Excertos literários da minha vida (10)



Albert Camus

"- M. Othon falou-me de si esta manhã - acrescentou subitamente Rieux, no momento em que Rambert ia deixá-lo. - Perguntou-me se o conhecia: «Aconselhe-o, então, a não frequentar os meios do contrabando, disse-me ele. Está a fazer-se notar.»
- Que quer dizer isso?
- Isso quer dizer que tem de despachar-se.
- Obrigado - disse Rambert, apertando a mão ao doutor.
Já à porta, voltou-se de repente. Rieux notou que, pela primeira vez desde a peste, ele sorria.
- Porque não me impede, então, de partir? O senhor dispõe de todos os meios.
Rieux abanou a cabeça com o seu movimento habitual e respondeu que isso dizia respeito a Rambert, que ele tinha escolhido a felicidade e que ele, Rieux, não tinha argumentos a opor-lhe. Sentia-se incapaz de julgar o que era bem ou mal nesta emergência.
- Nessas condições, porque me diz que me despache?
- É, talvez, porque também tenho o desejo de fazer alguma coisa pela felicidade."

"A peste", Albert Camus.  Ed. Livros do Brasil. Tradução de Ercílio Cardoso.

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