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O que não estiver nos livros da escola, não sabe
Conversa ao jantar de um dia destes, entre mãe curiosa do que pensam cabecinhas adolescentes, e filho de 14 anos que se presta a estas conversas, não porque seja nerd, mas por desfastio, porque não há televisão na cozinha.
- Quem é o melhor aluno da tua turma?
- Não sei o A., o J., o R...quer dizer, o R. é muito bom, estuda muito mas, faz impressão, parece que lhe falta... cultura geral.
- Cultura geral? Como assim? - ri-me, pensando na cultura geral que acho sempre que o meu próprio querido adolescente não tem.
- Não sabe coisas que ...é estranho, o que não estiver nos livros da escola, não sabe....
- Se calhar, não tem pais e avós, como tu tens, que lhe respondam a todas as perguntas e mais uma que se lembre de fazer, ou que saibam pelo menos onde ir procurar as respostas.
O miúdo olhou-me, atónito, por entre duas garfadas finais.
- É, pode ser. Nunca tinha pensado nisso. Isso é importante, não é?
Encolhi os ombros.
- Se for por isso que o R. é assim, é mesmo mais importante do que é justo para ele. Pode chegar exactamente onde vocês chegarem, mas com muito mais esforço. É, aliás, uma vantagem que tu desperdiças vezes demais, já reparaste?
- Hum, hum...posso levantar-me da mesa e ir jogar?
Suspirei. Mãe que é chata para pregar sabatinas à mínima, é obviamente mãe que é chata para assentir, bandeira branca ao vento, mas dizer de imediato: "- Desde que levantes a mesa!".
Do 20 ao 28
A turma do T. tem apenas 28 alunos. Afinal, pensei, isto até nem está mal. Costumavam ser 30 ou 31, passou a 28, não pode haver queixas. A justificação fez logo o seu caminho: naquela turma foi colocada uma aluna com síndrome de down.
Fico sinceramente encantada que a turma do meu filho integre uma aluna que, por esse facto, poderá vir a ser útil à sociedade e, portanto, muito mais feliz. Mas a sua aprendizagem sairá suficientemente beneficiada entre 27 galfarros do 9º ano (ainda que de aproveitamento e disciplina bastante razoáveis), mesmo que conte com um professor de apoio para ela? 28 alunos ao todo?!
Não querendo/podendo ser demagógica, sobretudo em época de crise económica e financeira, pergunto-me se, entre o máximo de 20 alunos anteriormente obrigatório em casos como estes, e os actuais 28, não haveria um meio termo aceitável.
Educação: um ministro Monthy Python
Ainda não há muitos anos, o Instituto Piaget fazia publicidade aos seus cursos de formação de professores, dizendo que nunca poderia haver professores a mais ou qualquer disparate do género.
É claro que já então toda a gente sabia que havia professores a mais, pelo que a opção pela docência foi para muitas pessoas uma escolha consciente dos riscos. O facto de o Ministro da Educação dizer agora (em entrevista ao semanário "Sol") que há professores a mais não surpreende, portanto.
Mas se o Ministro Nuno Crato diz evidências incontornáveis (a natalidade está a diminuir e há professores a mais), só o tempo dirá até que ponto não está a exagerar, apenas a pensar pela cabeça do Ministro das Finanças e se, de facto, é para isso que lhe pagamos o ordenado.
À primeira vista, uma coisa é a evidência matemática de que menos natalidade há-de exigir menos professores em geral. Outra, é o Ministro impor que as turmas tenham 30 alunos - sejam de alunos diferenciados ou problemáticos - criar gigantescos e desumanizados agrupamentos escolares, não contar com as transferências que necessariamente se vão verificar do privado para o público dos filhos de uma classe média empobrecida, cortar disciplinas (impossível negar que terá muita razão nestes casos), acabar com apoios académicos a alunos menos bons porque sem pais que os acompanhem por não terem instrução ou empenho para tanto, e depois dizer que há professores a mais. Parece a lógica dos Monty Python, não?
Já uma vez o disse aqui, e (quase) me repito agora, há que optar: ou queremos uma "escola inclusiva" com vista a um país genericamente mais qualificado, e nesse caso turmas pequenas e apoio académico extra aos que dele mais precisam, seguindo o famoso modelo finlandês, é uma prioridade; ou somos indiferentes à dimensão das escolas e das turmas, e a esses apoios, e teremos uma "escola exclusiva", de elites, apostada apenas nas crianças cujos pais colmatam, em casa ou com explicações extra, o que elas não apreendem na escola (para além dos que meritoriamente vencem mesmo no deserto).
Um país de alunos medíocres (em "eduquês", com baixo rendimento escolar) é, obviamente, como um país que sofre uma epidemia por não ter feito o devido programa de vacinação. A falta de qualificações de cada uma das crianças onerará as gerações futuras em know how, eficácia, produtividade e, the last but not the least, em capacidade de cidadania que só a valorização pessoal e acdémica de cada aluno assegura.
Constato, mais uma vez, e até prova em contrário que, em Educação, Portugal parece insistir em apostar no vermelho mesmo que lhe garantam que neste casino só sai preto. Parece uma fatalidade.
Ensino profissional: isso é lá ameaça que se faça?
Ontem à tarde, na aldeia da Região Centro onde nasceu o meu pai e passamos férias, um miúdo sardento de sorriso luminoso maior que ele próprio, pertencente a uma das famílias mais pobres da aldeia, vem chamar o T. para jogarem à bola. Enquanto o T. se prepara, faço conversa.
- Olá. És o C., não és? Quantos anos tens?
- Tenho 12.
