Excertos literários da minha vida (28)





"Eu escutava imóvel, e depois uma longa linha de fogo percorreu o céu de uma ponta à outra, e no estrépito que ocorreu quase de imediato a chuva fustigou o velho jardim.
Escutei com satisfação esse ruído múltiplo, de sonoridades secas e perfeitamente adequadas à melancolia das memórias antigas; e em breve o sol voltou a brilhar, restituindo-me a mim próprio, com esta imensa bênção do universo que todos experimentamos num momento qualquer das nossas vidas, a fragrância mais delicada que existe no globo, simultaneamente a mais jovem e a mais imemorial, a mais tenebrosa e a mais inocente, a mais próxima do início do mundo e a mais nova, aquela que agita no coração humano a maior tristeza e a maior alegria: o perfume da terra molhada."

"Paris", Julien Green. Tinta da China. Tradução de Carlos Vaz Marques.

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