se ela é ou não culpada do aprofundamento da crise europeia em geral, e portuguesa em particular.

Francamente, atingi um ponto em que já não me apetece procurar culpados, nem admitir ou recusar responsabilidades, nem tão pouco esperar que alguém seja capaz de resolver a situação. Dei comigo a pensar, ao invés, o que é que nos impede, aos portugueses, mas também aos restantes europeus, de virarem a mesa, e começarem do zero? De repente, percebi: Londres e Paris.

Numa passagem de um dos livros do Quarteto de Alexandria, "Mountolive" de L. Durrell (Ulisseia), uma das personagens, Clea, num momento que antecedia a 2ª  Guerra Mundial, questionava-se, a certa altura, sobre a possibilidade de efectivamente existirem bombardeiros que destruíssem capitais inteiras. Comentando que sempre julgara que as invenções do homem reflectiam os seus secretos desejos e que, no fundo, todos desejavam o fim "desta civilização", acabava por concluir: "Sim, mas será doloroso perder Londres e Paris. Que acha?"

O que nos faz recear começar do zero, percebi só então o óbvio, é mesmo isso: cada um de nós, portugueses, mas também europeus, rejeita a ideia de perder as suas Londres e Paris particulares. É o pânico de que deixem de existir, pelo menos como as conhecemos, que nos mantém ancorados a uma União Europeia tão absurdamente vacilante nas suas convicções.

Resta saber se estas âncoras nos impedirão de sermos arrastados pela tempestade, ou se nos levarão a afundar à sua passagem.

Nadando até à praia


Esta manhã, sinto-me disposta a ver algum sol por entre as nuvens depois de ter lido o que escreveu Francisco Sarsfield Cabral, no Semanário "Sol", em 23 de Outubro. Admito que isso seja tão difícil na economia e finanças portuguesas, quanto no próprio estado do tempo que se anuncia para hoje.  Mas a realidade, felizmente, tem vários cambiantes, e manter a sanidade mental num ambiente de desesperança colectiva passa por os revisitar a todos, e não apenas alguns. É por isso que "nadando até à praia" é a etiqueta dos incipientes rascunhos de pensamentos, que aqui se debitam sobre Portugal sob o signo da troika: às vezes, a praia parece demasiado longe, outras um pouco mais perto, em certos momentos vacilamos no desespero, noutros, uma corrente que nos aproxima da areia dá-nos novo alento.

Da vertigem de um ajustamento precipitado


É um estado de emergência total, próximo do de guerra, aquele em que vivemos? É, por isso, condição que temos de achar normal, a de que alguns tantos caiam hoje no campo de batalha da crise, para que outros sobrevivam no futuro? É por isso que, se nos preocuparmos com a mole imensa de desempregados de longa duração, no desespero do "desamparo aprendido", somos vistos como tendo falta de visão de futuro?

É neste sentido também que devemos encarar a refundação do entendimento com a troika? Um estado de urgência tal que, se for preciso, até a Constituição se altera? Nada tenho de princípio contra alterar a Constituição. Em minha opinião podia já ter sido feito. Mas é justo e avisado fazê-lo num momento em que pode ser o único escudo dos mais vulneráveis contra a devastação das suas vidas?

Fazê-lo agora, a quente, num momento de crise profunda, não será precisamente desistir de lhes dar, aos mais fragilizados, ou àqueles que, num futuro muito próximo, darão por si absolutamente impreparados para enfrentar este terramoto de Estado, o acesso a condições de vida minimamente dignas, à esperança de sequer viverem razoavelmente com muito pouco?

Suspeito intensamente da proposta de novos entendimentos que, por bem intencionados que sejam, tenham por único fim atingir as metas do déficite para 2014. As metas, sabe o governo como todos nós, são absolutamente inalcançáveis, pelo que me permito desconfiar que a "refundação", de que fala Passos Coelho, possa contribuir em mais do que uma gota de água para a redução do déficite. Antevejo, em contrapartida, um mar de desespero para uma grande parte da classe média, média-baixa e baixa, que passará a assumir para sempre a sua condição de desempregada, ou, caso mantenha ou consiga emprego, fugirá a todos os impostos que possa, porque se sente legitimada a não os pagar face aos, então, exíguos e medíocres serviços públicos à sua disposição.

A Islândia orgulha-se de ter recuperado de uma crise monumental sem ter prescindido do estado social. Mas para os portugueses, o estado social é coisa de nórdicos ricos e patéticos. Nós somos do sul, país pobre e periférico. Em Portugal, quando qualquer crise aperta, o povo, a primeira coisa que exige é a reinvenção de um Salazar, a imposição de um regime autoritário de qualquer cor ideológica, e os políticos, por seu turno, equacionam logo o desmantelamento do estado social, sem pensarem em propiciar aos mais desprotegidos, ou que nisso se transformem pela acção quixotesca de um governo, a possibilidade de viverem condignamente com as funções sociais do Estado em regime de serviços mínimos.

Preparamo-nos, portanto, para morder a mão que poderia dar aos mais carenciados algum consolo e alento para enfrentar os tempos difíceis que aí vêm. Num esforço enxangue, em lugar de negociarmos os juros usurários que nos cobram os nossos credores, insistimos em voltar ao salazarento "pobrezinhos mas honradinhos", de que falava João Galamba na discussão do Orçamento do Estado (deputado desse PS que, tal como o PSD,  geriram anteriormente o país com a irresponsabilidade de um pobre de espírito a quem saiu o euromilhões com a cumplicidade dos restantes partidos), e que Vitor Gaspar repudiou, ofendido, apenas porque, aparentemente, sofre de uma ignorância lexical tão extensa, quanto são reconhecidamente grandes os seus conhecimentos de modelos económico-financeiros, confundindo "salazarento" com "salazarismo".

Sim, há que mudar de paradigma. Recusá-lo seria alimentar um "optimismo irrealista" que teria efeitos perversos. Mas a necessidade de mudança tem ser intuída pelas pessoas, para o que é imprescindível tempo, pelo menos algum tempo. Não se muda as agulhas do raciocínio colectivo como se fossem as das linhas do comboio, e "a prioridade a um ajustamento rápido" de que falava ontem o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, é uma leitura fria e desapiedada da realidade, que ele pode institucionalmente defender, mas que eu devo, eticamente, rejeitar.

Vivo a realidade dos meus dias, e essa diz-me que há já demasiados corpos no campo de batalha e que muitos mais se lhe juntarão. Sei que um dia esses corpos serão "retirados do quadro" - há uma cena notável no filme "Linhas de Wellington", em que o general Wellington insiste que o quadro da batalha tem demasiados corpos e sangue, e pouca glória, mandando refazê-lo. Hoje, todavia, enquanto escrevo isto, não tenho de ter contemplações para visões de generais aos quais, ainda por cima, não reconheço as capacidades de Wellington. Serei, portanto, o pintor que insiste em recriar o que vê, e não apenas o que outros querem mostrar.

Mudar paradigmas com ajustamentos rápidos é algo de obviamente ilusório e precipitado e, se o desmantelando de grande parte do estado social acabar por fazer, como fará certamente, parte desse reajustamento, é garantido que se vai, com a água do banho, a cultura, a educação, a saúde, bem como os benefícios sociais a um nível ética e socialmente aceitável, só porque é mais fácil, e sobretudo mais rápido, do que cirurgicamente eliminar ineficácias e, lentamente, deixar então que o crescimento e desenvolvimento económico permita  que os privados tomem conta de parte possível das funções do Estado.

No fim, queiram os deuses que me engane porque muito gostaria poder, daqui a poucos meses, rir-me deste post, os credores continuarão descontentes connosco, exigirão ainda mais sacrifícios do que já cedemos de barato, e nem sequer nos poderemos orgulhar de um estado social eficaz, porque nessa altura estará tão anémico quanto os seus utentes.

Do desamparo aprendido


Lendo hoje aqui , no Jornal de Negócios, que "o desamparo aprendido ocorre quando tentamos fazer algo para mudar o estado negativo em que nos encontramos e nada parece funcionar. É então que podemos “aprender” que nada funciona e que nada podemos fazer para alterar o nosso destino. (...) A esperança é precisamente o contrário", ocorreu-me este depoimento  recolhido por Natália Faria, de Patrícia Marques, 29 anos, desempregada, 2 filhas e € 334 para viverem por mês, publicado há dois dias no jornal Público.

...

"Dormir ajuda. Nos dias piores, vou levar as minhas filhas à escola e volto para a cama e durmo o mais que posso. Ajuda-me a não pensar. Às vezes, ponho música alta pela casa toda para ver se consigo ficar mais alegre, quando elas chegam a casa. Fujo de chorar à frente delas. Acho que a frase que lhes tenho dito mais vezes nos últimos tempos é: “Não pode ser, a mãe não tem dinheiro...”.

Quando trabalhava, ainda conseguia dar-lhes um consolo. Ia ao supermercado e trazia sempre daqueles ovinhos de chocolate. Sempre igual para as duas. É uma paranóia que tenho. Tem que ser sempre tudo igual para as duas. Uma tem cinco e a outra oito anos de idade. Já dei por mim a perguntar-me a quem é que eu podia pedir um pão ou uma maçã para elas levarem para a escola.


Quero continuar cá, porque quero vê-las crescer. São a minha única sorte. No resto... o que me aparecer de trabalho eu aceito, mas parece que nasci com as portas todas fechadas. O último trabalho que tive, já passou quase um ano, foi nas limpezas do mercado de Matosinhos. Ganhava 20 euros por dia, das sete da manhã às sete da tarde. Quando não tinha senhas para o autocarro, ia a pé ou apanhava boleia de uma vizinha. Mas nem tempo tinha para estar com as minhas filhas. E era pouco dinheiro, não dava. Recebo 150 euros do Rendimento Social de Inserção, mais cem euros de pensão por uma das minhas filhas. Da outra não pedi pensão porque o pai nem sempre é certo e aí iam-me tirar o RSI. Ainda recebo 84 euros de abono de família, mas não chega para tudo.

Olho à volta e vejo mais desempregados do que empregados. Já desisti de ir às entrevistas. Pedem habilitações e eu só tenho o 6.º ano. Pedem experiência, não tenho. Pedem bom aspecto, eu até de sorrir tenho vergonha por causa dos meus dentes. Sei que pensam que tenho os dentes estragados por causa da droga, mas garanto que nunca me meti nisso. Foi derivado à minha segunda gravidez, a minha filha “comeu-me” o cálcio. Já pedi ajuda à Segurança Social para os arranjar mas dizem que fica muito caro. Pareço muito mais velha. Sinto-me muito mais velha.

Fujo de pensar porque, se me puser a pensar, só me apetece fazer asneiras. Por isso, vou-me agarrando às promessas de trabalho. Já falei com uma amiga que trabalha numa firma de limpezas para ver se terão lá lugar, também me falaram de um senhor que queria alguém para a agricultura numas quintas.

Voto, ainda voto, mas já não acredito que o país possa melhorar."

Portugal: tirar o melhor do pior


A imagem que  Portugal de 2012 tem de Portugal de 2012, não é a imagem que os outros países do mundo têm de Portugal 2012. Bem nos podemos sentir náufragos e acenar aos barcos que passam que ninguém nos verá ou, se nos virem, acenarão também por boa-educação e seguirão em frente. Não por omissão do dever de auxílio, mas apenas porque apesar de estarmos mal, muitos outros estão pior.