- E andas em que ano?
- Passei para o 6º ano... mas o meu irmão mais velho chumbou outra vez no 7º...
- Hum... e que idade tem ele?
- Tem 15 e já chumbou duas vezes no 7º. Agora já o ameaçaram que se chumbar mais vai para o profissional...
- Ah é? Para o profissional?
- É, mas ele não se rala. Não quer saber. Diz que se o obrigarem a ir estudar outra vez para o Porto, chumba outra vez...ele quer estudar aqui, mas a minha mãe nunca deixa porque nós vivemos no Porto, e só passamos as férias aqui na casa da minha avó...
O T. surge de ténis já calçados e os dois desaparecem.
Percebi já à noite, e por acaso, que aquela é "a sua história", a que conta a quem o quiser ouvir, porque sabe que provoca a maior estupefacção: um irmão, misto de herói e malandreco teimoso que, mesmo arriscando-se "a ir para o profissional", insiste em reprovar por não querer estudar no Porto.
Desconheço de todo se, para o irmão do C., não será mesmo mais adequado o ensino profissional.
O que parece evidente é que os dados estão lançados para o garoto: uma escola que não acudiu atempada e eficazmente - em "eduquês", interveio precocemente -, e que agora se limita a esperar que uma ameaça produza um efeito mágico; uma família insuficientemente instruída e preparada para lhe desmantelar o raciocínio imaturo; um Ministério da Educação que não quer saber nem de uma coisa nem de outra, e se prepara para "despejar o problema" do tamanho de um miúdo de 15 anos no ensino profissional.
E tudo isto com óbvio prejuízo do garoto, mas também da reputação do novo modelo de ensino profissional.
Muitas vezes o problema não está no que se faz, mas como se faz: se o ensino profissional em Portugal em vez de surgir como opção válida e socialmente aceitável que é, for apresentado como solução/punição para problemas que a escola não resolveu a montante, vai manter-se uma utopia que funciona muito bem desde que não tenha portugueses dentro.
E a magia de aprender?
Será que não há um Governo, um que seja, que consiga de uma vez por todas, acabar com a exposição da classe dos professores à humilhação anual dos benditos concursos para colocação nas escolas públicas?
Não vou entrar aqui na estafada discussão do quem tem razão, do desemprego a que se encontram muitos condenados, das suas férias, dos horários zero, do trabalho que prestam ou não fora e dentro da escola, da redução de escolas e do aumento de número de alunos por turma...
Refiro-me antes ao que me parece um imperativo ético urgente de haver um cessar fogo na eterna guerrilha entre professores e Ministério da Educação, na colocação dos docentes. Será possível que não haja uma solução que agrade a todas as partes, e que não passe por estes concursos humilhantes e cujos contornos são tão lamentavelmente mediatizáveis?
Coloco-me na posição dos alunos frente a professores que lhes dão aulas, depois de saberem através da televisão pelo que passaram nos concursos, e sinto-me a assistir a uma peça de teatro, conhecendo os vícios de cada um dos actores, as suas tricas, os seus problemas financeiros, a forma como foram recrutados, as invejazinhas, enfim, pormenores desprezíveis para a peça tal como nos deve ser revelada. Indiscrições como estas, se calha haver, impedem-me de apreciar simultaneamente com a entrega, a emoção e a objectividade necessárias, o texto, a encenação e a representação.
É o distanciamento dos actores e o interesse pela peça que se esboroa, a magia do momento que se dissipa..e afinal de contas, magia é o que deve haver também nos momentos de aprendizagem, ou não?
Gramática "interpretativa" não obrigada!
A " Gramática de Língua Portuguesa" dirigida por Maria Raquel Delgado-Martins da Editora Caminho, de que falei no post anterior, é um conjunto de textos de vários linguístas, decididamente aconselhável a uma "directa" : faz crescer em nós uma irritação com a nova gramática que não nos deixa descansar.
Enquanto passava as suas páginas, só me perguntava como é possível que se haja pensado seriamente em normativizar conceitos e distinções que preferem recorrer a "universos de referência", "argumentos internos e externos", "obliquidades" de cornocópica origem, a promover a generalização e abstracção própria de qualquer sólido sistema normativo?
O problema não está tanto, perdoe-me Teolinda Gersão (quem sou eu!!), em ter sido complicada a norma gramatical, leia-se as regras de funcionamento da língua, mas sobretudo no facto de se ter optado por regras que, por serem essencialmente interpretativas, perderam as suas características gerais e abstractas e, consequentemente, um qualquer aceitável grau de perceptibilidade.
Para ilustração do que acabo de dizer, transcrevo um excerto de fls 70 e 71 daquela obra (texto da autoria de Isabel Hub Faria): " (...) Durante séculos pensou-se que, para comunicar, bastava a existência de um modelo que assegurasse a codificação e a descodificação de mensagens, admitindo assim que toda a informação relativa a uma mensagem estava nela explicitamente contida. Só recentemente se considera que a interpretação é ela própria geradora de sentidos, uma vez que pode fazer uso de mecanismos inferenciais (...)".
Temos portanto uma gramática interpertativa e inferencial.
É curioso: anda tudo preocupado em impor um acordo ortográfico para manter a relevância da língua portuguesa no mundo. Alguém responsável já se quedou a pensar no quanto esta nova abordagem do funcionamento da língua portuguesa pode afastar os falantes de português no mundo, e os estrangeiros da aprendizagem da nossa língua?
Mãos ao ar: isto é a nova gramática!
No post anterior não resisti a transcrever a crónica de Teolinda Gersão que Portugal comenta. Para quem tenha ficado arrepiado e/ou curioso, aconselho vivamente a "Gramática da Língua Portuguesa", dirigida por Maria Raquel Delgado-Martins, da Editorial Caminho.
Foi inicialmente publicada em 1983, e a edição que possuo data de 2003.
Todos os calvários começam não se sabe bem onde, nem muito bem por que motivo. Através desta obra percebe-se vagamente onde começou o da nova gramática da língua portuguesa e, com exemplos como os constantes do texto de Teolinda Gersão, exactamente onde acabou: nas gramáticas escolares, que são hoje esforçadamente ensinadas às crianças portuguesas.
Fico-me pela inenarrável classificação "verbos principais" ali proposta, e dou até um dos exemplo avançados para cada categoria, que não sou de intrigas:
- Verbos ditransitivos (Ex: O João deu um livro ao Pedro).
- Verbos transitivos de três lugares (Ex: Ele partilhou o almoço com os amigos).
- Verbos transitivos-predicativos (Ex: O ministro nomeou um dos assessores secretário de estado).
- Verbos transitivos (Ex: o Pedro adorou o teu presente) [** um clássico desinteressante a estragar tudo!]
- Verbos de dois lugares com um argumento interno objecto indirecto (Ex: A exposição agradou aos críticos).
- Verbos de dois lugares com um argumento interno oblíquo (Ex: O presidente assistiu à final da Taça de Portugal).
- Verbos inergativos (Ex: O bebé espirrou).
- Verbos inacusativos (Ex: A vítima do acidente desmaiou).
- Verbos de zero lugares (Ex. Neva há uma semana).
À atenção do Senhor Ministro da Educação. Nem precisa de o comprar: eu empresto-lho, porque não o quero para nada. E só não lho ofereço, no receio de V. Exª insistir em manter esta gramática nos programas de língua portuguesa, e me sentir obrigada a descodificá-la para o meu filho pelo menos passar nos testes.
A gramática está na retrete
"Redacção - Declaração de Amor à língua portuguesa "
por Teolinda Gersão - Público - 18.06.2012
Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia "ele está em casa", "em casa" era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. "O Quim está na retrete": "na retrete" é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos "ela é bonita". Bonita é uma característica dela, mas "na retrete" é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um "complemento oblíquo". Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo "complemento oblíquo", já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, "algumas" é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos "O Zé não foi ao Porto", era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos "A rapariga entrou em casa. Abriu a janela", o sujeito de "abriu a janela" era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelos vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12.º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em "ampa", isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8.º ano, turma C (c de c...r...o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática)
Sai a matéria toda!
Ontem, o T. chegou a casa irritado. Afinal, ao contrário do que o professor de História dissera, não saíra a "matéria toda" no teste.
Eu, como o miúdo, nada teríamos a opor a que, de facto, saísse a matéria toda, se fosse esse o critério do professor. Todavia, se o teste contemplava apenas as últimas oito páginas do livro, não seria mais lógico que tivesse indicado uma parte do programa da disciplina, e daí escolhesse os temas do teste no âmbito da sua legítima discricionaridade?
O "sai a matéria toda" faz parte do ciclo do desperdício improdutivo de energia intelectual em que nos deixamos cair, traduzido em tempo gasto pelos alunos a circunscrever, por dedução, o que sai num teste, e na ansiedade gerada pela incerteza quanto à restante matéria.
É uma tradição parola e obscurantista, que nada rompe: cria nos professores a falsa e patética convicção de competência, porque escondem dos alunos informação relevante para desenvolverem os seus estudos, e faz de cada aluno um cábula que só estuda o que presume que saia (nomeadamente porque pergunta aos colegas de turmas que já fizeram teste), com o correspondente sentimento de culpa de não ter estudado o bastante.
Há algum resquício de salazarismo nesta falta de transparência: se eu, professor, indico a matéria que efectivamente pode sair, todos os alunos têm 100%. Como se isto fosse verdade, em Portugal, ou em qualquer parte do mundo!
Com o conhecimento prévio do programa - não vejo razão para que o primeiro dia de aulas não seja entregue a cada aluno uma cópia detalhada do programa de cada disciplina - os alunos têm acesso à informação dos conhecimentos a adquirir até ao final do ano. Não têm, só por isso, conhecimento automático dos assuntos leccionados, o que só logra quem assiste às aulas daquele professor - porque nenhum ensina do mesmo modo - e estuda em casa. Mais, não haver dúvidas quanto aos temas a abordar no teste incentiva naturalmente o aprofundamento do seu estudo.
Pode dizer-se que a informação prévia e pormenorizada dos programas por parte alunos induz melhores notas em geral? Obviamente, porque permite uma melhor sistematização do que nos propomos estudar e portanto uma melhor aquisição e consolidação de conhecimentos. Todavia, não é esse o objectivo do ensino? Repito: mas não é esse precisamente o objectivo do ensino, sobretudo ao nível do básico e do secundário?
A Andorinha Sinhá e o acordo ortográfico
Andaram até que a Noite chegou. Então ela lhe disse (...)".
Uma boa notícia, este maravilhoso e poético livro faz parte do programa de língua portuguesa do 8º ano.
Segunda boa notícia, o desconjuntado acordo ortográfico não belisca em nada o encanto que existirá sempre nas diferenças entre o "modo de falar" português e o "jeito de falar" brasileiro.
Muito a sério...
Toda a gente tem opinião sobre a questão dos alunos de mérito que ficaram sem os prometidos € 500. Eu não tenho. Creio, apenas, que no lugar deles me consolaria com o facto de eu, pelo menos, ter mérito.
