Fiança: o drama de uma mera assinatura


Em meados do mês passado, os media noticiaram que ser fiador é actualmente a terceira causa de sobreendividamento em Portugal. Traduza-se: pessoas que, por bem dos que lhes pediam, e crédulos num país que aparentemente dava garantias eternas de emprego para todos, aceitavam ser fiadores de outro alguém - familiares, amigos e até meros conhecidos (!!) - acabam agora na pobreza, muitas delas com penhora dos seus poucos bens.

A fiança foi um instituto pensado sobretudo para valores reduzidos, e para funcionar a uma escala social rural ou rural/urbana, com parcimónia, responsabilidade e bom senso, baseado precisamente na relação de "con-fiança" entre as três partes. Não se destinava a apanhar pessoas de boa-fé em contra mão, como perversamente está a acontecer hoje em dia.

O devedor só pedia a alguém para ser fiador, se a sua própria sobrevivência ou da família dependesse disso. O fiador conhecia e acreditava no devedor (ou na família deste) para honrarem o compromisso e assumia responsavelmente a garantia, medindo o seu peso nas suas próprias finanças. O credor, por seu lado, emprestava, acreditando que no final seria pago, porque conhecia pessoalmente (por regra) ambas as partes.

O instituto jurídico da fiança permaneceu imutável nos artigos 627º a 633º do Código Civil, enquanto o mundo dava uma pirueta de 180 graus. Os portugueses mudaram. Os mutuários caprichosamente queriam o que desejavam.  Os fiadores irresponsavelmente cediam, não medindo a extensão das obrigações a que ficavam vinculados mediante argumentos como "o que é que custa, é só uma assinatura, é evidente que vou pagar eu tudo". Os credores maliciosamente contentavam-se com a declaração de IRS dos fiadores, e com a sua assinatura (usando e abusando dele aliás, fazendo calada regra da excepção da renúncia ao benefício da excussão prévia, que lhes permite até executarem o património do fiador antes mesmo do do devedor).

Os últimos anos foram, neste aspecto como em outros de idêntica natureza, uma "belle époque" irresponsável, que não deixa saudades. Nenhumas.

Sem comentários: