A síndrome do "mundo mau"

«O discurso de muitos adultos de referência (pais,professores e políticos), veiculado e ampliado pelos meios de comunicação social (especialmente a televisão), descreve o mundo como um local onde só acontecem desgraças, um mundo povoado por pessoas mesquinhas e perversas (a que os americanos, por exemplo, já chamam o "mean world syndrome" - o síndrome do mundo mau).
Estando os nossos filhos sujeitos à mesma forma de pressão, não vamos estar à espera que pensem de outra maneira, a não ser que relativizemos as coisas, e que lhes mostremos os lado bom e altruístas das pessoas e da vida, e que o que está a entrar pela "caixinha das surpresas" na sala de estar, não se está a passar ali, mas algures. E que, muitas vezes, são casos isolados, mas que de tão repetidos, parecem multiplicar-se indefinidamente. Já repararam "quantas Maddies" desapareceram? Foi apenas uma mas, na nossa cabeça, todos os dias havia várias. (...).
Tentemos, por exemplo, ao jantar ou ao serão, conversar sobre outros assuntos que não seja exclusivamente as desgraças que aconteceram num mundo povoado por seis biliões de pessoas, seja o facto de o tempo estar mau, seja o de terem assassinado mais uma pessoa num local distante, impronunciável (...).
Até porque, queiramos ou não, temos que continuar a fazer a nossa vida do dia-a-dia. E mais vale fazê-lo com uma certa candura do que com o medo permanente no coração. Para um adolescente que encara a vida com algum temor, que se sente mudar e crescer, que é "empurrado pelo Bilhete de Identidade» para a adúlticia, pensar que se vai transformar num malandro ou num vítima de malandros não será, provavelmente, muito apetecível».
Mário Cordeiro in »O grande livro do adolescente».

Dei-me ao trabalho de transcrever tudo isto porque, sinceramente, há muito que me custa ver tantos filhos penalizados na sua autonomia - que foi das coisas que mais prezei na minha adolescência - por pais que se deixam literalmente paralisar de medo por esta «síndrome do mundo mau». Vigiar é uma coisa, fazer das crianças crescidas, adolescente e jovens, eternos pintos atrás das galinhas, é outra bem diferente.

Deixemos os nossos filhos respirar!

2 comentários:

io disse...

acho adorável esta tua forma de educar, minha querida. Tão atenta, tão preocupada. Tão mãe. Um beijo grande

antuérpia disse...

Profissão de alto risco, minha querida, asseguro-te. Acresce que os seus investimentos não têm qual garantia de retorno absoluto ;). Obrigada. bj