Portugal será para os outros aquilo que outros foram (e muitos ainda são) para nós durante muito tempo: um país que aparece nos dormentes noticiários do mundo por uma razão mais ou menos indistinta. Passámos de espectador a notícia que, aliás, tenderá cada vez mais a ser relegada para o fim dos noticiários, acabando mesmo por desaparecer. Depois do caos inicial, quem é que mais falou da Argentina, até recentemente com as nacionalizações?

O FMI dirá o que muito bem lhe apetecer, a Chanceler alemã virá cá em novembro, dezembro, fevereiro, pouco importa e, provavelmente, muito outros chefes de Estado e de governo se lhe seguirão numa roda viva solidária à nossa volta, parecendo que se esforçam muito para não fazer nada.

Não nos lamentemos. Portugal, nos seus tempos de euforia económica, também já fez parte dessas comitivas diplomáticas que se passeavam de avião a fingir que ajudavam países em situações até bem piores do que a nossa actualmente, sem lograr resolver absolutamente nada. Uma vez da caça, outra do caçador.

Há que escolher, portanto: queremos ficar aqui parados, morrendo a acenar, ou queremos fazer como Robison Crusoé de Daniel Dafoe e, esperando o melhor, preparar-mo-nos para o pior, e andar com a vida para a frente por nossa conta e risco?

Era bom que contássemos com um governo do nosso lado para isso, e não contra nós. Um governo que nos valorizasse, e não que nos puxasse para baixo, um governo nos dissesse "olhem, não vale a pena continuarmos aqui a acenar, vamos lá mas é fazer isto ou aquilo para relançar seriamente a economia". Mas um país só tem homens providenciais por uma de duas razões: porque os cria, educa e forma, o que não foi aparenteme o nosso caso, ou porque os encontra debaixo de uma pedra - mas até a sorte dá trabalho e não trabalhámos sequer o suficiente para ter essa sorte (a qualidade acumulada de "jotinhas" prova-o à evidência).

Contamos com  o quê, então? Pois, lamento: apenas com a sociedade civil. Essa é que não pode baixar os braços, essa é que tem de falar, agir, puxar por quem não pode ou, por ora pelo menos, parece não querer. Há que mobilizar energias no sentido certo. Não quero com isto dizer que percamos o direito à indignação, e que não protestemos sempre que se imponha, de cada vez que o Estado nos coloca injusta e estupidamente o pé em cima. Quero apenas dizer que não nos valerá de nada fazer greve à vida, só para provar que eles, Governo e troika, não têm razão.

Se a sociedade civil se mobilizar, não desistindo de estudar e de incentivar os menos priviligiados a estudarem também; se apoiar os mais carenciados, e a cultura e as artes, e se se juntar para, por exemplo, comprar os meios de diagnóstico e cura que faltem nos hospitais (como já aconteceu); se, em suma, se mobilizar para que o país perca o mínimo da qualidade de vida já alcançada - o que não quer dizer viver "à grande" como vivíamos -, em lugar de "se pirar", como dizia Nogueira Leite que iria fazer, e desistir do país e, com isso, acabarmos por prosperar, não estamos a provar que Governo e troika têm razão, mas antes que, apesar de a não terem de todo, fomos capazes de nos agigantar.

Há que tirar o melhor do pior, percorrendo a distância entre o desejar e o querer, ou seja, agindo.

Um pontinho amalgamado


Os dias de um desempregado nunca acabam, e as suas noites não dormem. O tempo passa e ele dá muito bem por isso. Mas consola-o a sua história aparecer mensalmente nos jornais, ainda que só ele logre vislumbrar-se por lá: uma pontinho amalgamado na taxa de desemprego para o mês de....

FMI: quando a bela adormecida acorda do seu longo sono


"(...)Até ao momento, diz o estudo [do FMI] as previsões para a evolução da economia têm sido efectuadas partindo do pressuposto de que um euro de medidas de austeridade provoca uma queda adicional do PIB de 0,5 euros. O FMI vem agora reconhecer que, afinal, a perda do PIB pode ir dos 0,9 euros até aos 1,7 euros. Uma conclusão que pode explicar muitas das previsões falhadas até agora em economias como a grega, portuguesa, irlandesa ou espanhola.

