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Queres sempre ficar com tudo


Estavam a separar-se.
Discutiam tudo, tudo, até para quem ficaria a propriedade do raio de sol
que, pela manhã, pintava o quarto de luz.
- Incindia sempre primeiro em mim.
- Mas detinha-se em mim por muito mais tempo, depois.
-Troco pelo fresco da noite no terraço, que troquei pela brisa da janela da cozinha.
- De que te valia? Tu nunca estavas na cozinha. Sempre na sala a beber. O que tu bebes!
A brisa é minha. O raio de sol também.
 - Queres sempre ficar com tudo.
 - Não é argumento. Ficas com a casa. Para mim, fica
o raio de sol,
o fresco da noite,
e a brisa da janela da cozinha.
- Vês? Queres sempre ficar com tudo.

Vida fora de moda


Foi despedida. Chegou a casa, pendurou a vida no cabide e predispôs-se a esperar cinco anos até que as contas públicas do país se equilibrassem. Tinha 53 anos e acabara apenas o segundo ano do ciclo. Fez as contas. Nessa altura teria 58 anos, o filho nunca teria acabado a faculdade e a filha nem lá teria entrado. A pequena  trabalharia numa loja, em Londres. O rapaz, num restaurante fast food/fast to let you go, em Lisboa. Fez mais contas. O Banco, ao qual devia pagar a prestação mensal da casa, não esperaria cinco longos anos pelo emprego que já ninguém lhe daria com aquela idade.

Olhou para o cabide e para a vida pingona e coçada que ali acabara de pendurar. Fora de moda. A sua vida estava fora de moda. Dobrou-a cuidadosamente, abriu a mala das viagens que não faria mais, e colocou-a lá dentro. Sentou-se em cima da mala e esperou que sufocasse.

Os bastidores dos sorrisos simpáticos


É impossível não saber, hoje em dia, que os sorrisos das empregadas/os das caixas de supermercados, ao fim de cinco horas seguidas a passar produtos pela máquina registadora, é tão profissional quanto a sua indumentária. Basta lembrar-nos do tipo de atendimento nas lojas da baixa lisboeta dos anos 70 e 80, prévios ao boom consumista, para perceber que o sorriso não é fácil, e muito menos natural, para quem passa um dia inteiro a atender clientes dos mais diversos humores.

A exacta extensão da plasticidade daqueles sorrisos, a troco dos poucos euros que auferem de salário os que  têm de os ostentar, tive-a, porém, no outro dia, nos poucos minutos de um monólogo da empregada de caixa de uma grande superfície, miúda, com ar de quem acabara de ser formada na arte de registar bens de consumo e bem atender os clientes, e que me permitiu espreitar os bastidores da fábrica de sorrisos do hipermercado.

Em silêncio perplexo, e apenas mantendo um vago sorriso de compreensão, vi-a passar os produtos e dizer, num tom entre o hiper-ansioso e o divertido: "- Já passei o seu vale? Ah sim, ainda bem, tenho de me lembrar sempre de passar os vales... já fiz tantas asneiras hoje, agora já chega... há pouco esqueci-me de passar o vale e um cliente chamou-me a atenção... ah, e tenho de manter o sorriso, tenho de manter o sorriso, é o que nos dizem lá dentro, ter sempre um sorriso simpático ...eles têm razão, o sorriso é o mais importante, ai que não sei se passei este produto, deixe ver, sim, sim... o seu talão, obrigada, boa tarde... o sorriso, o sorriso é o mais importante, eles têm razão!".

Brindei-a com um sorriso, natural o meu, perante aquela mini peça trágico-cómica e saí meio estonteada.