Da falta de tempo para treinar a língua portuguesa
Vou passar a falar, sei lá, moldavo?
Exame nacional de português do 9º ano. Em 100 pontos, apenas 9 poderiam servir para contemplar respostas sobre textos literários, a saber, os Lusíadas e o Auto da Barca do Inferno. O Programa de Língua Portuguesa do 9º ano dedica, todavia, a essas obras 2/3 das aulas de português.
Adivinha: para a Associação de Professores de Português, o que está mal, o Programa da disciplina, ou o exame?
(Solução: o Programa, "porque assim não há tempo para treinar a escrita e para o treino da língua" segundo a Edição do Público on line de 14.07.2011).
Exame nacional de português do 9º ano. Em 100 pontos, apenas 9 poderiam servir para contemplar respostas sobre textos literários, a saber, os Lusíadas e o Auto da Barca do Inferno. O Programa de Língua Portuguesa do 9º ano dedica, todavia, a essas obras 2/3 das aulas de português.
Adivinha: para a Associação de Professores de Português, o que está mal, o Programa da disciplina, ou o exame?
(Solução: o Programa, "porque assim não há tempo para treinar a escrita e para o treino da língua" segundo a Edição do Público on line de 14.07.2011).
Sem título
(Foi qualquer coisa muito próxima disto...)
-E o que faz? - o Senhor Malato, que me entretém as noites de arrumações (só percebi agora e não sei explicar).
- Estou no terceiro ano de arquitectura - de preto, ar «cool», óculos de aros negros, cabelo muito curto.
- Muito bem. E Galileu, sabe quem foi?
- Sei...dizia que a terra era o centro do mundo (assim mesmo, e já era uma conclusão após uma série de disparates que nem consigo atar...).
Pensei que o apresentador ía ter uma apoplexia, seguindo-se todavia uma paciente/trocista explicação sobre quem tinham sido Ptolomeu, Copérnico e Galileu.
Desliguei a atenção.
Quando a voltei a ligar, lá estava ainda o tipo «cool» do terceiro ano de arquitectura.
- E Maluda, sabe quem foi?
- Não, nunca ouvi falar.
-E o que faz? - o Senhor Malato, que me entretém as noites de arrumações (só percebi agora e não sei explicar).
- Estou no terceiro ano de arquitectura - de preto, ar «cool», óculos de aros negros, cabelo muito curto.
- Muito bem. E Galileu, sabe quem foi?
- Sei...dizia que a terra era o centro do mundo (assim mesmo, e já era uma conclusão após uma série de disparates que nem consigo atar...).
Pensei que o apresentador ía ter uma apoplexia, seguindo-se todavia uma paciente/trocista explicação sobre quem tinham sido Ptolomeu, Copérnico e Galileu.
Desliguei a atenção.
Quando a voltei a ligar, lá estava ainda o tipo «cool» do terceiro ano de arquitectura.
- E Maluda, sabe quem foi?
- Não, nunca ouvi falar.
Flinstonemania
-O que é a pré-história?
- Não sei...
- É a História antes de...
- Dos computadores?..
T. (Calvin versão pré-adolescente)
- Não sei...
- É a História antes de...
- Dos computadores?..
T. (Calvin versão pré-adolescente)
Sem emenda
Recomeçaram as aulas.
O Têzinho está no sétimo ano e sem aulas de matemática desde o início do ano (parece que teve hoje a primeira com uma professora provisória, seja lá o que for que isso queira dizer).
A questão foi levantada, obviamente, na reunião da Directora de Turma com os encarregados de educação. Admitiu: inadmissível. O que há a fazer? Nada, o Ministério é que coloca os professores e o que foi colocado ficou doente. Portanto, há que esperar que seja colocado outro. Paciência (sic).
Pergunta lógica, nos tempos cada vez mais exigentes que correm: e o que é que a Escola pretende fazer para compensar os alunos destes dias e dias de aulas perdididos, de uma disciplina essencial à sua formação académica, sendo certo que no 9º ano os exames nacionais não se atém aos alunos que tiveram mais ou menos aulas?
Resposta: Nada, a professora vai ter que dar a matéria toda...só que mais depressa (sic).
E aulas complementares? Não nem pensar, não há professores para isso. (Hum...)
E as aulas de substituição? Ah, essas não são aulas. São formas de ocupar os miúdos, para que não andem a correr pelos recreios. E que tal fazer-se um plano de estudos, para que, já que têm de estar dentro das aulas, ao menos aprendam alguma coisa, sobretudo estes alunos que não têm aulas de uma disciplina importante semanas a fio?
Resposta: eles têm um horário muito sobrecarregado. Todos gostávamos de ter furos quando éramos alunos, porquê retirar isso aos miúdos de hoje? (Hum...sim, claro, se antes se fazia mal, por que razão fazer agora bem, afinal de contas?!)
Calei-me. Não tive, nem tenho nada para dizer a uma professora que ensina, hoje em dia, como se o paradigma fosse o de há trinta anos atrás (e não é, até porque as aulas então tinham a duração de 45 m e agora têm de 90 m, logo os furos são pelo correspondente período de tempo)? Paradigma esse, aliás, que, como sabemos, já não era nada bom à data: o ranking da OCDE sempre demonstrou isso mesmo, e já estamos a pagar essa factura a nível económico-financeiro.
Continuamos, todavia, neste despreocupado «no passa nada».
O Têzinho está no sétimo ano e sem aulas de matemática desde o início do ano (parece que teve hoje a primeira com uma professora provisória, seja lá o que for que isso queira dizer).
