Telhados de vidro
Se houve cançoneta que sempre me buliu com o sistema nervoso foi a "Casa portuguesa" **(passo qualquer comentário sobre a definição de casa portuguesa de Raúl Lino, que não me lembro de lhe ler notas sobre S. Josés de azulejo ou duas raquíticas rosas no jardim).
A pobreza simultaneamente envergonhada e honradinha, tranvestida de grandiosa generosidade, expressa no verso " a alegria da pobreza está nessa grande riqueza de dar e ficar contente" é de uma tamanha indigência espiritual que, se a justiça fosse justiça, nem por um buraco do tamanho do Oceano Atlântico haveria de entrar no reino de qualquer céu (dar, não nos deixa felizes, sejamos ricos ou pobres?).
O apelo à pequenez portuguesa, pequenez essa que Maria Filomena Mónica tem por fatalidade nacional na crónica de ontem do "Expresso", "Educação e Desenvolvimento Económico" - por muito que a senhora me caia no gôto, e cai, até eu tenho de admitir que por vezes exagera, como neste caso, quando diz desabridamente que Portugal nem com muita instrução lá vai, não se questionando se a instrução apenas não foi no sentido certo, nos últimos 30 anos - começa a ser bandeira deste governo.
Mau é ser apanhado na espiral do empobrecimento. Pior, é ouvir de quem nos governa, que isso não só é inevitável, como é até desejável, sem que se explique exactamente porquê, uma vez que nunca vamos ser tão pobres como os chineses e, portanto, nunca tão competitivos como eles.
E desculpe-me o mundo, mas a renovação do ideal do pobrezinho mas honradinho não é sequer uma tradução mesmo que livre de teses neoliberais: trata-se simplesmente de uma decadente teoria salazarista, a cheirar a naftalina, a que o governo recorre por default, à míngua de ideais e mecanismos imaginativos e profícuos, que melhor respondam às exigências da troika.
No "Público" de hoje, a insuspeita, porque europeísta, jornalista Teresa de Sousa, depois de reconhecer que o Executivo de Passos Coelho está a ganhar na imagem externa do país, aponta, certeira, e retribuindo mesmo em dobro, o facto de internamente o governo atirar à cara dos elos sempre mais fracos da sociedade portuguesa, as virtudes de uma "vida modesta":
"(...) O segundo [discurso do governo] é corporizado por alguns ministros da parte "popular" da coligação mas também por alguns sectores ditos "liberais" do PSD. É, simultaneamente, o elogio e o castigo da pobreza como ideologia nacional. O elogio do empobrecimento de uma classe média que se habituou a ter carro e férias lá fora, que se sentiu com esse direito, mas que afinal não o tinha. O regresso à vida "modesta" parece ser a única ideia que têm para equilibrar as contas públicas e aumentar a competitividade. No fundo, é o único argumento que podem apresentar para justificar o peso brutal dos impostos sobre a classe média e a deflação salarial a que passou a estar sujeita, mais a redução de algumas garantias sociais que servem para cortar as despesas do Estado, o que está certo, mas que são apresentadas como combate às mordomias e aos excessos. É aqui que entra o castigo da pobreza. Esta ideologia redentora das virtualidades do empobrecimento é a mesma que faz dela um pecado individual que é necessário punir. A sua expressão mais revoltante é, por exemplo, o vezo com que se quer castigar os detentores do RSI - obrigados a trabalhar "voluntariamente", não porque o trabalho seja a forma de saírem da dependência mas porque é o castigo que merecem. E nem sequer me vou dar ao trabalho de fazer a ressalva de bom-tom: que há sempre abusos e que é preciso combatê-los. Abusos? Que abusos quando o país fica a saber que o Ministério Público está a investigar suspeitas de práticas de inside trading nas duas grandes privatizações que foram o emblema do Governo? Esta perseguição aos mais pobres e esta "responsabilização" dos excessos da classe média (desde que não seja eu...) tem também a sua versão "liberal" na caça às facturas dos cabeleireiros e dos electricistas, apresentados como gente que não perde uma ocasião para defraudar o Estado, mas cuja maior diferença é não terem acesso a um poderoso escritório de advogados para lhes permitir contornar da melhor forma (absolutamente legal) os impostos. Demagogia? Seria, se não estivéssemos perante uma realidade em que o rigor e a moralização dos costumes apenas se aplicam a uma parte, por sinal a mais fraca.
Falta a terceira componente desta mistura perigosa: justamente o discurso liberal de Pedro Passos Coelho. Também ele se evaporou contra uma realidade que é mais complexa do que a ideologia, contra as coisas que estão a correr mal e contra a incapacidade de alguns dos seus ministros mais liberais vindos das melhores escolas anglo-saxónicas. Perdeu o rumo ou a compostura, como se quiser, quando reagiu a quente à decisão do TC sobre os subsídios da função pública, não hesitando em lançar a pior das ameaças: se não querem perder os subsídios, então vamos cortar na saúde e na educação. E por que não nas PPP ou nas rendas vergonhosas de alguns sectores da economia? (...)».
** Há uma versão com, apesar de tudo, bastantes mais charme de Amália; mas como vivo de mal com a canção, quem quiser terá de a pesquisar no youtube.
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