Querido diário vírgula troicas e baldroicas


Hoje, a mãe chegou a casa muito chateada porque ouviu dizer que, para além de cortarem os subsídios das pessoas que trabalham para a causa pública, e que ela achava que certamente não trabalhavam lá muito porque senão não lhes tinham cortado os subsídios, a troica dissera que era preciso baixar os salários das pessoas que trabalham para a causa privada, que ela sabe, por ela, que trabalham muito, mas que, pelos vistos, a troica acha que também trabalham pouco, e que a mãe gostava mesmo de saber era quem era a troica para dizer isso dela, mas o que ela achava mesmo é que baixar os salários era ilegal, que afinal havia leis e as leis eram para cumprir, mesmo que não fossem sempre muito cumpridas, mas o meu irmão Cajó meteu-se na conversa resmungada da mãe e, rindo-se muito, disse que isso das leis era uma coisa muito vaga, que, agora, quando se previa que alguma decisão podia ser ilegal, em lugar de se mudar de decisão mudava-se logo a lei, para podermos ficar pobrezinhos mas legaizinhos, e que a troica pode impor o que muito bem entender porque, afinal, nos empresta o dinheiro que nós já gastámos nas estradas por onde não passam carros e nos programas da CEE que deram muito dinheiro a ganhar a empresas de formação de dinheiro para elas próprias, e em outras coisas que nós só vamos sabendo aos poucos, e que os governos que seguem a troica fingem que as decisões más são da troica, porque acham que assim estão protegidos pelo escudo da troica, mas que estão muito enganadinhos, que o escudo não dá para todos, coisa que eu não percebi, porque eu pensava que a moeda agora era o euro e já não o escudo, mas adiante que eu não sei, a bem de ver, qual é a moeda da troica e, como sabes, querido diário, não posso perguntar muitas coisas por causa dos ranquinges das meninas de sete anos das escolas públicas, e a mãe, que nem ouviu o Cajó, disse que também não percebia porquê que os patrões, em lugar de estarem contentes com essa ideia de pagarem menos aos empregados,  preferiam manter-se a pagar-lhes o que a troica diz que é muito, mesmo que ela, mãe, saiba que não dá nem para comer quanto mais, e que isto até parecia que era um regime capitalista de pernas para o ar, só que o Cajó disse logo que a mãe não percebia nada, que era claro que os patrões gostariam de pagar menos aos seus empregados, que não iam prescindir assim dos seus charutos grandes, o que não queriam era deixar de serem patrões dos seus empregados por já ninguém poder comprar o que os empregados produziam, que eles são capitalistas porque não são parvos, coisa que o Cajó até desconfiava que os senhores da troica podiam ser à vontade - o Cajó às vezes diz estas coisas menos bonitas, mas acho que é por estar muito zangado por já não ir receber a PS3 no Natal - porque, mesmo quando os senhores da troica mandam bitaites errados não perdem eleições, nem negócios, nem sequer os seus salários, porque é assim com todos os tecnocratas, esta palavra deu-me muito trabalho a escrever, querido Diário, e eu  fiquei muito cansada, mas o Cajó disse logo é que é mas é por ser portuguesa, que os portugueses ficam muito cansados com pouco, pelo menos é o que pensam os senhores da troica e que, por isso, é que vamos todos ganhar menos do que ganhávamos, mas eu acho que é antes porque o mundo era muito mais simples há muito, muito tempo quando eu só tinha seis anos e, agora que já tenho sete, parece que está a ficar complicado de propósito só para eu não perceber nada, hoje, a mãe nem precisa de me mandar para a cama, que eu mesmo vou sem ela, quer dizer, a mãe mandar, adeus!

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