A questão foi levantada, obviamente, na reunião da Directora de Turma com os encarregados de educação. Admitiu: inadmissível. O que há a fazer? Nada, o Ministério é que coloca os professores e o que foi colocado ficou doente. Portanto, há que esperar que seja colocado outro. Paciência (sic).
Pergunta lógica, nos tempos cada vez mais exigentes que correm: e o que é que a Escola pretende fazer para compensar os alunos destes dias e dias de aulas perdididos, de uma disciplina essencial à sua formação académica, sendo certo que no 9º ano os exames nacionais não se atém aos alunos que tiveram mais ou menos aulas?
Resposta: Nada, a professora vai ter que dar a matéria toda...só que mais depressa (sic).
E aulas complementares? Não nem pensar, não há professores para isso. (Hum...)
E as aulas de substituição? Ah, essas não são aulas. São formas de ocupar os miúdos, para que não andem a correr pelos recreios. E que tal fazer-se um plano de estudos, para que, já que têm de estar dentro das aulas, ao menos aprendam alguma coisa, sobretudo estes alunos que não têm aulas de uma disciplina importante semanas a fio?
Resposta: eles têm um horário muito sobrecarregado. Todos gostávamos de ter furos quando éramos alunos, porquê retirar isso aos miúdos de hoje? (Hum...sim, claro, se antes se fazia mal, por que razão fazer agora bem, afinal de contas?!)
Calei-me. Não tive, nem tenho nada para dizer a uma professora que ensina, hoje em dia, como se o paradigma fosse o de há trinta anos atrás (e não é, até porque as aulas então tinham a duração de 45 m e agora têm de 90 m, logo os furos são pelo correspondente período de tempo)? Paradigma esse, aliás, que, como sabemos, já não era nada bom à data: o ranking da OCDE sempre demonstrou isso mesmo, e já estamos a pagar essa factura a nível económico-financeiro.
Continuamos, todavia, neste despreocupado «no passa nada».
De mergulho na escola pública XII
Ainda frequentei, no tempo de M. Caetano, em S. João do Estoril, uma turma de 3ª e 4ª classe em simultâneo, num total de 40 alunas. Era o espírito do mealheiro a ditar as suas regras e nós, pois claro, só pode ser, há uma guerra no ultramar que gasta muito dinheiro e recursos humanos, há uma censura que impede que se diga o que não estão bem, portanto, aprendem os que aprenderem e os que não aprendem logo se vê.
Depois do 25 de Abril, as turmas continuaram imensas. Colectivos de trinta alunos era comum.E quem aprendesse, aprendia, quem não aprendesse, depois se via (rimou de propósito).
E a coisa foi correndo, supostamente em direcção a uma escola mais inclusiva e à «progressiva degradação da qualidade de ensino» - o que é uma expressão notável, porque parece dizer que alguma vez foi boa, o que não é verdade, porque se o tivesse sido, a qualidade intelectual média do país seria muito superior à que sempre foi e é, mas adiante.
Com o 1º Governo Sócrates, a mulher dos lábios finos - nos livros de Enid Blyton havia sempre um preconceito contra as pessoas de lábios finos e eu cresci a lê-los - lembrou-se de dizer que os professores não prestavam. Era verdade. Mas só alguns. Também há ministros que não prestam. É uma fatalidade. Todavia, ela não distinguiu e o povo saiu à rua, sem «a alegria que costumava ter», expressando (agora já podia) que a ministra não prestava.
Neste presta, não presta, caiu a educação na depressão. Quer dizer, os professores, os pais e a opinião pública, que a criançada quer mesmo é fugir por entre os intervalos da chuva, leia-se, que se lhes exija o mínimo possível (mas eles não têm de pensar, por ora).
Acabou por surgir (finalmente!) a questão da redução do número de alunos por turma. Acho que nunca o disse neste blogue, mas antes do movimento ser criado, eu já estava com ele, mesmo que nem tenha aderido, por distracção.
É claro que é uma utopia. E as utopias morrem também e, quantas vezes, por falta de dinheiro. Quanto mais uma assim e numa altura destas. Siga-se, portanto, em frente que se nem no Governo de Guterres, que foi um bodo aos pobres, as turmas passaram para 22 alunos, iriam passar agora?
Acresce que até parece que temos até um rácio alunos/professor melhor que a média da OCDE (disse o Público de ontem) Mas, ponto um, há sempre números para provar tudo e o seu contrário e, ponto dois, que me interessam esses ou quaisquer outros números provando seja o que for? Há alguma dúvida que um professor domina e lecciona melhor uma turma de 15 alunos do que uma de 30?
Não há verba (nem vou usar de demagogias, género, mas há para o TGV do Poceirão), não há verba. Estamos conversados. Mas como é que pode não ser considerada, nem pelo Governo, nem pelo PSD «uma medida central»?
Não se trata de defesa dos professores - que a professora de inglês do meu filho é tão preguiçosa para ver testes de 27 alunos (cancelou o último teste porque com tantos feriados e pontes não era justo para as crianças terem de prestar aquela prova, imagine-se!!) como o havia de ser para 15, mas isso teria de ser visto noutra sede - é, tão só, uma questão de lógica e sensatez.
Entendamo-nos, há que optar: ou queremos uma «escola inclusiva» e as turmas pequenas são uma prioridade ; ou temos (independentemente de querermos) uma «escola exclusiva», de elites, apostando apenas nas crianças cujos pais colmatam, em casa ou com explicações extra, o que elas não aprendem na escola (e em mais uns tantos que vencem mesmo no deserto) e, de facto, a dimensão das turmas é indiferente.
