Corriam os anos 60, inícios de 70 talvez.
Na aldeia do meu avô, perdida na beira interior, ainda mais interior do que é agora, um bando de raparigas de cerca de 15 a 16 anos que em casa nem televisão tinham, nunca havia visto o mar.
O mar. O mar que para mim estava logo ali, era-lhes desconhecido. Água só conheciam mesmo a da fonte da aldeia, cristalina, que traziam no pote à cabeça para suas casas, por entre gargalhadas igualmente cristalinas, quais Lianores pela verdura.
A minha avó, despachada como era, pegou em três ou quatro delas, primas do marido e respectivas amigas e «fazem favor de vir ver o mar!».
E elas vieram.
Não fui ver o mar com elas. Mas a descrição que a minha avó fez do seu deslumbre ficou-me na «retina do ouvido». Parece que ficaram assim a olhar, só a olhar e depois riram muito, porque não era possível haver tanta água, nem tanta beleza no mundo.
Ontem alguém me enviou um sms: «nesta tua nova era, espero que possas reconhecer as tuas qualidades». Exagerava, claro. Não só porque não são muitas, como porque até reconheço algumas das que tenho. Mas foi um voto bonito e trouxe-me a recordação desta história.
Quantas vezes nos contentamos com a água da fonte trazida no pote a cheirar a barro molhado. Essa água pode ser fresca, límpida e até pura. E pode trazer até, se a deixamos para trás, a nostalgia do tempo em que só a conhecíamos a ela.
Não podemos é perder de vista que o mar profundo, ondulante, imenso e intenso, existe.
Sem comentários:
Enviar um comentário