Para o próximo ano, o Governo prevê uma contracção da economia de 1%, com um recuo de 2,6% no consumo privado. Valores que são mais favoráveis do que os que se deverão registar este ano (variação negativa de 3% no PIB e de 5,8% no consumo privado) e que se verificaram em 2011 (variação negativa de 1,7% no PIB e de 3,9% no consumo privado). Isto apesar de, segundo aquilo que foi apresentado pelo ministro das Finanças para o Orçamento do Estado, se poder esperar que 2013 seja o ano com uma dose mais forte de medidas que afectam de forma directa o rendimento disponível dos portugueses.

Usando as novas contas do FMI é fácil perceber o potencial de erro que existe. Por um lado, de acordo com os modelos que ainda estão a ser usados e agora considerados errados, os cerca de 5500 milhões de euros de medidas adicionais de austeridade previstas para este ano (considerando apenas as que afectam o rendimento disponível) levariam a um recuo adicional do PIB de 1,6 pontos percentuais. Por outro lado, usando os números agora aconselhados pelo FMI, a quebra adicional do PIB poderia estar entre 2,9 e 5,5 pontos percentuais. (...)".



Jornal Público de 14.10.2012.

Portugal: aumento da tributação do valor confiança


Bem pode ter saído do Conselho de Ministros, reunido em sessões contínuas para aprovar o Orçamento do Estado para 2013, o anúncio da manutenção da clausula de salvaguarda para o IMI.

De nada valerá. Depois do episódio da TSU, depois do anúncio jurídica e socialmente repugnante da retirada precisamente da clausula de salvaguarda do IMI agora reposta, e do aumento draconiano de IRS a que seremos todos sujeitos em 2013, a cada dia que passa acontece no espírito dos portugueses uma avassaladora retenção na fonte da nossa confiança nas soluções que nos são apresentadas como redentoras.

Quando um governo é tão obviamente impermeável ao sofrimento do povo que o elegeu - e recuar em medidas que são infantilmente perversas não o torna mais permeável a esse sofrimento, apesar de ser meritório - é o Estado de direito que se desmorona, sendo certo que do seu bom funcionamento depende o pleno exercício de qualquer democracia.

A sensação é a de que passámos a viver num farwest momentaneamente sem xerife, ou com um filho toxicómano que, a qualquer instante, poderá revolver as gavetas mais recônditas da nossa casa, tentando encontrar nem que seja a letrinha em ouro da irmã mais nova para vender e adquirir a sua dose diária de droga. Tudo pode acontecer: o mau e o seu contrário, que se revelará igualmente mau.

Só resta saber até quando os portugueses vão preferir, tal como terá dito Goethe (citado in "A Alemanha sem Milagre - De Hitler a Adenauer", de Heinz Abosch, Portugália), "uma injustiça à desordem", acreditando no efeito benéfico que uma série infindável de injustiças terá no crescimento e desenvolvimento de Portugal, como se fossemos a Alemanha do pós-guerra do Chanceler Konrad Adenauer.

Esse seria um  acto de fé  que, como tal, corre por nossa conta e risco. É que, nem Portugal é a Alemanha do pós guerra, nem o povo português do pós-boom de crescimento (falseado, mas para o caso não interessa) é o povo alemão do pós-guerra.

Por conseguinte, a outra  hipótese, tanto mais provável quanto é certo que já nem o Papa da austeridade - o FMI - acredita nas vantagens da uma dose excessiva dessa droga, como lhe chama Paul Krugman, começaremos inevitavelmente a assistir a múltiplas e incontroláveis "manifestações de carácter de um povo" (de que falou eufemistica e até simpaticamente o Ministro Vítor Gaspar, perante os parceiros comunitários, a propósito das manifestações de 15 de setembro) afogado cada vez mais em desconfiança, desemprego, dívidas e desespero.  Manifestações essas que podem assumir cambiantes que nem me atrevo a antecipar.