Depois do 25 de Abril, as turmas continuaram imensas. Colectivos de trinta alunos era comum.E quem aprendesse, aprendia, quem não aprendesse, depois se via (rimou de propósito).
E a coisa foi correndo, supostamente em direcção a uma escola mais inclusiva e à «progressiva degradação da qualidade de ensino» - o que é uma expressão notável, porque parece dizer que alguma vez foi boa, o que não é verdade, porque se o tivesse sido, a qualidade intelectual média do país seria muito superior à que sempre foi e é, mas adiante.
Com o 1º Governo Sócrates, a mulher dos lábios finos - nos livros de Enid Blyton havia sempre um preconceito contra as pessoas de lábios finos e eu cresci a lê-los - lembrou-se de dizer que os professores não prestavam. Era verdade. Mas só alguns. Também há ministros que não prestam. É uma fatalidade. Todavia, ela não distinguiu e o povo saiu à rua, sem «a alegria que costumava ter», expressando (agora já podia) que a ministra não prestava.
Neste presta, não presta, caiu a educação na depressão. Quer dizer, os professores, os pais e a opinião pública, que a criançada quer mesmo é fugir por entre os intervalos da chuva, leia-se, que se lhes exija o mínimo possível (mas eles não têm de pensar, por ora).
Acabou por surgir (finalmente!) a questão da redução do número de alunos por turma. Acho que nunca o disse neste blogue, mas antes do movimento ser criado, eu já estava com ele, mesmo que nem tenha aderido, por distracção.
É claro que é uma utopia. E as utopias morrem também e, quantas vezes, por falta de dinheiro. Quanto mais uma assim e numa altura destas. Siga-se, portanto, em frente que se nem no Governo de Guterres, que foi um bodo aos pobres, as turmas passaram para 22 alunos, iriam passar agora?
Acresce que até parece que temos até um rácio alunos/professor melhor que a média da OCDE (disse o Público de ontem) Mas, ponto um, há sempre números para provar tudo e o seu contrário e, ponto dois, que me interessam esses ou quaisquer outros números provando seja o que for? Há alguma dúvida que um professor domina e lecciona melhor uma turma de 15 alunos do que uma de 30?
Não há verba (nem vou usar de demagogias, género, mas há para o TGV do Poceirão), não há verba. Estamos conversados. Mas como é que pode não ser considerada, nem pelo Governo, nem pelo PSD «uma medida central»?
Não se trata de defesa dos professores - que a professora de inglês do meu filho é tão preguiçosa para ver testes de 27 alunos (cancelou o último teste porque com tantos feriados e pontes não era justo para as crianças terem de prestar aquela prova, imagine-se!!) como o havia de ser para 15, mas isso teria de ser visto noutra sede - é, tão só, uma questão de lógica e sensatez.
Entendamo-nos, há que optar: ou queremos uma «escola inclusiva» e as turmas pequenas são uma prioridade ; ou temos (independentemente de querermos) uma «escola exclusiva», de elites, apostando apenas nas crianças cujos pais colmatam, em casa ou com explicações extra, o que elas não aprendem na escola (e em mais uns tantos que vencem mesmo no deserto) e, de facto, a dimensão das turmas é indiferente.
Restam os avós, o vazio, as casas fechadas e as aldeias mortas
«Compreendo que uma escola com cinco ou dez alunos não seja viável financeiramente, nem aconselhável pedagogicamente. Mas fechar todas as escolas (e são todas no interior) com menos de 20 alunos já é diferente e dificilmente explicável por razões que não apenas financeiras e de curto prazo. A médio e a longo prazo, este é o caminho certeiro para acabar de matar o Interior: atrás das crianças vão os pais; atrás do pais vão os empregos e a economia, o comércio e a vida activa; restam os avós, o vazio e as casas fechadas, as aldeias mortas. Se alguém pensasse Portugal a longo prazo ou se, ao menos, estudasse o seu passado recente, veria que este é o maior erro que cometemos. Poupamos hoje, pagamos amanhã e caro.»
Miguel Sousa Tavares, «Expresso», 05.06.2010
Se alguém, mandatado pelo nosso Executivo em funções, chegasse ali ao Mosteiro dos Jerónimos e, a golpes de picareta, desatasse a destrui-lo, nem mesmo MST colocaria isso apenas no ponto 5. da sua crónica do Expresso. Assim, encontrou ainda quatro prioridades para comentar antes desta lenta catástrofe que sugará Portugal para um buraco negro, e que ele próprio, com argumentos incontornáveis, admite ser o maior erro que cometemos. Há alguma coisa que me escapa no racional deste país.
Miguel Sousa Tavares, «Expresso», 05.06.2010
Se alguém, mandatado pelo nosso Executivo em funções, chegasse ali ao Mosteiro dos Jerónimos e, a golpes de picareta, desatasse a destrui-lo, nem mesmo MST colocaria isso apenas no ponto 5. da sua crónica do Expresso. Assim, encontrou ainda quatro prioridades para comentar antes desta lenta catástrofe que sugará Portugal para um buraco negro, e que ele próprio, com argumentos incontornáveis, admite ser o maior erro que cometemos. Há alguma coisa que me escapa no racional deste país.
De mergulho na Escola Pública XI
Uma boa escola é aquela onde tudo corre bem?
Não, uma boa escola é aquela onde, quando as coisas correm mal, há alguém que se apercebe desse facto e logra inverter o estado das coisas.
A mudança do meu filho, no ano passado, de uma escola privada para uma pública, ainda que com as melhores referências, não foi auspiciosa e por algumas vezes me arrependi da decisão. Dei conta disso mesmo em momentos vários do ano lectivo passado.