Querido diário vírgula troicas e baldroicas


Hoje, a mãe chegou a casa muito chateada porque ouviu dizer que, para além de cortarem os subsídios das pessoas que trabalham para a causa pública, e que ela achava que certamente não trabalhavam lá muito porque senão não lhes tinham cortado os subsídios, a troica dissera que era preciso baixar os salários das pessoas que trabalham para a causa privada, que ela sabe, por ela, que trabalham muito, mas que, pelos vistos, a troica acha que também trabalham pouco, e que a mãe gostava mesmo de saber era quem era a troica para dizer isso dela, mas o que ela achava mesmo é que baixar os salários era ilegal, que afinal havia leis e as leis eram para cumprir, mesmo que não fossem sempre muito cumpridas, mas o meu irmão Cajó meteu-se na conversa resmungada da mãe e, rindo-se muito, disse que isso das leis era uma coisa muito vaga, que, agora, quando se previa que alguma decisão podia ser ilegal, em lugar de se mudar de decisão mudava-se logo a lei, para podermos ficar pobrezinhos mas legaizinhos, e que a troica pode impor o que muito bem entender porque, afinal, nos empresta o dinheiro que nós já gastámos nas estradas por onde não passam carros e nos programas da CEE que deram muito dinheiro a ganhar a empresas de formação de dinheiro para elas próprias, e em outras coisas que nós só vamos sabendo aos poucos, e que os governos que seguem a troica fingem que as decisões más são da troica, porque acham que assim estão protegidos pelo escudo da troica, mas que estão muito enganadinhos, que o escudo não dá para todos, coisa que eu não percebi, porque eu pensava que a moeda agora era o euro e já não o escudo, mas adiante que eu não sei, a bem de ver, qual é a moeda da troica e, como sabes, querido diário, não posso perguntar muitas coisas por causa dos ranquinges das meninas de sete anos das escolas públicas, e a mãe, que nem ouviu o Cajó, disse que também não percebia porquê que os patrões, em lugar de estarem contentes com essa ideia de pagarem menos aos empregados,  preferiam manter-se a pagar-lhes o que a troica diz que é muito, mesmo que ela, mãe, saiba que não dá nem para comer quanto mais, e que isto até parecia que era um regime capitalista de pernas para o ar, só que o Cajó disse logo que a mãe não percebia nada, que era claro que os patrões gostariam de pagar menos aos seus empregados, que não iam prescindir assim dos seus charutos grandes, o que não queriam era deixar de serem patrões dos seus empregados por já ninguém poder comprar o que os empregados produziam, que eles são capitalistas porque não são parvos, coisa que o Cajó até desconfiava que os senhores da troica podiam ser à vontade - o Cajó às vezes diz estas coisas menos bonitas, mas acho que é por estar muito zangado por já não ir receber a PS3 no Natal - porque, mesmo quando os senhores da troica mandam bitaites errados não perdem eleições, nem negócios, nem sequer os seus salários, porque é assim com todos os tecnocratas, esta palavra deu-me muito trabalho a escrever, querido Diário, e eu  fiquei muito cansada, mas o Cajó disse logo é que é mas é por ser portuguesa, que os portugueses ficam muito cansados com pouco, pelo menos é o que pensam os senhores da troica e que, por isso, é que vamos todos ganhar menos do que ganhávamos, mas eu acho que é antes porque o mundo era muito mais simples há muito, muito tempo quando eu só tinha seis anos e, agora que já tenho sete, parece que está a ficar complicado de propósito só para eu não perceber nada, hoje, a mãe nem precisa de me mandar para a cama, que eu mesmo vou sem ela, quer dizer, a mãe mandar, adeus!