Há uma ética de boa governança que Pedro Passos Coelho ignora olimpicamente, e para a qual se recusa a chamar a atenção dos nossos credores. E isso pode custar-nos tanto ou mais caro que os incomensuráveis dislates dos anteriores governos. Não vai ser bonito de ver, e muito menos de viver.

Portugal em busca das certezas perdidas


"(...) Há um batalhão de gente neste momento a lutar pelo País mesmo que parte dele não saiba fazê-lo. Cada português tem de decidir se acredita nisto. Se desiste, se se rebela. Ou se acredita, tira o sangue das pedras, paga impostos, luta pela sua vida e pela dos outros. Sim, é uma decisão cada vez mais individual. Porque está a tornar-se uma decisão de fé. (...)"

Pedro Santos Guerreiro. Jornal de Negócios. 3 de outubro de 2012.

Portugal em busca da culpa perdida



Um gigantesco "é bem feito" é dito todos os dias pelo Governo ao país. O país retribui em espécie.

Pacheco Pereira. Público. 6 de outubro de 2012.
 
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Em Portugal, nunca nenhum governante deixou de sonhar ser uma espécie de Fontes Pereira de Melo moderno, espalhando auto-estradas ou semeando rotundas, criando dívida directa ou dívida através de PPP, assim contribuindo para que, só em 2007, cerca de 70 por cento do crédito bancário total concedido a empresas e a particulares fossem destinados ao cluster da construção civil e imobiliário. Não surpreende que, com estes comportamentos e distorções, a dívida tenha crescido e a economia estagnado.
 
José Manuel Fernandes. Público. 5 de Outubro 2012.

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As economias no mundo ocidental estão a sofrer uma violenta ruptura com o passado iniciado algures no anos 80. Desde essa altura o crescimento fez-se à custa de crédito, num modelo liderado pelos Estados Unidos. Dizia-se que a China produzia e os Estados Unidos consumiam, a crédito dos chineses. Este foi o modelo que se rompeu com consequências devastadoras para os países mais fracos e endividados.

Helena Garrido. Jornal de Negócios. 2 de outubro de 2012.

O desemprego não é só uma taxa


"O desemprego em 2013 atingirá presumivelmente 16,4%", disso ontem o Ministro Vítor Gaspar (e nem vou discutir números, que estes já são suficientemente maus).

Traduzindo o óbvio desta estatística naquela parte que doi: se tivermos 100 pessoas que nos são relativamente próximas, entre familiares, amigos ou conhecidos, cerca de 16 estarão desempregados no ano que vem. Se tivermos 50, oito estarão sem emprego. Se forem 25, ainda assim quatro não têm como ganhar a vida. Se estreitarmos o círculo a cerca de metade, 12,  são dois os que não têm como se abrigar, alimentar ou sustentar os filhos, sem humilhantemente recorrerem, primeiro ao Estado, e depois à caridade de familiares, amigos ou estranhos.

E quando estes, por um qualquer bambúrrio, acabarem por encontrar emprego, nem que seja no estrangeiro (e salve-nos esse "estrangeiro" se conseguir), as estatísticas dirão que de imediato teremos outros tantos em iguais circunstâncias. E pode calhar mesmo a vez de sermos nós um dos desempregadas do círculo de familiares, amigos ou conhecidos de qualquer das pessoas do nosso próprio círculo de familiares, conhecidos ou amigos....

O desemprego para a estatística mede-se através de uma taxa. Na vida real, em "sangue, suor e lágrimas".

É um beco sem saída? Não! É apenas um beco aparentemente sem saída. Os políticos não sabem como sair dele? Como dizia Helena Roseta ontem, creio que não a propósito do desemprego, mas vale na mesma, "inventem"!