Este ano, cumpre-me, por uma questão de honestidade intelectual, admitir que, tal como a Directora de Turma (DT) anunciara no início do ano, a turma do petiz - que, recordo, fora martirizada com uma DT relativamente ausente, ainda que não por sua culpa, e que tinha a seu cargo, para além da direcção de turma ainda quatro ou cinco disciplinas - seria alvo de especial atenção para integral aproveitamento das suas potencialidades.
E foi mesmo o que aconteceu! Antes de mais, a DT actual só tem uma turma para dirigir. É uma pessoa absolutamente empenhada, atenta e disponível e a quem (haleluia!!) é efectivamente possível pedir e facultar informações via mail.
Acresce que acabou o disparate de um professor/cinco disciplinas e, consequentemente, o efeito dominó de faltas durante dias sucessivos.
Dado que os alunos daquela turma foram privados de muitas aulas de matemática, reconhecidamente essenciais para os seus estudos futuros, no ano passado - em virtude das faltas da professora de matemática (que era precisamente a Directora de Turma) - este ano lectivo, uma das aulas da disciplina Área de Projecto é dedicada à Matemática!
Parece simples, não é? Basta estar atento e surgem pequenas soluções que resolvem grandes problemas. Donde se prova o que pareceria impossível, hoje em dia, demonstrar em Portugal: público ou privado é indiferente, é a massa crítica que opera a distinção.
Não, uma boa escola é aquela onde, quando as coisas correm mal, há alguém que se apercebe desse facto e logra inverter o estado das coisas.
A mudança do meu filho, no ano passado, de uma escola privada para uma pública, ainda que com as melhores referências, não foi auspiciosa e por algumas vezes me arrependi da decisão. Dei conta disso mesmo em momentos vários do ano lectivo passado.
Este ano, cumpre-me, por uma questão de honestidade intelectual, admitir que, tal como a Directora de Turma (DT) anunciara no início do ano, a turma do petiz - que, recordo, fora martirizada com uma DT relativamente ausente, ainda que não por sua culpa, e que tinha a seu cargo, para além da direcção de turma ainda quatro ou cinco disciplinas - seria alvo de especial atenção para integral aproveitamento das suas potencialidades.
E foi mesmo o que aconteceu! Antes de mais, a DT actual só tem uma turma para dirigir. É uma pessoa absolutamente empenhada, atenta e disponível e a quem (haleluia!!) é efectivamente possível pedir e facultar informações via mail.
Acresce que acabou o disparate de um professor/cinco disciplinas e, consequentemente, o efeito dominó de faltas durante dias sucessivos.
Dado que os alunos daquela turma foram privados de muitas aulas de matemática, reconhecidamente essenciais para os seus estudos futuros, no ano passado - em virtude das faltas da professora de matemática (que era precisamente a Directora de Turma) - este ano lectivo, uma das aulas da disciplina Área de Projecto é dedicada à Matemática!
Parece simples, não é? Basta estar atento e surgem pequenas soluções que resolvem grandes problemas. Donde se prova o que pareceria impossível, hoje em dia, demonstrar em Portugal: público ou privado é indiferente, é a massa crítica que opera a distinção.
De mergulho na escola pública X
No outro dia o meu filhote protestou. Os colegas de turma, nos dias de educação física, iam para a escola com roupa comum que trocavam à hora da aula. Apenas ele levava sempre já de casa o fato de treino vestido.
Como conheço os seus hábitos de "pasmar" (conversar, rir, olhar para os outros) em lugar de fazer o que tem para fazer e de perder tudo ainda por cima, torci o nariz, mas.. - Ok, à vontade!
É evidente que as calças só regressaram três dias depois e perante a ameaça, que ele sabia que concretizaria, de ir eu própria procurá-las; não pelo seu valor - que já não eram novas, nem de boa loja - mas porque considero um mau princípio, o generalizado desrespeito de cada um pelos seus pertences, o que pelos vistos está na moda.
No ano passado, perdeu um blusão. Achei natural ir procurá-lo, já que ele não o encontrava. Percebi, então, que se me transformasse numa ET naquele momento ninguém estranharia.
Uma auxiliar de acção educativa indicou-me o pavilhão do lado. Que crise? Só se for de valores. Um contentor enorme esperava-me com pilhas de calças, calções, saias, blusões, fatos de treino, camisolas de lã, T-shirts, cachecois, sei lá que mais, alguns de boas marcas ....
Perante o meu espanto por tão inesperada manifestação de «sociedade da abundância» - estávamos afinal numa escola pública relativamente pequena e nem sequer a meio do ano, a senhora encolheu os ombros: - E ainda não viu nada. No ginásio há duas ou três vezes isso.
Era verdade. Ninguém imagina a quantidade de roupa que os miúdos deixam literalmente desperdiçada numa escola, sem que aparentemente nem eles, nem sobretudo os pais, se preocupem com o assunto.
Como conheço os seus hábitos de "pasmar" (conversar, rir, olhar para os outros) em lugar de fazer o que tem para fazer e de perder tudo ainda por cima, torci o nariz, mas.. - Ok, à vontade!
É evidente que as calças só regressaram três dias depois e perante a ameaça, que ele sabia que concretizaria, de ir eu própria procurá-las; não pelo seu valor - que já não eram novas, nem de boa loja - mas porque considero um mau princípio, o generalizado desrespeito de cada um pelos seus pertences, o que pelos vistos está na moda.
No ano passado, perdeu um blusão. Achei natural ir procurá-lo, já que ele não o encontrava. Percebi, então, que se me transformasse numa ET naquele momento ninguém estranharia.