Querido diário vírgula no dia em que o rei faz anos

Eu não sabia quem era o Senhor Alberto  João Jardim, mas o meu irmão Cajó da  borbulhas gigantes e que hoje está em dia de muita paciência, obrigada mano, explicou-me que foi o senhor que ontem deu uma tarde de férias, a partir das 14 horas, aos trabalhadores da função pública das ilhas da Madeira e do Porto Santo, se eu andasse num colégio particular daqueles que estão sempre nos primeiro lugares dos ranquingues das escolas todas, escreveria concerteza arquipélago, mas assim como só tenho sete anos e frequento o 2º ano da escola pública portuguesa ainda só posso dizer as duas ilhas que elas são, mas adiante, porque parece que é costume lá na Madeira dar-se assim a tarde quando é das tomadas de posse dos governos do Senhor Alberto João Jardim, quer dizer, disse o meu irmão Cajó a rir-se muito, pode ser que a dessem também para as tomadas de posse dos governos que não fossem daquele senhor, mas nós não podemos saber porque há trinta anos que são todos tomados apenas por aquele senhor, pelo que os outros mesmo que quisessem também dar aquela tarde, a bem de ver nunca poderiam dar, a mãe, que nunca liga nada ao que diz o Cajó, mesmo quando ele diz coisas assim acertadas, bufou enquanto colocava o ferro de passar a ferro, cá está se eu andasse num colégio privado já teria escrito ferro de engomar, assim, não posso, mas dizia eu que a minha mãe enquanto punha o ferro em cima da minha saia disse que também isto era agora uma embirração que os continentais arranjaram com aquele senhor, que era tudo mas era inveja, porque ele era muito eficiente e muito giro, porque nunca ninguém reparara que isto acontecia há trinta anos e agora é que se punham com notícias destas que não interessavam nada, mas o Cajó riu-se muito, não percebi se da mãe se do Senhor Alberto João, e disse que nunca ninguém reparou porque, como é bom de ver, em Portugal, só quando somos pobres é que contamos tostões porque aquele dia de férias tínhamos sido todos nós a pagar, outra coisa que eu não percebi porque a mãe disse que não nos podia dar mesada por causa da tal osteridade, e agora ele ali a dizer que nós pagávamos uma coisa que eu não posso pagar e que mesmo que pudesse eu não pagava porque eu sabia muito bem que destino dar a essa mesada que a mãe não me dá, a mãe então disse que só havia uma coisa que ela não percebia bem, era porquê que, se a tomada de posse era às 17 horas, as pessoas podiam faltar ao trabalho logo a partir das duas da tarde, e que a menos que o despacho dissesse que era obrigatório fato a rigor, barba feita pela segunda vez, ou cabelo alisado  no caso das senhoras, para se assistir àquela cerimónia pela televisão das casas de cada um, três horas de antecedência, numa ilha com aquela acessibilidades todas, lhe parecia um claro exagero, e um desvio de fundos públicos para causas privadas de muitos dos funcionários públicos que deveriam ter aproveitado a tarde mas era para ir às compras de Natal, e o Cajó que está sempre a rir mesmo quando eu não diga que está, riu-se outra vez e disse que devia ser mesmo isso que eles tinham feito, mas que estava certo que o Senhor depois da posse que estava  a tomar naquele momento, o que eu também não percebi porque ele não tinha nenhuma chávena  de chá na mão para tomar nada, mas não perguntei porque eu já começo a ter este complexo de escola pública e não quero aparecer nos ranquingues das meninas de sete anos que sabem menos que todas as outras só por causa da falta de chá, iria concerteza abrir processos de inquérito para apurar quem seriam os engraçadinhos que dormitaram no momento da sua tomada de posse ou que aproveitaram para antecipar as suas muitas compras de Natal, porque afinal era preciso respeito, e também dar trabalho àqueles funcionários públicos que eram pagos para instruir esses processos e que, portanto, aquela medida era mas era para proteger os empregos dos funcionários públicos que faziam os  processos disciplinares que assim não iam para a rua, nem íam também os que não tinham assistido à tomada de posse por terem ido às compras, ou o que fosse, porque em Portugal toda a gente sabe que esses processos nunca dão em nada e todos podiam continuar a ganhar dinheiro para gastar nos presentes de Natal, em benefício do relançamento da economia nacional, e para o engraçadinho que esteja a detectar que eu aqui usei uma expressão que uma menina de sete anos da escola pública nunca usaria pois fique a saber que pedi ao Cajó para ma ditar com muito cuidadinho, que eu ando na escola pública mas tenho muito brio, e depois o Cajó que está sempre a ler as notícias do jornal para poder rir assim como ri,  assobiou alto e disse que a Madeira estava como Oeiras, muito à frente, porque no despacho do senhor Alberto João Jardim que estava ali copiado para o jornal (lá está, não posso dizer transcrito), a palavra designada "acto" em português arcaico, ele disse-me que esta palavra eu podia escrever que só queria dizer velho e o que é velho não interessa para nada,  mas dizia ele então que que estava escrito "ato" e que isso provava o muito avanço e produtividade dos madeirenses, muito maior que a dos os cubanos do continente, eu não sei porquê que ele nos chamou cubanos que eu achava que esses eram as pessoas viviam num país chamado Cuba mas, lá está, não quero andar a parecer uma miúda do 2º ano da escola pública e portanto também não perguntei, e ele a dar-lhe que, só por isso, os serviços públicos da madeira mereciam aquela tarde de feriado, já deves ter percebido querido diário que eu não percebi muito da conversa do serão de hoje, mas também agora não tenho tempo para pedir ao Cajó para explicar melhor, porque a mãe já lá está outra vez com o seu nem mas, nem meio mas, vai mas é para a cama que amanhã é dia de pica boi, até amanhã!