União europeia: a pobreza exclui, a riqueza isola


"A pobreza exclui (...) e a riqueza isola."
Lawrence Durrell, em "Justine" (Ulisseia)


Paul Krugman terá escrito ontem na sua coluna do New York Times", intitulada de "A loucura da austeridade na Europa", "que as medidas de austeridade levadas a cabo por países como a Grécia, Espanha ou Portugal foram demasiado longe". **

Terá acrescentado que os alemães não acreditam nisso: "Falem com políticos alemães e eles irão mostrar-vos a crise do euro como um jogo moral, um conto de países que viveram acima das suas possibilidades."

Assentemos nisto honestamente: foi pena estes três países não terem optado a tempo por uma política de rigor e de disciplina ao longo dos anos que levaram de integração europeia. 

Mas começa a ser óbvio, mesmo para quem, como eu, defende as vantagens de ajustamentos nestes Estados-membros (uma expressão que, aliás, nos discurso político e mediático começa a perder terreno para apenas "Estados" ou "países") ainda que induzidos pela crise das dívidas soberanas, que serem eles agora impostos abruptamente, num curtíssimo espaço de tempo, em ambiente recessivo e absolutamente desesperançado, e ainda por cima em jeito de castigo, só pode dar mau resultado.

Exauridos como estaremos após esforços gigantescos no trilho do empobrecimento, com economias enxangues e incapazes, por isso, de se autofinanciarem, seremos, na União Europeia, como aquela criança que, frequentando o melhor dos colégios, não tenha o que almoçar em casa: débil, com medíocre rendimentos escolar e sem amigos.

Se isso acontecer poderemos já antecipar com facilidade o fim da União Europeia.

Sim, para que quereremos nós, países então sobreempobrecidos, ou eles, Estados ainda ricos, manter a Europa artificialmente unida, se parte dela se sentirá excluída como um sem-abrigo, enquanto a outra festejará, isolada, num esplendoroso castelo de arrogância?

Os políticos alemães de que fala Krugman podem ter até razão, mas o que farão depois com ela?

** Sobre os riscos da austeridade diz mais no seu blog: http://krugman.blogs.nytimes.com/2012/09/28/debt-is-a-drug-and-so-is-austerity/

"Happy start" vs "Happy end"


A minha bisavó tinha uma pequena bizarria que muito divertia os netos. Embora a sua casa já tivesse luz eléctrica havia algum tempo, apagava as luzes todas mal a família saía, e acendia a candeeiro de petróleo. Não era por nada, apenas pela mesma razão que se Cais do Sodré sempre fora "Caixidré", porque haveria agora de se dizer Cais do Sodré? bufava impaciente, quando os netos, divertidos, tentavam ensiná-la a pronunciar o nome correctamente.

A minha bisavó, com o seu candeeiro a petróleo, criou oito filhos, a quem deu a melhor educação e a possível instrução. Foi assim que uma das suas filhas, a minha avó, se transformou na melhor e mais bem formada avó do mundo, mas não foi além da 2ª classe (actualmente, 2º ano). Quando quis ser enfermeira, por só ter percebido a sua vocação após ter passado alguns meses no hospital com uma doença rara que lhe permitia ainda assim movimentar-se e fazer alegremente curativos nos outros doentes, disseram-lhe que era impossível porque não tinha a 4ª classe. Exactamente, a 4ª classe seria o quanto bastava. Mas não tinha tido condições para concluir a instrução primária.

Nada disto se passou na idade média, porque a minha avó nasceu em 1919 e a minha mãe, que me conta a história, em 1940.

Ontem lembrei-me do episódio do "pitrolim" como lhe chamava, enquanto lia, no jornal Expresso, o caso da mãe solteira, que teve uma loja aberta e uma vida relativamente confortável e, agora, sem direito ainda reconhecido a subsídio de desemprego (só recentemente o governo instituiu que os empresários falidos também podem ter direito a subsidio de desemprego) sobrevive, com a filha de cinco meses, apenas com um subsidio mensal de aleitamento de € 130 (dá banho ao bébe em casa de uma vizinha, toma ela diariamente um banho frio e há sete dias que não comia uma refeição quente por ter o gás cortado).

