Dos confins dum tempo com tempo


Quando era criança e adolescente (anos'70), no Carnaval estalavam fulminantes e estalinhos, voavam ovos pelos corredores do liceu e as bombinhas de mau cheiro rebentavam em plena aula, em prejuízo da matéria, do professor e nosso, tudo por entre as maiores gargalhadas. Ouvia-se o Hotel Califórnia dos Eagles. Os mais novos brincavam ao mata, aos índios e aos cowboys - as meninas eram sempre os índios porque eram os bonzinhos, e os rapazes os cowboys porque eram os mauzões - ao stop, às escondidas, às lutas, ao berlinde, ao futebol, aos carrinhos de rolamentos, tudo na rua, tudo horas a fio e sem que nos maçassem. 

No mesmo dia, havia dois testes, quando não eram três e "bico calado". Os pais não nos ligavam nenhuma, nem aos nossos estudos, nem se fazíamos os trabalhos de casa ou não, e só discretamente vigiavam as nossas companhias. Limitavam-se a dar-nos educação feita de pimenta na língua a cada palavrão e puxões de orelhas por má nota, advertências para que não aceitássemos chocolates de ninguém e, mais tarde, longas sabatinas sobre os malefícios da droga. Ao reforço positivo chamavam "envaidecer as crianças" e nenhuma lhes ouvia um elogio. Os professores davam o seu melhor a tentar instruir-nos à moda antiga e não a educar-nos, sem complexos de culpa. A nós, competía-nos tentar fugir dos não muito imaginativos castigos, dos estalos certeiros e das notas "injustas".

As férias eram uma fartura de enjoar. Líamos toneladas de patinhas e tintins e vaillants e gasparzinhos, o fantasminha e cebolinhas e luluzinhas e super-homens e capitães américa e mafaldinhas e hulks e corto maltês e homens-aranha tudo por esta ordem sem ordem, desde que viesse empacotado em quadradinhos; gozávamos uns com os outros nem sempre politicamente muito correctos e trocávamos segredos de nada, por tudo e por nada e contávamos histórias mirambolantes que não podiam ser confirmadas, o que dava muito jeito.

Na praia, jogávamos ao prego, apanhávamos perigosos escaldões ao sol do meio-dia, mas ninguém nos deixava era tomar banhos de mar até duas horas após a ingestão do almoço, fosse ele uma feijoada ou uma sanduíche. Contabilizadas essas duas horas ao minuto, e escaldados do sol, podíamos cair de chapão na água gélida. Se acontecia alguma coisa tinha sido uma azar, porque se desvalorizavam completamente os choques térmicos. Íamos ao médico quando estávamos doentes e era preciso estarmos mesmo muito doentes, que as dores de ouvidos eram curadas com óleo a ferver, e as pieiras com Vick Vaporub no peito.

Bebíamos Caprisone e instântaneos de ananás da Royal. O Jolly Jelly, que era "morango, chocolate e baunilha, Jolly Jelly!" foi um sucesso ainda que fugaz - para quem não se lembra, era uma espécie de perna-de pau coberto de pepitas de açúcar coloridas - e as batatas fritas Pála-Pála eram comprovadamente "uma tara de sabor". As Doro "que eu adoro" apresentaram-se à concorrência por essa altura.

Por esses dias, a Olá não era o produto meio sofisticado, meio enfadado que é hoje, mas assumidamente lúdico, que fazia parte das nossas brincadeiras, com gelados rafeiros de " frut'ó chocolate" que lambíamos com gosto, e dávamos a lamber aos amigos, dávamos sim, por entre trocas de cromos do Vickie, o pequeno viking, que nos fora televisivamente apresentado em alemão (aqui) com legendas, pois claro, e a quem surgiam ideias esfregando o minúsculo nariz. O cromo nº 25 era muito difícil de arranjar, e aquele com que normalmente se terminavam as colecções, depois de muito se penar a comprar e trocar cromos repetidos. As tartes da Dancake começaram, então, uma democrática carreira promissora.

Nos Santos, saltávamos fogueiras que tinham pelo menos uma vez e meia nosso tamanho, que aproveitávamos também para assar chouriços, mas pedir para o Santo António começava a parecer mal; comíamos, às escondidas, leite condensado às colheradas, e punhamos açúcar amarelo, branco ou de que cor fosse no pão com manteiga com o assentimento familiar; bebíamos água fresca com xarope de groselha e leite com Tody de morango, se lá em casa houvesse alguma folga financeira. Os chocolates era exclusivamente da Regina e os caramelos espanhóis, para quem tivesse a sorte de ter algumas vez passado a fronteira.

Tomávamos banho uma vez por semana, a menos que fôssemos à praia; nos outros dias era "rabinho, pézinhos, carinha e mãozinhas, dentinhos, xi-xi e cama".

Não foi um tempo nem bom nem mau. Foi apenas o meu tempo. Um tempo com tempo.

[E em tempo:  eu sei que não fui nada original, que outros blogues estão cheio de tretas destas, mas apeteceu-me].

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