Uma auxiliar de acção educativa indicou-me o pavilhão do lado. Que crise? Só se for de valores. Um contentor enorme esperava-me com pilhas de calças, calções, saias, blusões, fatos de treino, camisolas de lã, T-shirts, cachecois, sei lá que mais, alguns de boas marcas ....
Perante o meu espanto por tão inesperada manifestação de «sociedade da abundância» - estávamos afinal numa escola pública relativamente pequena e nem sequer a meio do ano, a senhora encolheu os ombros: - E ainda não viu nada. No ginásio há duas ou três vezes isso.
Era verdade. Ninguém imagina a quantidade de roupa que os miúdos deixam literalmente desperdiçada numa escola, sem que aparentemente nem eles, nem sobretudo os pais, se preocupem com o assunto.
Um pouco de febre, três espirros e duas tossidelas
Quem tem filhos em idade escolar, neste momento, já terá sentido na pele um vislumbre da histeria da gripe A que atacou Portugal.
O meu petiz ficou em casa, no fim-de semana, com gripe manifestamente sazonal. Mas como não brinco com saúde pública, nem tencionava que o gaiato faltasse à escola sete dias, dispus-me a gastar uma quantia relativamente avultada para facultar a necessária segurança à escola. Rastreio da gripe A, resultado negativo.
Terça-feira, justifico a falta do dia anterior na caderneta, envio o mail com o comprovativo do resultado da análise para a Directora de Turma (DT) - que tenho por bastante sensata - com o historial resumido da doença e, ala, puto para a escola que estava bom e recomendava-se.
Recebo, meia hora depois, um telefonema da DT. Teria sabido, pelo miúdo, do mail com o tal comprovativo, mas que seria necessário um certificado médico de que estaria apto frequentar a escola, por não ter ficado em casa sete dias. Razão: as directivas seriam para toda e qualquer gripe e não apenas para a H1N1.
Apelando à sua inteligência, lá a convenci quanto ao despropósito de a escola ou o Ministério da Educação exigirem o tal certificado, para além do comprovativo que cumpria - para mais e nunca para menos - qualquer plano razoável de contingência que, aliás, tanto quanto sabia seria tão só para a gripe A. O assunto ficou por aqui, dando-me apenas nota atenciosa de que estaria tudo bem com o miúdo, também via mail. Sinceramente fiquei convencida de que se tratara de mero excesso de zêlo da professora. Engano.
No elevador, à vinda para casa, depois de me ter assegurado que uma neta sua tinha tido gripe A, uma vizinha acabou, hesitando, a dizer que, enfim, até desconfiava que fora gripe sazonal, mas que a Escola mandara todas as crianças com sintomas de gripe para casa durante dez dias, portanto teria de admitir que sim. A verdade, todavia, contou, era que o médico tinha ficado por um «nim», pelo que previa que aquilo pudesse acontecer mais vezes durante o ano.
Em suma, na dúvida, fica tudo em casa dez dias. Leia-se: sendo certo que qualquer gripe é, mais ou menos, mas por definição, contagiosa, se cada aluno e professor tiver, em média, qualquer coisa que se aparente com uma gripe (um pouco de febre, três espirros e duas tossidelas devem bastar) uma ou duas vezes este Inverno, podemos antecipar um ano lectivo em cheio!
O meu petiz ficou em casa, no fim-de semana, com gripe manifestamente sazonal. Mas como não brinco com saúde pública, nem tencionava que o gaiato faltasse à escola sete dias, dispus-me a gastar uma quantia relativamente avultada para facultar a necessária segurança à escola. Rastreio da gripe A, resultado negativo.
Terça-feira, justifico a falta do dia anterior na caderneta, envio o mail com o comprovativo do resultado da análise para a Directora de Turma (DT) - que tenho por bastante sensata - com o historial resumido da doença e, ala, puto para a escola que estava bom e recomendava-se.
Recebo, meia hora depois, um telefonema da DT. Teria sabido, pelo miúdo, do mail com o tal comprovativo, mas que seria necessário um certificado médico de que estaria apto frequentar a escola, por não ter ficado em casa sete dias. Razão: as directivas seriam para toda e qualquer gripe e não apenas para a H1N1.
Apelando à sua inteligência, lá a convenci quanto ao despropósito de a escola ou o Ministério da Educação exigirem o tal certificado, para além do comprovativo que cumpria - para mais e nunca para menos - qualquer plano razoável de contingência que, aliás, tanto quanto sabia seria tão só para a gripe A. O assunto ficou por aqui, dando-me apenas nota atenciosa de que estaria tudo bem com o miúdo, também via mail. Sinceramente fiquei convencida de que se tratara de mero excesso de zêlo da professora. Engano.
No elevador, à vinda para casa, depois de me ter assegurado que uma neta sua tinha tido gripe A, uma vizinha acabou, hesitando, a dizer que, enfim, até desconfiava que fora gripe sazonal, mas que a Escola mandara todas as crianças com sintomas de gripe para casa durante dez dias, portanto teria de admitir que sim. A verdade, todavia, contou, era que o médico tinha ficado por um «nim», pelo que previa que aquilo pudesse acontecer mais vezes durante o ano.
Em suma, na dúvida, fica tudo em casa dez dias. Leia-se: sendo certo que qualquer gripe é, mais ou menos, mas por definição, contagiosa, se cada aluno e professor tiver, em média, qualquer coisa que se aparente com uma gripe (um pouco de febre, três espirros e duas tossidelas devem bastar) uma ou duas vezes este Inverno, podemos antecipar um ano lectivo em cheio!
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