Tal como a minha bisavó, também ela apaga as luzes à noite. Não pelo capricho de querer ser alumiada por um candeeiro a petróleo, mas por não poder pagar a electricidade, na casa emprestada e degradada onde vive.

Há alguma diferença entre a vida da minha bisavó e a desta mulher? Há, sim.  À minha bisavó, ninguém lhe deu nada, mas também ninguém lhe prometera nada, pelo que aprendeu a viver com o pouco que tinha e amealhava. Todavia, depois das dificuldades por que passou, a história da minha bisavó teve um "happy end":  podia recusar para si, por divertida bizarria, uma qualidade de vida que os seus netos já usufruíam, com perspectivas de melhorias graduais para os seus pais e para eles próprios.

Vivemos durante anos na convicção de que só o infortúnio de uma catástrofe climática, de um tremor de terra ou até de uma guerra imprevista que a união europeia nascera para evitar, poderia levar as pessoas a  terem a histórias de vida que parecessem ter sido escritas de trás para a frente, acabando abruptamente mal, depois de lhes ter sido prometido, sem reservas, vidas dignas mediante determinadas condições.

Sabemos agora que é precisamente o contrário: só um imprevisível bambúrrio para o país pode gerar "happy ends" para essas mesmas pessoas.

Quando o "autismo" é tamanho XL


As manifestações de sábado passado evidenciaram que, politicamente, mais mortífero do que fracassar previsões económico-financeiras e pedir sacrifícios adicionais e desmesurados a um povo, é governar de forma autista, "gabinetista", com falta de bom senso político, desconhecimento da realidade e desrespeito pela inteligência dos governados.

Estou convencida que anunciar e insistir na transferência do pagamento da TSU dos empregadores para os trabalhadores, uma medida tão obviamente ineficaz, iníqua e cuja demonstração da incorrecção técnica é de uma simplicidade atroz, com a mesma despreocupação de quem trauteia a canção "Nini dançava só p'ra mim", acabará por constituir um case study de "erros infantis a evitar", e será mesmo incluído em próximos manuais para "políticos tótos".

O pior é que este erro pueril pode sair caro ao país. Corremos o risco, não só de ver abalada um mínimo de coesão nacional à volta do assunto austeridade, como ainda que as instituições e a imprensa internacionais - que por definição reduzem tudo à sua expressão mais simples quando se trata de assuntos que observam de fora, não nos iludamos - se sintam tentadas a ver nas manifestações em Portugal, a evidência da proverbial resistência dos países intervencionados ao imprescindível esforço de contenção orçamental.

Não é, no entanto, fácil traduzir aquela que é a indizível questão portuguesa que acabou indirectamente por levar milhares (eu própria!) à rua, numa linguagem que um alemão, um finlandês ou um holandês entendam. É ela que, se é um facto que temos um problema económico- financeiro para resolver, grande, enorme, do tamanho do mundo, ele pouco é se comparado com aquele que é a imaturidade, impreparação, falta de visão e experiência de vida, da nossa inábil e autocomplacente classe política.

É óbvio que precisamos do dinheiro que nos é emprestado pela troika como pão para a boca, mas o que nos dava mesmo jeito era uma meia dúzia, nem precisava de ser muito bem contada, de políticos a sério.

You'd be a man of vision, if only you could see


Relativamente às novas e ineficazes medidas de austeridade que o governo e a troika resolveram impor a Portugal, I rest my case.




What's New, Mr. Magoo?
What new and wild adventure have you bumped into?
You are a man of stature,
In your hat you're 5 foot 3.
You'd be a man of vision,
If only you could see!

What's New, Mr. Magoo?
My, but your dog McBarker looks a lot like you!
He'd be a good night watch dog,
But he's nearsighted too!

From your peculiar point of view,
This crazy world's a blur to you!
Oh say, can you see What's New, Mr. Magoo?