Querido Diário vírgula


Tem andado a chover muito por cá e hoje até já começou a fazer frio, apesar de ainda antes de ontem ter estado um calor medonho, eu não gosto nada do frio mas a mãe está muito contente porque diz que não havia nada mais aborrecido do que as meias estações em que uma pessoa nunca sabia o que havia de vestir, mas eu acho que a mãe queria dizer é que nesta época de osteridade ou austeridade, ou lá que é, é bom só haver uma estação quente e outra fria, para não ter de comprar roupa que não é quente nem fria, para mim e para o meu irmão, quando a mãe disse isso, o meu irmão, que está naquela idade parvinha, desatou a rir e disse que achava que devia ter sido encomenda do primeiro-ministro, ou presidente ou isso, porque se se está a acabar com as estações e com os comboios, é bom que se acabe também com os apeadeiros, eu não achei graça à graça porque não sei lá muito bem o que é um apeadeiro, mas quando perguntei ao Cajó, que é o meu irmão que tem borbulhas gigantes na testa, ele disse que nem valia a pena eu aprender, que quando crescesse não haveria em Portugal sequer estações quanto mais apeadeiros, que isso ia ser tudo História e que depois eu ia ver que a História é uma ganda seca, mas eu também não percebi o que é que as estações do ano tinham a ver com os comboios e com a História e continuei a fazer a cópia sobre as estações do ano, e ele então começou a rir-se muito alto e disse-me que não me esquecesse que agora as estações do ano, aquelas que ainda existem e as que estão a desaparecer, escrevem-se todas com letra pequena, e depois começou a dizer que era por causa do simplex,  para a gente não ter de pensar muito a carregar no queps loque, mas eu também já tenho sete anos e disse-lhe que achava que ele estava enganado, que não era por causa desse simplex que eu, por acaso, também não sei bem o que é, mas por causa de um acordo que os de cá tinham feito com os brasileiros das telenovelas, e com os senhores dos outros países que também só quase-quase falam português, mas que querem todos escrever exactamente na mesma língua, embora depois se vá a ver e não seja bem assim, porque eles podem escrever baptismo com pê e nós temos de escrever sem pê, o que afinal não tem sequer muita importância porque, na minha família, a mãe já disse e está dito, não vai haver mais batismos nem com pês nem sem pês, porque parece que a osteriadade também não deixa fazer festas de batismo porque são muito caras, a osteridade parece que é filha da troica que eu nunca vi, mas também nunca conheci a tal osteridade, só que isso a mãe diz que é natural porque eu só tenho sete anos, e a última vez que ela esteve em Portugal já foi há muitos anos, quando não havia férias no Brasil, nem nas Maldivas e os miúdos iam todos para as escolas públicas e os pais diziam que eram muito boas porque eles também lá tinham andado, embora agora toda a gente veja que elas não deviam ser assim lá grande coisa, porque os políticos que mandam no país desde há muitos anos e aqueles que gostavam de ter mandado e os que hão-de vir ainda a mandar, parece que andaram lá todos, e as coisas não estão lá muito bem no país, até se diria que eles andaram todos foi na escola pública grega e que, portanto, não perceberam nada do que lá lhes ensinaram, se até os gregos, que percebem a língua, pelos vistos não aprenderam nada, como é que os portugueses podiam aprender, não é, deve ser por isso que alguns deles se sentam naquele lugar que parece que se chama assembleia, assim todos voltados para os professores com ar de quem vai aprender muito, e depois vai-se a ver e nunca aprendem nada, mas o Cajó diz que até estaríamos bem se isso fosse só em Portugal, que é um país que, por enquanto, ainda se escreve com letra grande, mas não se sabe por quanto tempo, já que se está mesmo a ver que a osteridade, ou o simplex, ou aquele acordo dos senhores brasileiros da telenovelas, já nem sei, também nos vai tirar a letra grande de Portugal, olha querido diário, vou dormir que eu não queria mas a mãe está ali a dizer que não é mas, nem meio mas, é já para a cama e mais nada, até amanhã!

