Da essência mediterrânica do Jardim Gulbenkian

A minha querida Io desafiou-me. Vamos lá, deve ser giro. Percebo pouco de plantas, apesar de pai agrónomo e, hoje em dia, desconforta-me desconhecer praticamente tudo do mundo da botânica (entendamo-nos, da história que envolve esta ciência, que não nasci com alma de cientista).

O folheto que nos entregaram à entrada revelava, desde logo, o que desconhecia: António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Teles inspiraram o seu projecto do Jardim Gulbenkian (na foto) na mitológica Ilha dos Amores do Canto IX dos Lusíadas (tenho a exacta noção de que não deveria expor assim a minha ignorância, mas não vale batota, aprendi mesmo ali).

Para além de plantas portuguesas e intercontinentais, apostaram em árvores e arbustos, trepadeiras e herbáceas mediterrânicas, plantas estas que hoje nos foram revelados nas suas múltiplas histórias e lendas mitológicas.

Ouvia o biólogo -Pedro Lérias - que nos guiava e só pensava na desprezada importância de uma boa história para nos despertar os sentidos e alcandorar ao conhecimento. Não se gosta do que não se conhece e uma história bem contada é, por natureza, uma boa alavanca.

Das tílias (cordata e tomentosa, esta de folha mais larga e prateada) sabia apenas que as suas folhas têm propriedades calmantes, pelo que se utilizam em infusões; isto, para além daquilo que recentemente lera sobre uma, de folhas enormes, existente em Sintra, no blogue Sintra, Acerca de.

A sua relação com o carvalho - árvore sagrada dos romanos dada a sua cor dourada que sempre me encantou - que se poderia dizer sufocante pela densa sombra que provoca, nunca me passara pela cabeça. Uma vez instalada uma tília, não há carvalho que lhe sobreviva.

É por isso que na Europa central as florestas e bosques são de tílias (que, tal como as faias, não se fixaram confortavelmente no nosso país após as glaciações) e em Portugal, de carvalhos. Tivemos a oportunidade de observar exemplares de carvalho nacional ou carvalho alvarinho (quercus robur) que, em conjunto, constituem a essência da minha ideia de um bosque romântico, sobretudo no final do Verão, princípio do Outono.

A oliveira tem uma longevidade que pode atingir os dois mil anos (o que já agora ao que, entretanto, apurei na Wikipédia, constitui cerca do dobro ou até dois terços da esperança de vida de um carvalho-alvarinho) e é o símbolo de Atenas: a deusa da sabedoria, Atena, terá oferecido à cidade aquela árvore, que fornecia alimento, óleo e madeira, na disputa por um padroado em que Posídon era um candidato perdedor à partida (oferecendo uma fonte de água salobra). Era dos seus ramos que se faziam as coroas dos jogos olímpicos.

Da romanzeira (punica granatum) ignorava que tem inúmeros nomes populares, inclusive o de granado, utilizado a norte do país. As terríveis granadas de guerra inspiraram o nome no seu fruto: quando explodem produzem o mesmo efeito «mil bagas». O seu cálice, em coroa, estará na origem do desenho das coroas dos reis europeus...enfim, se non è vero, è ben trovato. São, de facto, observados de perto, muito similares. A ela está associado um mito grego que justificaria o ritual anual das colheita, envolvendo Hades e Perséfone. Esta, por ter comido uma baga de romã, ter-se-ia visto na contingência de viver no sub-mundo de Hades metade do ano e a outra metade com os seus pais, ao cimo da terra.

Das amoreiras que o Marquês de Pombal mandou plantar precisamente na Zona das Amoreiras, em Lisboa, é-nos revelado que é da família das figueiras. E mais uma lenda mitológica desponta: Píramo e Tisbe, com uma história de amor similar à de Romeu e Julieta, viram o seu destino ligado à amoreira, depois de ele, pensando que ela morrera do ataque de uma fera enquanto esperava por si debaixo da tília, se ter suicidado sangrando abundantemente - seguido por ela, como é bem de ver. Aparentemente a amoreira que seria branca e amarga teria, com o sangue dele, passado a vermelha e doce.

A história das amoreiras não se resume, afinal, à das nossas infâncias, em parte dedicadas a descobri-las nos quintais de vizinhos fúrios para alimentar bichos da seda desgraçadamente enfiados em caixas de cartão com buracos.

Deixo só uma margenzinha para falar do querido plátano (platanus orientalis acerifolia), com o odor da minha infância, quando passeava com o carrinho das bonecas pelo jardim de Entrecampos. Hipócrates tem o seu nome ligado a esta espécie em virtude de aí ter ensinado os seus alunos. O plátano de Hipócrates, localizado na ilha de Cós, na Grécia, é historicamente considerada a árvore mais antiga da Europa.

Fica esta pequena colecção das minhas árvores e/ou histórias preferidas de uma visita de duas horas. Mas há quem possa ter preferido a da hera (símbolo da castidade), da alfarrobeira (e a polémica que ainda hoje levanta saber se S. João Baptista, no deserto, comeria os seus frutos ou gafanhotos) ou do loureiro (árvore luminosa esta em que terá sido transformada, por seu pai, a ninfa Dafne, a seu pedido, desesperada com a perseguição que lhe fazia Apolo, no intuito de a beijar) ou até do nenúfar (ou flor de lótus).

A visita às árvores mediterrânicas já não se repetirá . Uma última sessão está reservada para a semana, sábado pelas 11.00 h sobre as plantas intercontinentais. Possa eu, que não perderei.

6 comentários:

io disse...

Um passeio profundamente estimulante! Aliás, sábado foi um dia profundamente profícuo! Beijos e espero que consigas vir no sábado!

antuérpia disse...

Píramo, sim senhora! Grata pela correcção, minha querida, e ao teu Perseu com sua inestimável sabedoria:))).
Foi, de facto, um sábado género «Um dia feliz». Não sei mesmo se vou conseguir repetir o programa matinal, mas este foi em cheio. Beijo

Anónimo disse...

Eu só sabia isso do Píramo porque sou grego, claro. E vê lá se vais ao próximo. Se não, quem é que vai estar lá para dar folhinhas ao cicerone? :D E se não fosses, para nós sempre seria uma flor a menos para contemplar.
Perseu

antuérpia disse...

Além de sábio, com muito espírito, este senhor Perseu (poderia pensar numa carreira de humorista, não? ;)))
Um momento de glória, de facto, o da entrega da folhinha, mas que praticamente esgotou os meus poucos minutos de fama...
Agora a sério, vou tentar, mas não me parece que vá poder ir:((. Estando por mim, contam depois, certo? Obrigada, meus queridos.

CarlosCP disse...

Para quem diz não ter "vocação" de cientista botânico, aqui está uma bela descrição do "arvoredo".
BJ

antuérpia disse...

Se gostaste, foi uma enorme pena não teres ido...limitei-me a reproduzir e muito aquém do que ouvi ;))).