Finalmente, encontrei o meu anjo da guarda

Do fundo do corredor do supermercado, pareciam um casal jovem apenas embrenhado na decisão da marca de leite a levar para casa. Ela, de uma simplicidade incomum feita de bom gosto, vagamente ajoelhada ao lado dos pacotes; ele, alto e bem constituído, corpo trabalhado provavelmente num ginásio da moda, olhava-a, segurando o cesto ainda para as primeiras compras. Podiam ser personagens de um filme francês.

Por nada, a minha atenção auditiva fixou-se na conversa deles, pelo instante de apenas três passos em direcção à zona dos congelados.
-Se continuares a achar que olho para todas as mulheres...
A minha alma estacou. A voz dele baixa e serena, mantendo a pose de banalidade quotidiana. Ela, silenciosa, retirando do plástico os pacotes finalmente escolhidos, como se ele não tivesse dito aquilo. Aparentemente, nada mudara entre o fundo do corredor e aqueles três passos.

Duas voltas mais e dirijo-me à caixa. Reparo que estou atrás deles. Ele sai de cena, porque se esquecera de algo. Ela olha-o por uns segundos, e volta-se para a frente. Estaquei de novo. Nas costas descobertas dela, entre as alças de um vestido de ganga delicioso, uma tatuagem em letra elegante:
«Finalmente, encontrei o meu anjo da guarda».

De fato e gravata

O Facto protestou formalmente na Assembleia Ortográfica, porque também queria ser escrito sem "c", tal como o seu colega Fato. Assim não havia gravata que lhe assentasse, francamente.

Deuz no cinema

Deuz sentou-se ao lado do homem, na última fila da já escurecida sala de cinema. Olhou em redor e pediu-lhe emprestados o sobretudo e o chapéu abandonados no colo. Colocou o chapéu na cabeça. O sobretudo, usou-o como uma manta até aos olhos. Tudo no receio de ser confundido.

O mercenário

- Que idade tens, avô?
- Setenta e sete.
- Setenta e sete? Pensei que fosses mais velho.
- Às vezes sinto-me mais velho. Mas não sou, tenho só setenta e sete, enfim, a caminho dos setenta e oito.
- Foste sempre assim...velho?
- Ah, não, meu filho...claro que não. Alturas houve da minha vida em que me senti mesmo bem mais novo do que era na realidade. Mas depois veio a guerra...
- Qual guerra, avô?
- A minha guerra.
- Não estou a ver, avô. Que guerra? Não estiveste no ultramar, não?
- Não, claro que não. Não sou assim tão velho. Falo da minha guerra. Duma guerra só minha, que inventei, que criei.
- Não percebo.
- Às vezes, por tédio, por fuga às responsabilidades, para nos sentirmos para sempre jovens, por destino, sei lá, alistamo-nos, como mercenários, numa guerra qualquer.
- Mercenários?
- São soldados que, em troca de um soldo, de dinheiro, servem a causa de uma guerra que não é sua.
- Combateste numa guerra, por dinheiro? Precisavas de dinheiro?
- Não, não...não precisava de dinheiro. Talvez achasse que precisava de paz comigo mesmo.
- E foste para uma guerra?!
- Às vezes fazemos coisas como essas, só porque não encontrámos paz em nós próprios. É uma fuga, percebes? Pensamos que não nos importa, porque afinal a guerra não é nossa. É dos outros. Servimos, no fundo, aqueles que pensamos que são os nossos interesses. Os nossos interesses são o nosso soldo, o nosso pagamento.
- Ah...e depois, o que nos acontece?
- Depois já lá estamos e começamos a ouvir as bombas cair. Pouco importa. Somos invencíveis e a bem de ver a guerra não é nossa. Mata, mas não a nós, apenas os outros.
- E não sofremos?
- Não, no início, não. Pensamos para nós mesmos, que aquelas pessoas que morrem pelas nossas balas não nos dizem nada e continuamos a receber o nosso soldo, aqueles nossos interesses, entendes?
- Então ficamos bem.
- Muito bem mesmo. Sentimo-nos leves. Livres das peias que antes nos prendiam. É um sentimento de liberdade. É bom. Temos de dar uns tiros, gerir situações inesperadas, protegermo-nos das balas que nunca sabemos se nos atingirão. Mas continua a ser uma guerra dos outros.
- Parece-me bem. Como se fosse um jogo, daqueles que eu gosto de jogar na play station.
- Isso, mais ou menos. O risco não é nosso, é daqueles «bonecos».
- Mas vamos então ser jovens a vida inteira.
- É o que nos parece, de facto. De início temos a certeza de que é assim e que vai continuar a ser para sempre...mas um dia, as coisas mudam. Percebemos que morreu, atingido por uma bala disparada da nossa própria arma, um amigo que nos era querido e que nos queria bem. O soldo parece de repente mais pequenino, mais reduzido. Estamos mais sozinhos. E a guerra, de repente, não é só dos outros, já é nossa também.
- Voltamos, portanto, ao ponto inicial. Com peias e sem paz.
- É, parece-me que sim. O sentido da guerra muda. Passamos a bater-nos por uma causa que não escolhemos inicialmente, de que não gostamos, mas que não temos outro remédio se não defender. Se o houvessemos antecipado talvez nunca nos tivessemos alistado. Quando percebemos isso ficamos muito velhos.
- E sem respeito por nós, avô?
- A partir daí, continuamos mercenários, porque nos mantemos a defender exclusivamente os nossos interesses, mas nessa altura já sabemos que perdemos muito do que de mais importante tínhamos antes de nos alistarmos. Tudo perdido por um desvario que não mediu consequências.
- E o respeito por nós próprios, avô? Afinal, matamos e matámos pelos nossos exclusivos interesses.
- Damos com ele, talvez mais tarde, também morto, ensanguentado, sem possibilidades de regresso à vida.
- E então?
- A partir daí é só uma questão de sobrevivência, entendes? Disparamos em todas as direcções, defendemo-nos à toa, desesperados. Depois, a guerra acaba. Todas as guerras têm um fim. Pelo o resto da nossa vida talvez procuremos a redenção, mas sempre sem certeza de a encontrar.
- Mas não cometemos, afinal, nenhum crime, avô. Nessa guerra, se é imaginária, não matámos, de facto, ninguém.
- Não, filho, suponho que não....

Por um sinal de desamor

O sms chegou, inesperado:
fiz uma asneira.
Ao menor sinal de desamor do A.,
liguei ao C. que insistia que me amava.
O C. largou aquela a quem dizia que amava
e correu para mim, a quem amava.

Cai o pano:
o desamor não era desamor,
era, afinal, uma coisa própria do amor.

O C. está sem aquela a quem dizia que amava,
aquela que se pensava amada, sem o C.,
eu sem o C. que, afinal, não amava
e sem o A., a quem amava.
E o A., que me amava, sem mim.

As cinco palavras

Ele, ali, sentado no restaurante do Museu, a falar... primeiro, a convencê-la da pouca inteligência da sua posição, depois a fingir que entendia o que não poderia sentir. Meio cordato, meio impaciente. «Pois, nisso somos diferentes, eu sei...».
Ela, ali, sentada no restaurante do Museu, a falar...com a vaga sensação de «eu já disse tudo o que tinha para dizer», que não mais que dois segundos bastariam para formular aquelas cinco palavras que se explicavam a si mesmas. Meia cordata, meia impaciente. «Pois, nisso somos diferentes, eu sei...»
Eles, ali, sentados no restaurante do Museu, a falar, casal que manifestamente já não queria ser casal. Meio cordatos, meio impacientes.
Um pinguim saltou da arca dos gelados e sentou-se à mesa deles.